
Desde o Maio de 68 e dos anos 70, o Ocidente viveu, com os seus sobressaltos mais ou menos violentos, uma espécie de paz podre, de "pós-política": um tempo de hegemonia tecnocrática, consenso liberal e burguês e a sensação de que a História tinha chegado a um fim confortável, embora ferozmente entediante. Onde antes existia o confronto de classes e de massas e o choque das grandes ideologias, institui-se uma gestão gélida, pautada pelos mercados e pelo silêncio hipócrita dos gabinetes, que trabalham mais próximos das agências de marketing do que do frenesim das ruas. Ora, esse período de vazio chegou ao fim. Contudo, o que o substituiu não foi o regresso à luta de classes, mas uma sociedade altamente polarizada de produtores e consumidores de conteúdos e algoritmos. As mesmas pessoas que utilizavam as redes sociais com vídeos e fotos de gatinhos, hoje partilham manifestos políticos, embora maioritariamente sem grandes consequências.
Entrámos, assim, na era da hiper-política. Na hiper-política, a política está em todos os lugares: nos nossos ecrãs, nos nossos hábitos de consumo e até nas nossas relações pessoais. Ao mesmo tempo, a nossa sociedade é marcada pelo declínio das instituições e pelo isolamento. A hiper-política cresce no mercado porque transformou o cidadão num mero consumidor volátil.
Mas desenganem-se os novos caudilhos, os novos "fuhrers". A coisa pode virar para uma nova extrema-esquerda ou para o renascimento da espiritualidade e do anarquismo. No vazio, triunfam os profetas da rebeldia. Os Trumps, os Macrons, os Starmers, os Montenegros e os Venturas têm os dias contados. O centrão já está a cair no abismo. Estamos no Apocalipse, no Caos e na Desordem da Bíblia, de Rimbaud e de Jim Morrison. As alterações climáticas, as guerras, as pestes, a impotência dos governos ocidentais (salvo raras excepções...) só vêm acelerar o processo. A Grande Revolução está ao virar da esquina.
António Pedro Ribeiro, Sociólogo, poeta e pensador...