Voz da Póvoa
 
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LUÍS DE CAMÕES, APR E A DEUSA-MULHER

LUÍS DE CAMÕES, APR E A DEUSA-MULHER

Opinião | 31 Janeiro 2026

 

"Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te
quão cedo de meus olhos te levou."
(Luís de Camões)

Luís de Camões cantou a mulher ao lado de Homero e de William Shakespeare. Em Portugal, os seus herdeiros são Bocage, Antero de Quental, Camilo Pessanha, Cesário Verde, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Jorge de Sena, Alexandre O' Neill, Herberto Hélder e pouco mais, muito pouco mais.

"O que hoje por aí circula nas vozes e nos ecrãs não passa de um patoá informe e desenhado a bonecos. O Acordo Ortográfico, o maior atentado contra a língua por políticos consumado, solidificou a traição. Com as novas tecnologias por cima, pazadas de terra sedimentando as asneiras e enterrando-a em novas simplificações e erros, a língua perdeu-se", como bem afirma Clara Ferreira Alves.

Camões é de todos os tempos mas vive o Renascimento: glorifica a mulher amada, fazendo dela uma emanação directa do Céu, uma Deusa, como Minka ou Afrodite, tal como nós, modestamente, fazemos: A mulher "faz-me ver na Terra o Paraíso".

A contemplação da beleza da amada provoca no poeta um arrebatamento espiritual tal de modo que tudo no plano terreno parece fútil e trivial. Vale a pena perder o juízo pela beleza da mulher: "Que quem vos fez, fizesse Céu e Estrelas". A Mulher, a Deusa é Tudo, é a Ideia Pura de Platão. No entanto, o poeta precisa de mais, precisa da carne, do sexo, da luxúria. O homem comum resigna-se com o conforto e a estabilidade. Mas o amor não; o amor vive do desejo e o desejo deixa de existir quando é satisfeito.

O poder do Amor é superior ao poder do tempo, uma vez que só ele pode eliminar a tristeza. A própria razão é vencida pelo amor:

"A mulher
sempre a mulher
divina infinita
irmã de Deus
por ti incendeio o mundo
por ti saqueio os céus."
(António Pedro Ribeiro)

António Pedro Ribeiro, Sociólogo, poeta e pensador…

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