Voz da Póvoa
 
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Ivo Flores ou a história de “O último trovador”

Ivo Flores ou a história de “O último trovador”

Opinião | 1924 | 18 Setembro 2019

“Morreu o teu amigo Ivo Flores” e, de contínuo, em jeito de récita, Moustaki: “Je ressemble a ceux qui font la route ensemble, pour chercher quelque chose et pour changer la vie”… Depois o “refrão”, pessoal: et voilá la fonction de la poesie. “Traduzindo” liberrimamente (Eu, companheiro itinerante à procura de mudança, função primordial da música/poesia).

Eis o trajeto que o Ivo percorreu, como que ao Deus dará. A “tournée” terminou em França, nossa padroeira artística secular, destino privilegiado desta interminável e insanável diáspora.

Nas suas visitas à Póvoa, exibia um reportório a um tempo “tradicional” e aculturado, eclético, cosmopolita. E sendo, na raiz, um “entertainer”, formigou o seu carreiro, não raro em sentido contrário, renegando o “pimbalhismo carreirista” que já havia muito estava a dar. Criou um estilo próprio, eclético, incorporando no seu vasto reportório o que fosse bem com a sua sensibilidade musical. Personificou a interculturalidade musical, condição indispensável à harmonia entre os povos que ainda cantam, antes que morram de ódio ou… tédio.

Fui ouvi-lo, há uns dez anos, num bar em Vila do Conde. Compareceram vários familiares seus. Lamentavelmente aconteceu a não rara cena de ter que se irritar com a canalhada ruidosa, mais adestrada a outros ritmos. Segredou-me: “isto de dar pérolas”…Pois…é o que temos! …

É preciso ter azar e o Ivo teve muitos. Sublinho a cerimónia fúnebre a que tantos admiradores seus acorreram. Até na Hora da Despedida, supostamente de mais encanto, teve azar, agora com o Sr. Abade que lhe calhou em sorte, a milhas do que de si se esperaria. Não fosse o canto celestial que abriu a sessão (“prova inquestionável da existência de Deus”, aceito), não teria havido encanto nenhum nesta hora de graça. É que o bom do Abade, terminado o canto, como que “o dique das asneiras arrebentou”(Bocage). Foi todo um sermão e missa cantada obsoleto, mais penoso que o sofrido pelo povo hebreu na bíblica travessia do deserto. Entre o discurso deste e o pandemónio daqueles, viesse o diabo escolher.

Ó Sr. Abade, deixe-me dizer-lhe que aí há uns trinta anos assisti (missa das onze no Sagrado Coração de Jesus) a um espectáculo tão insólito quanto pedagógico: o padre titular (só comparável ao actual Papa Francisco) fora substituído, porque adoentado, por outro. Começou este a consabida pregação e há que ver os fiéis avisados a debandarem porta fora, ficando a basílica pouco mais que vazia. Foi isto, repito, há uns trinta anos… o espírito crítico e libertário de Abril (“Flores de Abril” que o Ivo também e tão bem recriou) ainda latejava. Agora conceda-me a liberdade de lhe confessar, Sr. Abade, que também eu “senti vergonha de existir, de estar ali na Misericórdia pensando, só pensando, colaborando e remoendo, sem resistir”. E era tão fácil abandonar a cerimónia (já nem digo bater com a porta) e vir para o Sol… Confesso que não sei porque não saí: se por cobardia (isto de parecer bem ou mal, mais a mais numa cerimónia fúnebre), se por “respeito” à memória de quem nos aí levou. O Sr. Abade, na sua congénita humildade (que eu não consigo dissociar de humilhação) ousou recatequizar adultos (crianças lá não vi e pouquíssimas mais se verão, consulte as estatísticas), caiu em flagrantes contradições, repetiu-se como quem perde o ponto, evocou o Papa Francisco de forma enviesada só se esqueceu do novo “mandamento” deste abençoado Papa: “Prefiro um ateu a um cristão hipócrita”. Perdoe-me a imodéstia (afinal sou só um pobre servo da poesia), mas angariava mais fiéis se seguisse a filosofia da Sophia M. Breyner: “a poesia/música é das raras atividades que na atualidade (dela e nossa) tenta salvar uma certa espiritualidade. Não é nenhuma religião (Deus nos livre, digo eu!), mas todo o artista não produz arte senão para a salvação da sua alma”. Eis o que o Ivo passou a vida inteira a fazer e nós, Deus nos perdoe, quase não falámos nele. Imperdoável?!...

Até sempre, Amigo Ivo!

Alcino Santos

 

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