
Eis que o novo ano se faz, finalmente, presente, não mais anúncio.
Dentro d’Ela, um novo ciclo há muito já ganhava espaço e peleava com o antigo, moribundo, que se recusava a findar.
É que é difícil despedir-se de uma parte de si mesma, ainda que essa parte, outrora apoio e companhia, agora nos abrande os passos…
É aterrador fechar a porta atrás de si e não ter controle sobre o futuro, apenas o rascunho de um mapa que o sonho desenhou…
Ainda assim, ela sempre soube que o Caminho se faz caminhando e que tudo o que deseja já está ao seu alcance, basta não desviar o olhar.
Durante meia década ela dedicara, semanalmente, as suas palavras aos corações das gentes do sul ao norte do mundo, sempre a enaltecer as coisas simples da vida.
Meia década… dito assim até parecia tempo demais, e enquanto pensava nisso sentiu na pele o peso da relatividade: nesse período vivera mil vidas, tivera mil mortes, reinventou-se milhares de vezes e, no presente momento, sente que jamais saiu da terra natal, sente a quietude e a paz de ser inteira pois tornou-se quase capaz de olvidar que um dia foi incompleta.
Até dá gozo pensar em quão distante foi buscar o que sempre esteve dentro d’Ela…
Mas havia uma verdade impertinente que ecoava em seu peito, apesar da teimosia quase infantil que A fazia ignorar, tornando-a surda à própria voz: já não havia sobre o que escrever…
Não por carência de experiências, e sim pela serenidade que alcançou, pois as palavras, que dantes eram fontes abundantes, hoje, em conta- gotas, nutrem menos que o silêncio.
Escusado seria dizer que Ela nunca fora dada a ninharias, pois em tudo o que fazia derramava a sua vasta essência, marcando sua presença em tudo o que criava.
Como poderia Ela fazer diferente com o dom que a retirou da campa vezes sem conta?!
Como deixar que ele definhasse indignamente, limitando-se a traduzir mecanicamente os mesmos sentimentos que dantes iluminava com a alma?!
Não podia… e pelo respeito e amor por esse dom, por essa versão sua que já não cabe no agora, retirou as muletas da Inspiração e permitiu a ela o descanso merecido, sem data marcada para um regresso, mas também sem despedida, pois sabe que sempre é possível revisitar versões antigas de si mesma, sem deixar-se envolver por elas.
Com todo o amor e gratidão que possam existir nesse vasto Universo ela honra quem foi, abençoa que é e agradece por cada coração que pulsou ao ritmo das suas palavras durante os últimos cinco anos.
Até um dia!
Maria Luiza Alba Pombo, a contar pela escrita