Voz da Póvoa
 
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Gozar com doentes e bajular os fortes...

Gozar com doentes e bajular os fortes...

Opinião | 4 Agosto 2026

 

Havia uma aldeia onde todos os caminhos se cruzavam no mesmo largo.

De um lado erguia-se um templo. Do outro, uma escola de judo. Entre ambos crescia uma figueira centenária, tão antiga que já ninguém sabia quem a plantara. Dizia-se apenas que as árvores sobrevivem porque dão sombra até a quem lhes atira pedras.

Todas as manhãs, o velho mestre do judo varria o chão antes de abrir a porta. Não porque estivesse sujo, mas porque repetia aos alunos:

"Quem não aprende a limpar o lugar onde pisa nunca saberá levantar quem caiu."

Ninguém lhe dava grande importância. A multidão preferia reunir-se debaixo da figueira.

Ali havia um artista.

Era rápido de palavra, inteligente de improviso e conhecia o segredo das gargalhadas. Nunca fazia troça do homem mais rico da aldeia. Nem do juiz.

Nem do senhor das terras. Quando eles passavam, sorria com respeito.

Mas bastava aparecer um pobre, um velho, um doente ou alguém diferente para começar o espetáculo.

As gargalhadas ecoavam pelo largo.

As moedas caíam-lhe aos pés.

E alguém dizia sempre:

"É apenas humor."

Numa tarde de verão chegou um peregrino.

Sentou-se sem dizer palavra. Ouviu o espetáculo do princípio ao fim. Quando todos se preparavam para regressar a casa, perguntou apenas:

"Na vossa aldeia, quem cuida dos mais frágeis?"

Responderam-lhe quase em coro:

"O templo."

"Então o templo deve estar contente."

"Contente? Porquê?"

"Porque ouviu as gargalhadas."

Um silêncio pesado caiu sobre o largo.

O peregrino caminhou lentamente até ao templo. A porta estava aberta.

Lá dentro lia-se o Evangelho.

Falava-se do bom samaritano.

Da compaixão.

Da misericórdia.

Do cuidado pelos mais pequenos.

Cá fora, porém, a fragilidade transformava-se em espetáculo.

O peregrino voltou ao largo e perguntou ao velho sacristão:

"Os sinos chamam todos à mesma oração?"

"Chamam."

"E também chamam quem faz rir à custa de quem sofre?"

O sacristão suspirou.

"Chamam. Mas nem todos escutam."

"Nem aqueles que vivem da sombra do campanário?"

O velho baixou a cabeça.

"Há quem ouça os sinos todos os dias e, ainda assim, deixe de ouvir a própria consciência."

Nesse instante, o mestre do judo aproximou-se.

Chamou o artista.

"Puxa-me."

O artista empurrou-o com toda a força.

Num movimento quase invisível, foi projetado ao chão pela energia que ele próprio tinha usado.

O mestre estendeu-lhe a mão.

"No judo aprendemos cedo que a força serve para criar equilíbrio, não para humilhar. Quem procura esmagar o mais fraco acaba, quase sempre, derrubado pelo peso da sua própria força."

O peregrino sorriu.

"Talvez aconteça o mesmo com as instituições."

Ninguém respondeu.

Os sinos começaram a tocar.

Mas, pela primeira vez, ninguém olhou para a torre.

Todos olharam para o largo.

Porque compreenderam que o verdadeiro escândalo nunca é uma gargalhada.

É quando a casa que anuncia a misericórdia empresta o seu púlpito à humilhação dos vulneráveis e se convence de que o silêncio também não precisa de prestar contas.

E os sinos continuaram a tocar.

Talvez não para acordar a aldeia.

Talvez para acordar a consciência de quem os manda tocar.

 

Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor

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