Voz da Póvoa
 
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Estou aqui à rasca do meu telemóvel

Estou aqui à rasca do meu telemóvel

Opinião | 18 Junho 2021

Já não tenho cabeça para a memória e esqueci como funciona. Liguei para as avarias e aconselharam-me um psicanalista, mas é o contrabandista que alinha a carteira e o meu curriculum.

Está tudo doido, já ninguém nos olha na carne, só pelo Facebook. A felicidade envergonhou-se em casa e a tertúlia está em desuso. Olho no rectângulo da cabeça, o telemóvel tem pescoço. No pulso o colarinho fica bem, não sei se a gravata também.

“A Cobrição das Filhas” não originou “A Desumanização”, mas são poemas do mesmo autor.
O Governo quer-nos Online, mas estamos quase todos off.

Desligado apetece-me ligar ao mundo, explicar-me primitivo, da idade do fogo que ainda arde, infinito enquanto dura, como o amor do Vinícius.

A maçã com bicho é vitamina. Sem, contamina.
 
Fruticultura industrial, agricultura igual.

O Brasil voltou à normalidade, 25 mortos em operação policial numa favela no Rio de Janeiro. Há quem precise de um inquérito para contá-los.

A terra podre na cimeira dos doze, a definhar na recolha porta a porta, a indústria do plástico, do vidro, do papel, o indiferenciado antibiótico da horticultura, enquanto o insecticida mata e envenena o futuro a uma velocidade freática, sem qualquer controlo.
A pegada ecológica, antológica, morfológica e a lógica é deixar regressar o bicho à maçã, o piolho à folha e a abelha ao pólen.

A vida é puro mel e este vinho não sabe a rolha.

 

Pablo Rios Antão

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