Voz da Póvoa
 
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Enamoramento

Enamoramento

Opinião | 3 Março 2026

 

O rio Esteiro da minha infância, antes de ser escondido por cimento, do Cruzeiro até ao mar, outrora corria livre a desenhar meandros e ilhotas que proporcionavam saltos desafiadores à juvenil afirmação, era encantador e nós não sabíamos. Agosto de marés vivas, levadas pelas alterações climáticas; os saltões, pulgas-do-mar deixaram de nos acompanhar nas areias quentes, depois do banho gelado, de iodo e sal. O “mar bravo” levava as águas à foz do rio formando piscina de aprendizagem natatória, o “ai ó!,  ai ó!” exprimia alegrias juvenis.

O rio de variados nomes, nascente na Fonte do Galo, a norte do cemitério a caminho das Sencadas, lugar propício ao “armar aos pardais”, da parca proteína animal, importante na dieta dos mais pobres; imagem ficou de homem agachado protegido da chuva, vigilante do esperado estrebuchar da presa na ratoeira. Caça mais grossa, coelho bravo ou lebre, era arte cinegética a exigir espingarda ou varapau mais matilha esfomeada a disputar ruidosamente bocados de broa atirados pelos caçadores na merenda depois da jornada cinegética, pela tardinha, na ampla loja do meu pai.

O rio das Canas, outrora, atravessava o adro, o “terreiro” da Igreja da Nª Senhora das Neves, a céu aberto, pequena ponte fazia a passagem. Não cabe já na memória, não o vi assim, mas imagino-o a bucolizar este espaço de todas as aventuras a perdurar desde a infância. Povoado que foi por muitas árvores, limitado a nascente pela Casa Paroquial e pela Casa da Lavoura de porta larga deixando sair os cheiros variados, sementes, adubos e fava-rica. Casa da Lavoura, porta aberta pelo diligente Sr. Francisco, leitor do 1º de Janeiro do dia anterior que procurava na mercearia e vinhos, a Loja do tio Abraão, meu pai, velha casa construída pelo avô António d`Além, carpinteiro naval de Portugal ao Brasil. Da igreja, “restaurada” tão a despropósito, restam os dois painéis da vida de Cristo a ladearem o Altar-Mor, o do lado da sacristia já pouco visível. 

A escola primária de Refojos, construída pela Ditadura Nacional, deixou-me a aprendizagem do apelo à memória das dinastias, batalhas, reis e cognomes, heróis sem mácula nem pecado, sempre vitoriosos, Alcácer-Quibir, Ter! Ter! a justificar o fracasso, montanhas e caminhos de ferro mais as suas estações, operações aritméticas com as vírgulas a complicar, áreas e volumes, ditados a não poder exceder os quatro erros nos exames da 4ª classe e na Admissão ao Liceu.

Só se lembra dos caminhos velhos… os que amam e não esquecem a sua terra. O largo, limitado pela estrada municipal que leva à Póvoa, ainda mantém as casas que lhe deram a identidade; a casa abrasileirada do Dr. João Amorim, a casa que foi de lavoura do tio Aderbal, a minha, reconvertida a loja em habitação agora que foi vendida e a padaria do sr. Moreira, à espera de renascimento que contribua para a beleza do espaço.

Abílio Travessas

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