O tilintar agudo produzido pela colher a embater contra o copo de vidro atravessa a casa até o quarto onde Ela repousa.
O cheiro do café recém passado invade as suas narinas, trazendo memórias e conforto ao coração.
O sol desperta tímido por entre a serra, acordando a vida devagar, convidando a contemplar a beleza do mundo sem urgência, mas com plena atenção ao seu requinte.
Os gatos pulam sobre a cama e massageiam suas costas com patinhas macias tal qual novelos de lã, expiram em seus ouvidos e miam na esperança de fazê-la levantar.
Caçam um ao outro por entre os cobertores e realizam manobras de fazer inveja a qualquer artista circense, divertindo-a e inspirando-a.
O ser humano seria tão mais feliz se vislumbrasse a vida como os gatos! – pensou Ela, por momentos…
Atentos a todo o Universo ao seu redor e entretanto capazes de focar momentaneamente apenas naquilo que lhes dá gozo, ou alegria.
Sempre preparados para a luta, mas concedem especial preferência à brincadeira.
E desfilam com a graça dos deuses sobre o tempo, aproveitando plenamente até o último segundo.
A voz da filha e do marido desviam-na dos pensamentos trazendo-a de volta à realidade.
Àquela rotina que já não teme pois não se fez cárcere, e sim a expressão mais genuína de amor e felicidade, de plenitude e gratidão.
Ter a família reunida sob o mesmo tecto, a comida sobre a mesa, os sonhos realizados, a saúde para gozar do tempo que lhes foi ofertado e paz de espírito, o que poderia Ela mais desejar?
Muitas vezes o caminho para o paraíso está no óbvio, o extraordinário engana os sentidos!
Maria Luiza Alba Pombo