Voz da Póvoa
 
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Desterro: Os Professores, as Empregadas, os Piolhos e “Angola é Nossa”

Desterro: Os Professores, as Empregadas, os Piolhos e “Angola é Nossa”

Opinião | 26 Fevereiro 2021

A D. Alice Correia era uma professora competente comprometida com a missão de ensinar, tratava todos os alunos com equidade, impunha no entanto uma disciplina apertada socorrendo-se para o efeito de uma longa cana que à menor distração aterrava nas nossas cabeças e uma robusta régua de madeira para aplicar os afamados “bolos”. Tinha já alguma idade por isso quando o castigo a aplicar exigia maior vigor físico – mais de seis palmatoadas - requisitava a ajuda do temido professor Grácio, director da escola e vizinho da sala em frente. Corria entre os alunos um mito nunca comprovado que umas gotas de azeite e um cabelo de crina de cavalo na palma da mão tornavam a pancada indolor. Apesar de ser um instrumento de que ninguém gostava a célebre régua era por nós escondida aquando das visitas do inspector escolar para, pensávamos, evitar que a professora fosse chamada a atenção e quiçá futuramente as nossas mãos serem poupadas à sua acção. Ingénuas e inúteis iniciativas porquanto a professora, indiferente às nossas demonstrações de cumplicidade, continuava a distribuir “bolos” com regularidade. Ao tempo as reguadas eram praticadas pela generalidade dos professores, toleradas pelas inspecções e incentivadas pelas famílias dos alunos.

Os restantes professores eram também de idade madura com vinculação efectiva, preenchiam integralmente o quadro da escola não havendo por isso professores jovens. Recordo além da D. Alice a D. Celeste Branco, os casais professor Mota e D. Edite vizinhos da escola, professor Amadeu e D. Aurora. O professor Amadeu, recentemente desaparecido, era uma figura simpática, baixinho e gordinho, tinha carro o que era uma raridade na classe e lhe valeu a carinhosa alcunha de “Cetola Carriana”.

As empregadas auxiliares da ala masculina, de seus nomes Olívia e Ana Paçó, asseguravam a limpeza geral da escola, atestavam os tinteiros das carteiras com uns enormes garrafões de tinta azul, abasteciam o depósito de paus de giz para o quadro negro e vigiavam os nossos intervalos enquanto manuseavam com destreza as agulhas de um infindável crochê.

Nas ilhas onde residiam muitos dos meus colegas as condições sanitárias eram reduzidas. Os professores não se cansavam de chamar atenção para a necessidade de criar hábitos de higiene e incumbiam as empregadas de periodicamente examinarem as cabeças suspeitas em busca de piolhos. Quem testasse positivo era compelido a um corte radical do cabelo e submetido diariamente ao entrar na sala à embaraçosa aplicação de DDT.

Guardo muitas memórias daqueles tempos, com especial nitidez duas da fase final: - Os ensaios de “Angola é Nossa”, um cântico de exaltação “nacionalista” de tom marcial com palavras para nós ininteligíveis “... é carne é sangue da nossa grei...”; - A manhã fresca de fim de Primavera em que ansioso concluí o exame da quarta classe.

Na Escola do Desterro vivi, com a avidez da pré-adolescência, quatro anos de inesquecível aprendizagem e descoberta.

João Sousa Lima

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