Voz da Póvoa
 
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Catequista ao domicílio, das virtudes teologais aos pecados contra o espírito santo

Catequista ao domicílio, das virtudes teologais aos pecados contra o espírito santo

Opinião | 18 Junho 2021

Ana Paçó, competente empregada na escola do Desterro, era dotada de uma invejável visão periférica e elevada capacidade multi tasking, conseguia, entre outras tarefas, vigiar os nossos intervalos manusear com destreza as agulhas de crochê e sem errar um ponto, pacificar qualquer altercação mais ruidosa.

Solteira e virtuosa, morava de favor com uma tia ali para os lados da Beneficente. Na igreja Matriz era catequista encartada, além de colaborar nas limpezas e na decoração dos altares. Não faltava diariamente à primeira missa. Aos domingos a sua voz inconfundível destacava-se a cantar o “tantum ergo sacramento”. Sentia-se injustiçada com a distância a que o Prior a mantinha mas, sem desanimar, redobrava o seu afã nas tarefas da paróquia.Como catequista não era fácil a sua vida, na igreja Matriz tinha a concorrência das catequistas mais novas, na igreja do Coração de Jesus a catequese dos jesuítas e no colégio das freiras as doroteias. No entanto, os poucos “alunos” que ela preparava eram normalmente bem sucedidos na grande prova de avaliação dos conhecimentos adquiridos com vista àcomunhão solene. Não poupava disponibilidade nem esforços para ter sucesso. Durante dois anos, uma vez por semana, em horário pós-laboral, deu-me “explicações” de catequese ao domicílio. O exigente programa de aprendizagem, começava pelo básico significado do sinal da cruz, seguia pelas virtudes teologais, passava pelos mistérios da santíssima trindade, continuava com as bem-aventuranças e os mandamentos para culminar com os pecados contra o espírito santo. Estava determinada a fazer de mim um cristão bem preparado. O roteiro era sempre igual, antes de começar valia-lhe uma chávena de leite com cevada e o pão de trigo com marmelada para aconchegar o fim do dia. A “aula” tinha um prólogo e um epílogo ambos preenchidos de sinais da cruz e padre nossos e entre eles as repetições que fossem necessárias até saber na ponta da língua todas as respostas às perguntas que constavam do livro guia. Ao fim de dois anos, cumprido à risca o programa, sabia de cor as provas da existência de Deus, o significado das três virtudes teologais, as oito bem aventuranças, os dez mandamentos, os sete pecados contra o espírito santo. Estava pronto mesmo sem saber em que consistia a “presunção de salvação sem merecimento” e no extremo oposto “a desesperação de salvação”. Superei o interrogatório do senhor prior com a nota máxima. Como recompensa, no dia 28 de Maio de 1964 depois da comunhão solene e do crisma, fui o primeiro porta estandarte da catequese na procissão do Corpo de Deus. A meu lado orgulhosa e comovida a senhora Ana.

João Sousa Lima

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