Voz da Póvoa
 
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CARTA À MULHER

CARTA À MULHER

Opinião | 1952 | 13 Maio 2020

Segundo Mircea Eliade, a mulher está misticamente solidarizada com a Terra, a dar à luz apresenta-se como uma variante, à escala humana, da fertilidade telúrica. Todas as experiências religiosas relacionadas com a fecundidade e o nascimento têm uma estrutura cósmica. A sacralidade da mulher depende da santidade da Terra. A fecundidade feminina tem um modelo cósmico: a Terra-Mãe, a Mãe Universal. O homem e a mulher são associados, respectivamente, ao céu e à terra. Ao amarmos a terra, amamos também a mulher, porque a mulher está muito mais próxima da terra, da natureza, do "Uno Primordial" do que o homem.

Temos que celebrar a mulher. A mulher livre e selvagem. Por isso tantas vezes a provocamos. A mulher sagrada. Como Maria Madalena. Que nos dá à luz e nos dá a luz. Que nos dá o amor.

O sagrado feminino tem sido espezinhado ao longo dos séculos pelos poderes e pelas Igrejas. Só assim se explicam tantas guerras, tanta ganância, tanta luta pelo poder. A revolução anarquista e surrealista passa pelas mulheres. Daí o endeusamento da mulher feito pelos surrealistas.

As mulheres têm um poder de que nem sempre têm consciência. O poder de dar o amor, o poder de criar vida. Sim, agora compreendo. Não pode haver contradição entre o amor e a revolução. Amamos as mulheres. Dissemos, escrevemos aquelas palavras, aqueles palavrões só para as provocar, para as despertar.

É uma bênção olhar para a mulher amada, para a mulher que passa. É uma bênção sermos abençoados pelo sol. Mas a mulher tem de ter noção de quão abençoada é. Eis uma das missões do poeta. O poeta está cá para cantar a mulher, a beleza da mulher. O poeta está cá para derrubar o capitalismo mas ao fazê-lo deve celebrar a mulher. O poeta não pode ter um discurso puramente político, puramente marxista ou anarquista social.

Olha o anjo que entrou. O poeta tem que falar aos anjos. O poeta tem que voltar à adolescência, quando falava de paz, amor e anjos. O poeta tem que ser a criança sábia. O poeta nada tem a ver com os poderes.

O poeta fala outra linguagem. O poeta anda sempre na demanda do Graal. O poeta não vive no mundo dos políticos, nem dos empresários, nem dos financeiros, nem dos bolsistas.

O poeta torna-se naquele que é. O poeta é livre. O poeta quer a mulher livre. O poeta quer o homem livre. O poeta quer a união sagrada.


António Pedro Ribeiro – Sociólogo e Poeta

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