
Há uma ideia silenciosa que ainda persiste: a de que existe uma “idade certa”, um momento ideal, antes de se assumir determinadas responsabilidades. Mas a verdade é que esse momento raramente chega, e muitas vezes, é até um pretexto confortável para adiar.
Aos 23 anos fui eleita presidente de junta. Não só a mais nova de sempre no concelho, como também a primeira mulher a assumir essa função. E, com isso, percebi que o verdadeiro desafio não está apenas em chegar, mas na forma como somos recebidas quando lá chegamos.
Ser mulher e ser jovem numa posição de liderança é perceber que, demasiadas vezes, não entramos numa sala em igualdade de circunstâncias. Nem sempre começam por ouvir aquilo que temos para dizer. Muitas vezes, começam por questionar a nossa idade, a nossa experiência, a forma como falamos ou como nos apresentamos, e só depois as ideias que trazemos. É perceber que, demasiadas vezes, a dúvida não vem do nosso trabalho, mas simplesmente porque somos mulheres e jovens.
E isto não é apenas uma perceção. Sente-se nos pequenos momentos: numa interrupção que não aconteceria a um homem, na primeira palavra que é dirigida a outro e não a nós, numa expectativa constante de que temos de provar mais para sermos reconhecidas da mesma forma. Ser mulher e ser jovem nesta posição é carregar, diariamente, este escrutínio silencioso.
A igualdade não se mede apenas pelo acesso aos lugares. Mede-se, sobretudo, pela forma como somos tratadas quando lá chegamos. E enquanto houver necessidade de explicar, justificar ou provar em dobro aquilo que fazemos, então não, ainda não estamos onde devíamos estar.
Ainda assim, há uma certeza que carrego: ninguém chega a um cargo com todas as respostas, seja homem ou mulher, seja mais velho ou mais novo. A diferença é que a uns é permitido aprender enquanto fazem, e a outras exige-se que cheguem já sem margem para errar.
E é talvez aqui que está o ponto. Não na ausência de dúvida, mas na forma como lidamos com ela. Porque não há um momento certo à espera, há decisões que se tomam antes dele existir. E, muitas vezes, o que define o caminho não é a condição em que começamos, mas a forma como recusamos ficar parados.
Ana Rita Sencadas, Presidente da Junta de Freguesia de Aver-o-Mar