
“Nos últimos dias do franquismo, dois jogadores do Racing Santander entraram em campo com uma braçadeira negra”(Marco Vaza, Público, 4 de Outubro de 2025).
Dois rebeldes mais no “ludopédio”. Futebolistas inconformistas num universo tão igual num mundo tão desigual, com permissão do poeta padre Martins Júnior. Constatar atitudes destes jogadores em tempos de cólera franquista dá-nos algum alento à alma, quando se vende tudo mesmo a dignidade.
“Dois meses antes (da morte de Franco), a 27 de Setembro o franquismo executou os últimos inimigos, e o futebol, silencioso durante tanto tempo, teve algo para dizer. … dois futebolistas do Racing Santander, subiram ao relvado do El Sardinero com atacadores de sapato negros presos nos braços esquerdos. Mas estes atacadores não eram apenas atacadores. Nos braços esquerdos de Aguirre e Manzanera eram símbolos, braçadeiras negras a mostrar o seu luto e revolta contra a execução por fuzilamento, no dia anterior, de dois militantes da ETA, organização separatista basca e três da Frente Revolucionária Antifascista e Patriótica (FRAP)”. Nota não despicienda: o português Quinito aparece na fotografia da equipa com os dois rebeldes.
Apesar dos protestos e manifestações por toda a Europa e o pedido de clemência do Papa Paulo VI os cinco foram executados na manhã de 27 de Setembro. Portugal vivia tempos conturbados do PREC e pseudo-revolucionários, muitos deles agora bem na vida dita democrática, com a complacência das forças policiais, assaltaram, destruíram e roubaram a embaixada de Espanha.
A admiração por rebeldes que deixaram marca no desporto e no futebol que me apaixona, em especial, traz-me Carlos Gomes, guarda-redes que foi do Sporting de dirigentes afectos ao salazarismo, fugido para Marrocos escapando a prisão iminente; Cândido de Oliveira, espião ao serviço dos ingleses durante a 2ª guerra mundial, que amargou no Tarrafal; Mariano Amaro e José Simões que saudaram de punho fechado diante de tribuna reverencial fascista em jogo de futebol ibérico, nas Salésias. Sem esquecer o futebolista da selecção chilena que deixou Pinochet de mão estendida, em protesto pela tortura a que a mãe tinha sido submetida!
Ir contra a corrente, como a “formiga no carreiro”, traz problemas, estar ao lado dos poderosos dá benesses, lucros, imagem; renegar as origens dói, custa ver os mais desfavorecidos “de cócoras para Castela”. Pelo que não alinho com atitudes de “peseteros” que vendem a alma passando-se para o arqui-rival; ver jogadores que venceram com tantos sacrifícios para deixarem as origens de miséria, prestarem-se a aparecerem na fotografia com poderosos ignorantes e mandantes de eliminação de rivais.
Em tempos de assassinos é preciso manter um mínimo de dignidade…
Abílio Travessas