
O pico de audiências sobe sempre que há uma tragédia. Nada melhor que um grande incêndio ou vários, chuvas torrenciais, inundações, ventos fortes, rajadas de cem à hora a multiplicar por dois, rios sem margens, quedas de árvores, viaturas destruídas, telhados destelhados e se houver alguma morte, o vizinho conta como foi em directo.
Anunciam-se avisos amarelos e o repórter já está nas zonas onde o mais certo é serem alagadas de lágrimas e águas mil, e se ainda não estiverem mostram imagens de um ano qualquer para demonstrar que ali já se nadou o suficiente para que os autarcas tivessem a seu tempo encontrado uma solução para apaziguar a depressão à Cláudia, já que ligar ao São Pedro, concluímos que não resulta.
Para pacificar os aflitos, mostram imagens das Filipinas e outros ainda mais miseráveis onde os tornados tornam a vida difícil e as inundações multiplicam a tragédia e as vítimas. Por cá, se a ponte não caiu, resistiu por milagre. Os nossos santos, tal com na Galícia, são muito mais milagreiros que os expostos nos altares de outros países e de outros credos. Mas, o repórter insiste: “por uma lágrima tua. Que alegria me deixaria matar”, é possível que goste deste poema da Amália.
Directos e mais directos assombram os nossos dias, mas há sempre quem tenha ganho algo para contar e até acrescentar. Não esqueço nunca os meses seguidos que as televisões andaram ansiosas por encontrar o primeiro contaminado com SARS-CoV-2, um coronavírus novo que foi identificado no final de 2019, daí a designação Covid19, a doença. Era um desespero, já todos os países registavam os seus mortos e nós nem um infectado para amostra. A notícia veio de Espanha, mas o escritor tinha passado pela Póvoa, pelo Correntes d´Escritas.
Depois, seguiu-se o massacre diário à ministra da Saúde, Marta Temido e à Diretora-geral da Saúde, Graça Freitas - quantos infectados, quantos mortos, para quando a vacina, quantas vacinas foram ministradas, enfim, ainda hoje andamos a dar o braço, cada vez menos.
Andavam sempre a transmitir tragédias de ter por casa, coisa de somenos, a precisar de ser espicaçada, tipo as cheias de 1967, uma tragédia que o Salazar tentou esconder mesmo com a água a chegar ao pescoço de Cascais a Alenquer. Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967, a chuva chegou aos 170 L/m2 por hora. Água e lama varreram bairros e aldeias, cerca de 20 mil casas ficaram numa ruina. Para o regime da altura que tantos querem no poder agora, morreram 462 pessoas, mas o número pode ter chegado às 700 vítimas mortais.
Para não me alongar nem alagar a sua frágil condição de leitor, revelo apenas que, na verdade, não sei onde o tempo vai buscar tanta chuva.
Pablo Rios Antão