
A Prima Adília era nossa parente afastada, mas ao longo dos anos sempre houve uma convivência muito próxima.
Vivia em Braga na Rua do Carvalhal com o marido, a filha, os dois filhos rapazes e as empregadas Maria e Conceição. Nas férias e ocasiões festivas juntavam-se o irmão médico residente em Lisboa ”Primo” Armando, a mulher e os três filhos.
O marido, Primo Ruizinho, ao contrário da Prima Adília, era baixo e seco de carnes. Aceitava sem contestar a liderança familiar da mulher. As oportunidades de usar da palavra estavam praticamente cingidas aos raros intervalos da mulher.
“Mestre Escola” aposentada, detinha múltiplas e diversificadas competências: das regras gramaticais à resolução de problemas de aritmética, exímia nas voltas das agulhas de crochê, conhecedora dos segredos da doçaria conventual. Tudo isto e o mais fazia gosto em partilhar.
À semelhança de numerosos bracarenses, durante o mês de Agosto, toda a família se transferia para um Rés-do-chão da Rua António Graça na Póvoa, para cumprir o calendário anual de praia. O proprietário, Arlindo Mouco, era de uma família tradicional de pescadores e banheiros. Vivia num anexo ao fundo do quintal, mas frequentava diariamente a cozinha da Conceição na esperança de um petisco.
O ponto alto da vilegiatura poveira era a Romaria da “Senhora da Assunção” a 15 de Agosto.
Nesse dia desaguava na Póvoa um rio de gente oriundo das mais variadas proveniências atraído pela maior procissão do país, a bênção dos barcos, e o imponente foguetório. Chegavam manhã cedo instalavam-se a eito pelo areal e sem mais delongas, atacavam o arroz de frango com a mesma determinação com que esvaziavam os garrafões de cinco litros.
Eram afamadas as refeições da Prima Adília. Naquele 15 de Agosto, com toda família presente e alguns amigos a Conceição cozinheira preparou um repasto de abrir o “apetite a um morto”.
Canja de galinha poedeira e os seus ovos em formação como primeiro momento. Para prato de peixe serviu uma pescada à poveira de lasca branca tingida pelo molho de colorau e banhada por azeite novo de acidez a despontar. O encargo de representar a carne foi assumido pelo assado de cabrito no forno com os miúdos do mesmo a apaladar o arroz, muito elogiado pelos comensais. Um épico pudim Abade de Priscos abriu o momento da sobremesa e finalmente a maçã esperiega assada reequilibrou palato.
O jantar decorrera animado, agora a conversa desfiava-se tranquila bebericando de Moscatel de Setúbal, mas ... eis senão quando a Conceição esbaforida irrompeu pela sala com o Arlindo a reboque. Conhecedor de todas as espinhas do mar, fora traído por uma espinha de galináceo, qual anzol, escondida na cabidela ficou presa na garganta.
Armando, irmão de Adília, após exame sumário declarou que sem instrumentação adequada nada podia fazer, o melhor era levá-lo ao hospital com urgência.
Inconformada com a resignação do irmão/médica Adília avançou para a boca escancarada de Arlindo munida de uma pinça. Sem tremer num movimento rápido removeu a espinha exibindo-a perante a estupefacta assembleia e grande alívio de Arlindo.
João Sousa Lima