Voz da Póvoa
 
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A ditadura dos Corpos

A ditadura dos Corpos

Opinião | 1958 | 29 Julho 2020

A sociedade está a mudar. A imagem nunca teve um papel tão importante como nos dias de hoje. Atualmente dá-se mais valor ao parecer do que ao ser e estarmos com corpos dentro dos parâmetros padronizados pela sociedade torna-se mais importante do que sermos realmente felizes. Onde fica um mero mortal no meio desta dualidade?

Estamos numa fase onde tudo é transformado em mercadoria, onde as próprias pessoas são produtos que necessitam se autopromover e vender para atingir os diversos objetivos da sua vida – carreira, relacionamentos etc. Numa simples entrevista de trabalho, um dos critérios mais importantes é a imagem que transmitimos ao nosso recrutador ou recrutadora. Quando essa imagem reflete os padrões pré-definidos pela sociedade somos bafejados pela sorte e, portanto, tendemos a ter mais sucesso no alcance dos nossos objetivos. O que acontece a quem por genética, saúde ou mero descuido não se enquadra nesses critérios?

Desde muito novos somos ensinados a valorizar um conjunto de características físicas como sendo as certas e a criticar e menosprezar aqueles que não se enquadram nelas. Todos assistimos a episódios na nossa infância ou adolescência onde criticamos quem fisicamente era diferente de nós. Essa crítica, desde a forma corporal, até a forma como o corpo se expressa (expressão de género), promove diversas formas de perpetuarmos essa padronização.

Apesar de existir padrões de beleza para os dois géneros, é claramente notório que o impacto no género feminino é maior. A sociedade exige que as mulheres apresentem uma imagem muito mais trabalhada. Desde muito novas são ensinadas sobre a importância de estarem com um peso adequado, com os pelos corporais invisíveis, maquilhadas, entre outras exigências. Desde terna idade, as jovens tentam alcançar corpos idílicos e inatingíveis, tendendo a desenvolver maior sintomatologia depressiva, menor autoconceito, e apresentando maior probabilidade de desenvolverem outras perturbações psiquiátricas, principalmente as alimentares. Certamente, essa realidade aplica-se também aos homens, ainda que com menor incidência.

Por outro lado, é importante ressalvar a relevância de um estilo de vida saudável (alimentação saudável, desporto etc.) para o desenvolvimento pessoal e a importância fulcral dos nossos objetivos associados ao nosso corpo. Nada melhor para o nosso bem-estar psicológico do que atingirmos os objetivos que nos propomos.

A ditadura imposta pela sociedade aos corpos existe e está cada vez mais forte, tornando-se omnipresente no nosso quotidiano. É importante percebermos a sua importância e influencia na nossa visão sobre o mundo, para que, nos momentos chave, a possamos neutralizar e deixarmos de ser veículos de reprodução da mesma. A verdade é que a melhor transformação desenvolve-se de dentro para fora e não de forma inversa.

Luís Pinheiro – Psicólogo

 

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