Voz da Póvoa
 
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A Banhos na Póvoa

A Banhos na Póvoa

Opinião | 29 Agosto 2025

 

Fosse por não saber nadar, pela água fria ou pela nortada, Camilo Castelo Branco resistia às recomendações dos médicos para tomar banhos de mar: “não vou resolvido a meter-me no mar nem levo esperanças de que ele se meta em mim”.

Os médicos insistiam prometendo, “pelo menos ... mais pescadas ”e tainhas. O escritor, apesar disso tinha uma afeição especial pela Póvoa de Varzim onde, ironizava, “o cheiro do marisco não é neutralizado pelos aromas do toucador das damas.” Claro que o jogo, a tertúlia com amigos e as paixões contribuíam para a consolidar aquele sentimento.

Indiferentes à água fria e à impiedosa nortada, gerações sucessivas de “banhistas” continuam alegremente a dedicar-se à prática dos banhos no mar da Póvoa.

Pessoalmente guardo memória da infância quando acabávamos os banhos tolhidos de frio a bater o dente com os lábios roxos. Atingidas idades mais maduras fui abandonando os banhos na Póvoa, imperdoável falha no meu poveirismo. Para compensar essa “falha” mergulhei em publicações sobre a temática balnear e foi num alfarrabista que encontrei uma “Dissertação Inaugural Apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do Porto” da autoria de B. da Costa Pereira, intitulada “A Póvoa de Varzim como Estação Balnear Marítima”.
 

A obra trata detalhadamente as virtudes dos banhos de mar e culmina com um roteiro do banhista que lido hoje parece quase uma fantasia: “Ao chegar à praia, sobretudo quando se vem de longe, é bom consagrar-se o primeiro dia ao repouso”, dizia. Um conselho sábio que nos ensinava a respeitar o corpo e a adaptação ao clima marinho. 

O texto prosseguia,.

Se pretende repousar das fadigas das grandes cidades – um mês ou vinte e um banhos bastam;

Para quem se recupera duma doença grave são precisos dois meses e dois períodos de vinte banhos com intervalo de oito dias;

Para restabelecer uma constituição esgotada – três meses bastam, com três séries de banhos.

Um verdadeiro plano de cura pelos banhos que hoje seria incompatível com a vida familiar moderna. 

João Sousa Lima

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