Fosse por não saber nadar, pela água fria ou pela nortada, Camilo Castelo Branco resistia às recomendações dos médicos para tomar banhos de mar: “não vou resolvido a meter-me no mar nem levo esperanças de que ele se meta em mim”.
Os médicos insistiam prometendo, “pelo menos ... mais pescadas ”e tainhas. O escritor, apesar disso tinha uma afeição especial pela Póvoa de Varzim onde, ironizava, “o cheiro do marisco não é neutralizado pelos aromas do toucador das damas.” Claro que o jogo, a tertúlia com amigos e as paixões contribuíam para a consolidar aquele sentimento.
Indiferentes à água fria e à impiedosa nortada, gerações sucessivas de “banhistas” continuam alegremente a dedicar-se à prática dos banhos no mar da Póvoa.
Pessoalmente guardo memória da infância quando acabávamos os banhos tolhidos de frio a bater o dente com os lábios roxos. Atingidas idades mais maduras fui abandonando os banhos na Póvoa, imperdoável falha no meu poveirismo. Para compensar essa “falha” mergulhei em publicações sobre a temática balnear e foi num alfarrabista que encontrei uma “Dissertação Inaugural Apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do Porto” da autoria de B. da Costa Pereira, intitulada “A Póvoa de Varzim como Estação Balnear Marítima”.
A obra trata detalhadamente as virtudes dos banhos de mar e culmina com um roteiro do banhista que lido hoje parece quase uma fantasia: “Ao chegar à praia, sobretudo quando se vem de longe, é bom consagrar-se o primeiro dia ao repouso”, dizia. Um conselho sábio que nos ensinava a respeitar o corpo e a adaptação ao clima marinho.
O texto prosseguia,.
Se pretende repousar das fadigas das grandes cidades – um mês ou vinte e um banhos bastam;
Para quem se recupera duma doença grave são precisos dois meses e dois períodos de vinte banhos com intervalo de oito dias;
Para restabelecer uma constituição esgotada – três meses bastam, com três séries de banhos.
Um verdadeiro plano de cura pelos banhos que hoje seria incompatível com a vida familiar moderna.
João Sousa Lima