Voz da Póvoa
 
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Por Dentro da Catástrofe em Leiria

Por Dentro da Catástrofe em Leiria

Nacional | 30 Janeiro 2026

 

Todos ouvimos e sabemos que o clima está a mudar e que se avizinham tempos de fenómenos extremos e intempéries mais frequentes, no entanto, nada nos prepara para viver por dentro e sofrer as consequências desses episódios.

Desta vez, tocou-me a mim e à minha família. Dividimos a nossa vida entre Leiria e Laúndos, e na noite do ciclone estávamos precisamente em Leiria, por azar, o olho da tragédia.

A tempestade Kristin (classificada como “ciclogénese explosiva”) eclodiu a partir das 4h00 da madrugada de quarta-feira, 28 de janeiro, pondo os leirienses em sobressalto, primeiro com um barulho intenso e rajadas de vento que ameaçavam arrancar os estores. Foi o alerta que levantou toda a vizinhança em pânico. Durante cerca de uma hora assistimos impotentes ao aumento repentino e incessante das rajadas que começaram primeiro a levantar a vegetação ligeira, depois a tombar floreiras e mobiliário urbano que pareciam peças de lego a rolarem nas ruas. A luz elétrica já tinha sido interrompida e foi na escuridão total, ponteada pelas lanternas de quem assistia do interior dos prédios e habitações que aterrorizados, agarrados aos pertences mais básicos para acautelar a sobrevivência, que assistimos às árvores de grande porte serem arrancadas pela raiz, como simples ervas, que tombavam esmagando carros e cortando cabos de energia e de comunicações. Dos telhados e varandas dos prédios mais altos voava todo o tipo de materiais. Choviam telhas e antenas, em muitos casos equipamentos de ar condicionado e chaminés inteiras, que destruíam os telhados, esventravam varandas e esmagavam tudo o que se encontrava nos passeios e nas proximidades.

As fábricas e armazéns industriais das redondezas eram visões ainda mais terríveis. Telhados de chapa e telha sandwich pareciam simples folhas de papel arrancados e projetados no ar e acabando enrolados em fios elétricos, árvores e casas criando uma imagem terrífica que nos transporta para cenários de guerra e devastação.

As coisas acalmaram por volta as 5h30 e então tivemos a oportunidade de abrir a porta para apontar lanternas e ter um primeiro vislumbre da devastação gigantesca que se tinha abatido sobre as ruas vizinhas, ainda sem consciência da magnitude e extensão de toda a tragédia. Estranhamente calados e cabisbaixos todos os vizinhos se foram recolhendo em casa até que a luz natural permitisse sair à rua.

E, só cerca das 7h30, começámos a ter uma perspetiva da imensidão dos estragos. Um cenário de devastação completa, típico de explosões e de guerra. 

Sem energia elétrica, sem água, sem telefones nem internet, não conseguíamos sequer pedir auxílio e foi então que do nada, sem coordenação, sem pedidos ou sem incentivos assistimos ao melhor dos portugueses. A solidariedade da entreajuda apareceu espontânea e às 7h30 já serrotes e motosserras cortavam as árvores para desencarcerar carros e bens. Grande parte dos vizinhos e pessoas anónimas que nem conhecíamos recolhiam ramos e cacos, varriam ruas e davam a arrumação possível aos destroços, pondo alguma ordem possível no caos reinante.

Só no contacto posterior com outras pessoas e através das notícias nas rádios nos fomos apercebendo da extensão gigantesca da tragédia, felizmente só material no nosso caso e na nossa área.

Depois das reparações possíveis nos danos que sofremos na casa e num carro, face à falta de condições básicas de vida (especialmente falta de água, eletricidade e comunicações) decidimos deslocarmo-nos para Laúndos, local de refúgio até que melhores horas e dias nos permitam voltar para repor as nossas condições de vida em segurança.
  
Texto e Fotos: Ismael Alves

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