Voz da Póvoa
 
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Real Associação Humanitária de Assistência e Socorro

Real Associação Humanitária de Assistência e Socorro

Local | 16 Abril 2021

A história não se conta em dois parágrafos, mas podemos sempre recordar que foi obra da vontade de um grupo de poveiros que, unidos à Câmara Municipal, se entregaram ao trabalho de dotar a então vila, de uma companhia de bombeiros e os primeiros voluntários foram: João Pedro de Sousa Campos, António Martinho Fiúza da Silva e Manuel Fortunato de Oliveira Mota, que em reunião de 1 de Outubro de 1877, com outras individualidades poveiras, deram início à então denominada Companhia de Bombeiros Voluntários, que mais tarde herdaria o nome de Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Varzim. Actualmente, o seu presidente é o professor de informática, Rui Coelho, que nasceu em 1962, em Aver-o-Mar, vila onde vive.

O Presidente é também um voluntário: “Um certo dia o Dr. Carlos Mateus, que se ia candidatar aos bombeiros, fez-me um convite para integrar a direcção e aceitei o desafio. Pensei fazer uma experiência durante um ou dois mandatos. Depois, o Dr. Abel Ferreira sucedeu ao Carlos Mateus, mas eu continuei e fui-me empenhando, afeiçoando-me às pessoas e achei que podia acrescentar alguma coisa a esta associação. Quando o Abel terminou o mandato, candidatei-me e cá estou há 20 anos, 14 como presidente”.

Há na Associação dois poderes, o Presidente e o Comandante do Bombeiros: “Tem que imperar muito bom senso porque são dois poderes na mesma casa, embora seja a direcção que nomeia e tem alguma ascendência sobre o comandante, há uma parte em que é ele quem comanda. Não lhe vou dizer como se apaga um incêndio, da mesma maneira que ele não se mete nos assuntos administrativos. O comandante informa a direcção dos equipamentos que necessitam e apresenta as razões. A direcção faz a avaliação das prioridades e tenta suprir as necessidades, para que o comandante possa levar a sua missão a bom porto e de uma forma eficiente, porque a nossa principal finalidade enquanto associação humanitária, é manter o corpo de bombeiros. Naturalmente, as nossas prioridades passam por, primeiro pagar os salários, temos meia centena de funcionários e no dia marcado as pessoas recebem. Depois, a segunda prioridade é manter o corpo de bombeiros com capacidade para fazerem um trabalho eficiente, para que a população reconheça que está bem servida”.

Quem usa o material são os bombeiros, mas quem o renova é a direcção da Associação “Temos que arranjar forma de conseguir dinheiro para satisfazer as necessidades do corpo activo. Respondendo a um pedido do comandante, adquirimos um equipamento de protecção individual para incêndios urbanos. Investimos cerca de 10 mil euros e estamos a falar de umas calças e um casaco. Só conseguimos isso trabalhando. Não vivemos de subsídios, mas arrecadando o dinheiro para fazer face às nossas despesas e necessidades, com o transporte de doentes e outras actividades, como o parque de estacionamento. O governo ainda vai dando algum material e equipamento para combater os incêndios florestais, mas para os incêndios urbanos e industriais, que são o nosso principal foco de preocupação, a sua incidência leva-nos a maior parte do dinheiro, já que os incêndios rurais são residuais. Precisamos comprar uma viatura para nos ajudar no combate a incêndios urbanos, que custa à volta de 300 mil euros, mas não é fácil conseguir tanto dinheiro”.

Para Rui Coelho o número de viaturas dos bombeiros é suficiente: “Temos viaturas adequadas para os nossos serviços, o problema é que algumas já estão há demasiado tempo em acção. Temos uma viatura pesada de combate a incêndios urbanos que ainda tem bancos de madeira. Faz a sua função, mas as novas viaturas têm outras tecnologias. A viatura mais moderna de combate a incêndios é a plataforma, que custou 700 mil euros. São sempre de preços muito elevados porque as viaturas têm que ser transformadas para um determinado serviço. O carro de desencarceramento que é chamado para acidentes de trânsito, o equipamento mínimo para funcionar, anda à volta de 40 mil euros, só o equipamento, mais o gerador e outras ferramentas. A viatura completa e com o máximo de eficiência, custa cerca de 300 mil euros”.

Os Bombeiros estão Sempre ao Serviço da Comunidade

O serviço de transporte de doentes, uma fonte de receita da Associação, em alguns casos passou a estar sujeito a contratos: “O Hospital da Póvoa foi obrigado a fazer um concurso público, nós concorremos e ficámos com o serviço. Neste momento é o nosso maior cliente e temos que fazer um esforço muito grande para os servir e manter este serviço de transporte com qualidade. Nos serviços ao domicílio, os sócios têm uma redução muito significativa nos transportes em caso de necessidade. O transporte é feito por dois bombeiros e por uma viatura especial. Temos bombeiros formados no INEM, como técnico de ambulância de socorro, o patamar mais alto. Temos outros formados em desencarceramento, incêndios urbanos ou rurais, em rescaldo, em mergulho, águas bravas, entre outros. Procura-se sempre que num corpo de bombeiros possa haver uma variável grande de formações, mas há também bombeiros excepcionais que fazem um pouco de tudo e bem feito”.

A fiscalidade dos estabelecimentos pode num futuro próximo ser também uma fonte de receita: Temos como voluntários dois arquitectos, que têm formação para esse tipo de fiscalização. Temos que atrair conhecimento e por isso, a nossa actividade não pode ser só combater, mas prevenir. Auguro um futuro melhor para os bombeiros nacionais. O seu trabalho não é fácil ser substituído. Há lugares onde para ir buscar um doente é preciso um jipe todo terreno. É minha convicção que os bombeiros estão bem formados. Hoje em dia, os danos no combate a incêndios são minimizados. Podem modernizar a classe, agora acabar com os bombeiros voluntários penso que é muito difícil. A acontecer, o interior ficará definitivamente desertificado. Há aldeias semeadas pelas serras e buscar alguém só é possível com voluntariado. Basta perceber esta fase da vacinação. É preciso ir buscar toda a gente. Há sempre pessoas que não têm condições e é preciso responder a todas as necessidades”.

Quando se trata de incêndios, as solicitações de ajuda têm também, segundo o presidente Rui Coelho, caminhos diferenciados: “Pode ser de forma directa, às vezes através dos comandantes, que se necessitarem de ajuda falam entre si, mas também somos requisitados pelo Comando Distrital. É sempre feita uma avaliação, se os meios são necessários ou estão disponíveis. A nível de Protecção Civil o sistema está muito bem montado e devemos dar essas garantias às pessoas. Muitas vezes ‘não chega’ é por falta de meios. Neste momento, o principal problema são os meios humanos. Há muito pouca gente a querer fazer voluntariado nos bombeiros, tem havido uma descida drástica. Depois, temos os meios materiais que nem sempre são suficientes”.

Quisemos saber qual o grau de cumplicidade entre a cidade e os seus bombeiros: “Esbateu-se um bocadinho. Quando se fez a campanha para a autoescada, um tiro no escuro e feliz, dado por esse grande homem e benemérito Artur Antunes, que merece ser recordado enquanto houver memória, que pagou do seu bolso grande parte do investimento, começámos por querer envolver a população nisto e quem respondeu mais e melhor foram as pessoas das freguesias. A cidade não respondeu e é quem beneficia da autoescada e mais precisa. Mandámos uma carta a cada condomínio ou empresas de condomínio, a explicar o projecto que estávamos envolvidos. Tivemos zero respostas. Não são as pessoas que têm uma casinha na Estela que vão precisar da autoescada, mas estavam lá a apoiar a campanha e contribuíram. Esta gente não é exigente nem critica o trabalho dos bombeiros, como acontece por vezes na cidade. Não precisavam mas ajudavam, essa é a verdadeira solidariedade. Recordo que os bombeiros têm família, têm doenças como toda a gente, problemas financeiros, são cidadãos de pleno direito. Temos que ser exigentes com o nosso trabalho, mas quando criticamos devemos pensar um bocadinho antes”.

A Pandemia não Travou a Ânsia de Ajudar

“Tivemos e soubemos ter calma. Começámos a ver muita coisa a acontecer no desconhecido e optámos por manter a nossa regularidade. Protegemo-nos primeiro através de um plano interno. Depois, tivemos que perceber como deveríamos actuar nas diferentes situações. Caminhámos um pouco no escuro, mas adquirimos material de protecção individual para todos. Depois, tivemos o cuidado no transporte que fazemos, porque transportamos doentes que são muito sensíveis, hemodialisados. Quando vêm do tratamento, vêm numa situação muito débil e qualquer pequeno foco criaria uma enormidade de situações. Sobretudo, tivemos que perceber que quem estava a decidir na altura, os mesmos de agora, também estavam numa situação nova. É muito fácil criticar, dizer mal, podemos fazê-lo no nosso grupo de amigos, agora vir para as redes sociais e para a comunicação social fazer acusações sem sentido, não ajuda em nada. Em primeiro lugar, isto deveria transformar-se num acto de cidadania e pensarmos todos no que podíamos fazer para ajudar. A seguir, era importante passar a mensagem, ou seja aceitar as recomendações que nos dão. Ficarmos confinados custa, mas houve pessoas que passaram por duas guerras mundiais, sofreram muito e não tinham televisão, nem computadores, nem frigorífico. Acho que há muita falta de serenidade. Sei que para muita gente é difícil suportar, porque perdeu os seus rendimentos. Agora, como cidadãos devemos pensar que isto não vai durar a vida toda”, alerta Rui Coelho.

Houve mais despesa e menos recursos financeiros: “Fazíamos emergências pré-hospitalares, aquilo que a viatura do INEM normalmente faz, 18, 19 por dia. Neste momento, estamos a fazer 4 ou 5 por dia. Eu acredito que as pessoas continuam a estar doentes, agora não recorrem como deveriam. Acontece que há pessoas que não o fazem por medo e outras porque as consultas também diminuíram bastante. Convém lembrar que o hospital passou a tratar doentes Covid-19, mas deixou de fazer cirurgias, exames ou consultas e, o movimento foi-se diluindo e diminuindo. Quando começámos a gastar mais dinheiro por causa dos equipamentos de protecção individual, houve este acumular de situações inversas e acabámos o ano com um resultado péssimo. Fechamos o ano com 106 mil euros negativos, mas as coisas tinham que ser feitas”.

E Rui Coelho acrescenta: “Não entrámos em Layoff, tínhamos as nossas reservas e conseguimos ultrapassar a situação. Penso que fizemos a nossa parte com responsabilidade e eficiência em todos os aspectos. Tivemos também o nosso período negro, com gente infectada e em confinamento, porque é quase impossível não existir contacto no transporte de doentes. Fomos ultrapassando as situações, tivemos ajudas, continua a haver pessoas solidárias, mas por outro lado continuamos a ter gente muito exigente, querem a ambulância disponível 24 horas por dia, só para eles. Temos que perceber que às vezes as coincidências estragam tudo. Numa ordem conseguimos dar conta do recado, mas por vezes os pedidos chegam em catadupa e as viaturas são insuficientes para socorrer toda a gente ao mesmo tempo”.

Este não é um combate normal e os bombeiros, por norma, abraçam a coragem de socorrer: “Os bombeiros são pessoas que respondem à chamada e enfrentam todas as situações. Nunca me apercebi em qualquer dos homens, receio mas, foi necessário alertar para que toda a gente usasse máscara e luvas de protecção. O bombeiro é como o pescador que tem muitos anos de mar, há sempre um dia em que o mar ganha se o pescador perder o seu alerta. Quando começaram a aparecer os primeiros casos nos bombeiros, todos perceberam que afinal também nos podia tocar. Depois, começaram a transportar doentes com a doença e não eram só velhinhos. Houve gente que passou um mau bocado nos cuidados intensivos e não estamos a falar de idosos. Agora, os bombeiros sabem como se comportar e estão preparados para próximas vagas”.

Aos Homens Pedem-se-lhes Frontalidade nas Opções

Rui Coelho decidiu também experimentar servir politicamente: “Não sou filiado em nenhum partido, mas curiosamente entrei na política pela mão da mesma pessoa. O Carlos Mateus, que conheço desde a minha juventude, uma amizade que se prolonga, telefonou-me a insistir para integrar a sua lista à Assembleia Municipal e acabei por aceitar. Tenho um princípio, quando me fazem um desafio para participar activamente na vida da comunidade que pertenço, dou ouvidos e depois respondo. Reconheço que tinha alguma simpatia pelo CDS, tal como o meu pai, ouvia na minha adolescência falar muitas vezes no Amaro da Costa. Foi uma experiência que vivi. Confesso que na altura não tinha muito jeito nem o traquejo que tenho hoje. Depois acabei por sair e mais tarde apareceu o convite do PSD, que aceitei. Enquanto, não colidir com as minhas convicções, eu estou bem e darei o meu contributo. Eu devo muito aos bombeiros, mas eles não me devem nada. Levo uma dívida muito grande para com os bombeiros e as pessoas que aqui estão. É uma experiência de vida que nem toda a gente tem”.

Com o tempo vem a experiência e as solicitações para ocupar outros cargos: “Neste momento sou o Presidente do Concelho Fiscal da Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto, já fui Vice-presidente da direcção. Isto, depois, é uma bola de neve, vamos sendo solicitados, vão achando que somos capazes de acrescentar e não consigo dizer que não. Mas, todas essas coisas por onde eu vou passando são situações positivas. É a minha parte que devo à sociedade e está a ser paga desta forma, mas ninguém me deve nada, faço isto com o maior dos prazeres pessoais. Ao fim de 20 anos, não me sinto cansado nem desgastado. Em casa, vão falando quando é que deixo isto. Quando sentir que não acrescento nada eu deixarei o lugar, contudo tenho sempre aqui pessoas que me ajudam a tomar a decisão de continuar”.

Estar à frente de uma instituição centenária é para Rui Coelho um orgulho: “Todos que por aqui passaram fizeram obra. Primeiro, é uma grande responsabilidade. Depois, é uma honra muito grande poder presidir a uma instituição desta natureza e com esta importância. O Dr. Macedo Vieira dizia com muita sabedoria: os bombeiros a seguir ao governo da cidade são a instituição mais importante. Em tudo aquilo que faço, tenho que ter a consciência que estou numa instituição onde não posso falhar. É preciso que isto se perpectue no tempo, de uma forma sólida e que consiga responder sempre com grande eficácia e eficiência, de forma a conseguir chegar a toda a gente. Este é o nosso maior desafio. Não deixa de ser um orgulho muito grande conseguir que as coisas tenham funcionado bem, mesmo em tempos muito difíceis. Também sei que se recorremos à Câmara Municipal as portas estão abertas. Por princípio evitamos isso. As instituições têm cabimento se conseguirem sobreviver por elas próprias. Claro que se fornecemos um serviço à população, a autarquia tem que participar também nisso. Se nos solicitam uma ambulância para apoiar numa prova desportiva, lá estaremos gratuitamente, mas não vamos sem cobrar para o lançamento de foguetes, porque quem tem dinheiro para estoirar também tem que ter para a prevenção”.

Por: José Peixoto

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