Voz da Póvoa
 
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Monumento a António dos Santos Graça Póvoa de Varzim

Monumento a António dos Santos Graça Póvoa de Varzim

Local | 16 Maio 2021

Póvoa de Varzim Presta Sentida Homenagem ao Filho Ilustre

Foi com muita emoção e profundo sentimento de justiça que foi inaugurado no sábado, 7 de Setembro, o Monumento de Homenagem a António dos Santos Graça. Da autoria do saudoso Fernando Gonçalves (Nando), o monumento, situado a poente da Av. Santos Graça, perpetua o reconhecimento da Póvoa de Varzim a um dos seus filhos mais ilustres, precisamente no dia em que se assinalavam os 63 anos do seu falecimento.

O acto solene, presidido por Aires Pereira, presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, reuniu os familiares do homenageado, representantes de instituições e entidades locais, e muitos poveiros que se quiseram associar a esta cerimónia.

António dos Santos Graça nasceu na Póvoa de Varzim, a 16 de Janeiro de 1882, na Rua do Carvalhido, e faleceu a 7 de Setembro de 1956, na sua residência, no n.º 5 da Rua da Junqueira. Filho de João dos Santos Constantino e de Maria Francisca, teve no baptismo o nome de António dos Santos Constantino, mas, por ser afilhado do médico vilacondense Dr. António Duarte Baptista Graça, passou a usar o apelido do padrinho, mudando mais tarde, e oficialmente, o seu nome para António dos Santos Graça.
Orgulhoso por presidir à Câmara Municipal que, finalmente, concretiza uma ideia que há muito estava na mente dos gestores municipais, Aires Pereira começou por referir: “A Póvoa de Varzim salda hoje uma dívida de reconhecimento e gratidão àquele que, pelo actuante dinamismo, inteligência prática, férrea vontade e humanismo solidário, terá sido a personalidade poveira mais marcante da primeira metade do século XX. De facto, e conhecendo bem a história local, não encontramos ninguém, naquele período tão marcante da nossa história, que como Santos Graça tenha estado empenhado em tantas frentes de luta para que a Póvoa crescesse e desenvolvesse. Lutou particularmente pelos pescadores, num tempo em que a pesca era a actividade económica dominante. A crise da pesca reflectia-se dramaticamente na crise da economia da cidade, designadamente no seu comércio. Santos Graça sentia como ninguém estes dois mundos e estas duas actividades económicas tão complementares. Tinha origens na colmeia piscatória e era desde os 20 anos um importante comerciante na Póvoa de Varzim”.

O autarca prosseguiu: “A sua generosidade, dinamismo e acendrado bairrismo levaram-no à luta pelo associativismo filantrópico e socio-desportivo, como forma de intervenção e elevação socioeconómica, de que são exemplo a sua colaboração no Povoense, na Associação de Socorros Mútuos das classes laborais, nos Bombeiros, no Clube Naval, de que foi sócio n.º 1 e onde a sua acção foi determinante para a construção de um monumento ao Cego do Maio com dinheiros do Brasil. Mas também n’A Beneficente, no lançamento da sopa dos pobres, na Santa Casa da Misericórdia e na Marítima, a associação da classe dos pescadores e das gentes do mar”.

António dos Santos Graça também se notabilizou como jornalista, escritor e etnógrafo poveiro, como mencionou Aires Pereira: “Santos Graça sabia que só com o apoio de uma opinião pública bem desperta era possível mobilizar os poveiros para as causas que propunha e defendia. Os jornais eram a sua tribuna preferida, num tempo em que a Póvoa tinha uma imprensa marcada ideologicamente e muito interventiva. Por exemplo, entre 1895 e 1908 a Póvoa teve nove semanários. Aos 20 anos, Santos Graça criou o ‘Povoense’, pouco depois foi fundador do ‘O Comércio da Póvoa’, onde desempenhou ao longo de duas décadas os cargos de director, editor e proprietário, e onde escreveu centenas de artigos sobre os grandes temas da actualidade poveira. ‘O Progresso’ foi outro jornal que fundou no início da década de 1920. Nada do que à Póvoa dizia respeito lhe era indiferente, pelo contrário, tudo quanto interessava ao presente e ao futuro, contava com Santos Graça na primeira linha da luta. Homem do presente, empenhado na luta por um futuro melhor para a terra que tanto amava, Santos Graça fez também o registo da memória de uma comunidade marítima multisecular, onde ele tinha origem e que conhecia melhor que ninguém, e cuja mundividência registou de forma reconhecidamente notável nesse livro icónico, que a Câmara Municipal não se cansa de reeditar, ‘O Poveiro’, publicado em 1932. Neste livro, e também com ‘A Epopeia dos Humildes’ (1952), Santos Graça veio a revelar-se e a ser internacionalmente conhecido como um cientista de incontestável mérito no domínio da etnografia marítima”.

Santos Graça, que se correspondia com grandes etnógrafos e antropólogos nacionais e estrangeiros, que fizera o registo dos usos, costumes, tradições da nossa colmeia piscatória, conhecia a Póvoa de Varzim como ninguém, a urbana e a rural, pescadeira e lavradeira, e avança para uma nova forma de registo das matrizes culturais, como reconheceu Aires Pereira: “É obra sua o Museu Etnográfico, fundado em 1937. E foi por efeito do eco nacional da obra de Santos Graça, nomeadamente do seu livro ‘O Poveiro’, que germinou, em 1939, a ideia, que iria ser concretizada dois anos depois, de realizar o filme ‘Ala-Arriba!’, com actores locais, que seria premiado no Festival de Veneza e que teve um efeito exponencial em termos de promoção da imagem marítima e piscatória da Póvoa de Varzim”.

Aires Pereira prosseguiu: “A nossa cidade tem vindo, sobretudo desde há um quarto de século, a concretizar um plano de regeneração urbana, em que a história e a memória assumem a função identificadora dos cidadãos com o seu território. Integrando o passado e o presente, humanizando o espaço público, onde as maiores figuras singulares da nossa história, como Eça de Queiroz, Cego do Maio, Vasques Calafate, António Nobre, Rocha Peixoto, David Alves, Major Mota ou Elísio da Nova, e os nossos grandes símbolos colectivos, nos lembra que a construção da cidade teve lideranças, referências éticas e valores humanos superiores que orientaram a nossa caminhada colectiva”.

Por isso, concluiu o autarca poveiro, “desde 1982, ano do centenário do nascimento de Santos Graça, que era gritante a necessidade de, através da força impressiva e expressiva de um monumento, prestar a António dos Santos Graça a expressão maior da nossa homenagem, aquela que se concretiza no espaço público e sobre a forma de arte pública. O monumento que hoje inauguramos, e que nasceu da superior capacidade figurativa de uma outra figura incontornável da escultura poveira, Fernando da Silva Gonçalves, o nosso ‘Nando’, que também vamos homenagear a 2 de Fevereiro, vem resgatar a memória e lembrar a obra de quem, no seu tempo, conquistou o direito à imortalidade e à admiração dos seus conterrâneos, hoje e para o futuro”.

Em representação da família, a neta Benilde Graça agradeceu a justa homenagem: “Fazia falta reconhecer deste modo a dimensão excepcional de um homem que deu tudo à sua terra. O meu avô foi um homem de excepção. Autodidacta, multifacetado, que se empenhou no comércio e na indústria, no associativismo desportivo, social e assistencial, no jornalismo, na cultura popular e erudita. Atrás de si deixou obra feita e bem feita, sendo de salientar a criação do Museu Etnográfico e do Rancho Poveiro, a Cooperativa A Filantrópica, e a obra escrita que produziu. ‘O Poveiro’ é a marca do meu avô, obra essencial para se conhecer a Póvoa de 1800, escrita de uma forma simples e erudita, que a torna numa monografia exemplar. ‘A Epopeia dos Humildes’ é a história dos heróis poveiros, feitos no mar. Mas o meu avô foi também político, chegando a deputado e a senador. Na política como na vida, colocava sempre em primeiro lugar a sua terra, impulsionando medidas de desenvolvimento em todos os sectores. ‘Pela Póvoa, sempre!’, foi o lema que o acompanhou ao longo de toda a vida”.

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