Voz da Póvoa
 
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A Longevidade da Misericórdia deve-se à Santa Casa

A Longevidade da Misericórdia deve-se à Santa Casa

Local | 1961 | 9 Setembro 2020

Quando nos repetem uma história, por vezes, respondemos com alguma ironia que é tão velha que já tem cabelos brancos. Na verdade, a instituição da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim foi criada, a 23 de Maio de 1756, por diligência da Câmara Municipal e auxílio pecuniário de Maria Fernandes da Vila Velha e, nos dias que vivemos, uma das suas mais significativas valências é o apoio aos “cabelos brancos” dos que foram construindo o nosso futuro.

“Na minha actividade de engenharia, comecei a assessorar e a colaborar com a Misericórdia, há cerca de 40 anos e fui ficando como responsável das instalações, por convite dos provedores, Lima Pereira e depois, do Silva Pereira, que após a minha aposentação da função pública, como Vice-provedor, me convidou a fazer parte da mesa administrativa. Durante ano e meio mantive com o Silva Pereira imensas conversas que me colocaram a par da abrangência da Misericórdia. Faleceu a meio do mandato e eu fiquei como Provedor por indicação da mesa. Depois, no final do mandato, fui a eleições e cá estou para servir a Misericórdia, dentro da minha visão do que é organizar estes espaços onde estão pessoas idosas ou com doenças. A minha formação também está a permitir, fazer aqui uma grande reorganização interna, virada para o digital, uma coisa inevitável”, recorda e acrescenta Vergílio Alfredo Tavares Ferreira.

O Provedor da Santa Casa da Misericórdia revela um inventário dos servições prestados pela instituição: “Temos 250 funcionários e alguns prestadores de serviços. Residentes em lar são 97 utentes, com custos reais a rondar os 1400 euros mensais. Temos um médico residente, dezenas de enfermeiros e toda esta estrutura para prestar um bom serviço. As pessoas chegam muito idosas, com reformas muito baixas, as famílias podem cada vez menos ajudar e a segurança social tem uma comparticipação muito aquém”. E acrescenta: “Temos nas duas unidades de Cuidados Continuados, mais 48 utentes e, apoiamos no domicílio, 85 pessoas. O Centro de Dia está fechado, mas temos mais seis dezenas de utentes, agora apoiados ao domicílio, com uma compensação da Segurança Social. No Programa de Emergência Alimentar, apoiamos com 60 refeições diárias, pessoas que foram apanhadas pela crise, perderam o emprego e não têm meios de subsistência. Aqui, a Segurança Social comparticipa com uma parte. Tudo isto, são encargos muito grandes para a Misericórdia, que tem que encontrar meios financeiros para satisfazer e manter a casa a funcionar. Às vezes temos alguns donativos, mas cada vez mais escassos. Antigamente, havia a doação de alguns bens à Misericórdia, mas isso hoje, praticamente não existe”.

Veio do desconhecido, mas deu-se a conhecer numa pandemia extremamente exigente para os responsáveis pela saúde pública e pelos lugares onde habita a fragilidade: “Esta pandemia veio trazer alguns alertas sobre o modo de restruturar estes espaços para idosos e cuidados continuados. Conjugou-se também a possibilidade da Câmara Municipal nos poder ceder uma posição no PEDU – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano – para termos a fundo perdido, cerca de 1,1 milhões de euros, numa obra que tem uma edificação de raiz, mas também de complemento de outras melhorias, orçada em 2,9 milhões de euros. Tivemos que nos socorrer de empréstimos bancários e fazer uma certa engenharia financeira para garantir que a Misericórdia possa dar um salto em termos estrutural e de bem-estar das pessoas. As obras estão a decorrer a bom ritmo e devem ficar concluídas em Junho de 2021”.

Virgílio Ferreira vê as obras prometidas para o Hospital, que é pertença da Misericórdia, como uma valorização do património: “Não temos nada a opor à solução encontrada. Ainda há pouco tempo a Misericórdia gastou alguns milhares de euros na recuperação da fachada e das peças em granito que encimam o edifício, porque entendemos que valia a pena valorizá-lo. Este Hospital, embora, sobre o ponto de vista estrutural já não é muito moderno, sobre o ponto de vista funcional serve a população e tem valências de muita qualidade. Por isso, a Misericórdia enquanto proprietária do edifício, fez esse esforço financeiro para o conservar. A autarquia defende as melhorias do Hospital e, neste caso o Estado que, é a entidade que ocupa o edifício, desde que faça as obras prometidas sem deteriorar, nós, não temos nada a opor”.

A longevidade da instituição é invejável, mas para o seu Provedor só tem um segredo: “Ter sabido adaptar-se a cada época e, ir dando resposta às necessidades das pessoas ao longo dos tempos. A Misericórdia da Póvoa de Varzim nasceu muito virada para a saúde e, quando o Hospital entrou em funcionamento reforçou essa ligação. Depois por necessidades locais foi-se adaptando. A Póvoa no geral é uma comunidade pobre. As fontes de rendimento, o mar e a terra não geram grandes riquezas e sempre houve pessoas que precisavam de apoio social. Por isso, a Misericórdia também enveredou por esse caminho e, neste momento, uma grande parte da sua actividade está vocacionada para o apoio social”.

O caminho a seguir, para Vergílio Ferreira, não pode ser avesso à mudança: “Os Irmãos têm que entender que é inevitável a adaptação das instituições à realidade que vai acontecendo a cada momento, para não correr o risco de definhar. A nossa missão foi ajudar a sociedade e, por isso, temos que nos adaptar aos tempos, modernizar as infraestruturas e torna-las rentáveis. O objectivo não é ter lucros, mas temos que servir bem as pessoas e para isso temos que ser rentáveis. Os custos estão a subir, os apoios escasseiam e neste tempo de pandemia, para além do investimento em equipamentos de protecção, em despistagem de casos suspeitos – até ao momento não tivemos nenhum caso da doença – a diminuição de receitas foi na ordem dos 300 a 400 mil euros. Mais uma razão que nos motiva a rentabilizar a estrutura no sentido de continuarmos a prestar um serviço de qualidade, mesmo com as dificuldades que temos”.

Para o Provedor, a Misericórdia dentro de dois anos vai estar muito diferente, “quer em termos de instalações, quer em termos de organização. Criamos aqui modelos internos informáticos que nos permitem ter acesso à informação rapidamente. Repito, temos que modernizar e ser cada vez mais eficientes. O digital é uma aposta que tem que chegar a todas as organizações. Muita da ineficiência das nossas empresas e instituições passa pela falta de organização e formação das pessoas. Na Misericórdia a modernização é uma exigência. Ainda recentemente, estive com uma empresa, no sentido de melhorar as condições da cozinha. Servimos centenas de refeições por dia e temos que ter os meios para os trabalhadores poderem ser eficientes. Os nossos idosos estão habituados a uma comida caseira que queremos manter”.

Para Virgílio Ferreira, mais do que ser Provedor é o espírito de missão que o move: “Dedico-me 24 horas a esta instituição. Para além do tempo que passo aqui, tenho sempre o telemóvel ligado. Já tenho recebido telefonemas a meio da madrugada, situações de emergência. Levanto-me e venho para a Misericórdia. Dedico o meu tempo e o meu saber a esta instituição, mas vou para casa com a consciência tranquila, porque entendo que cumpri a minha missão. O espírito de missão e voluntariado é isso mesmo. Enquanto tiver forças e acharem que tenho condições, continuarei por cá. Depois, outros virão para assumir o meu lugar, naturalmente”.

Por: José Peixoto

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