Voz da Póvoa
 
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A 27 de Fevereiro de 1892 a Vida Encheu-se de Morte

A 27 de Fevereiro de 1892 a Vida Encheu-se de Morte

Local | 16 Abril 2021

Aconteceu há 129 anos, a 27 de Fevereiro. O luto invadiu a comunidade piscatória. Muito se escreveu e ainda é razão para elevar a dor poveira. Foram muitas as famílias que perderam os seus no mar. Deixo ficar aqui uma reflexão sobre a maior tragédia marítima que atingiu a colmeia piscatória poveira, publicada no volume 50 – Póvoa de Varzim Boletim Cultural.

 

Se tiver que morrer que seja no mar dos meus Santos

 

                                                                                                           Por José Peixoto

 

Georges! anda ver meu país de Marinheiros,

 O meu país das naus, de esquadras e de frotas!

 

 Oh as lanchas dos poveiros

 A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!

 Que estranho é!

 Fincam o remo na água, até que o remo torça,

 À espera de maré,

 Que não tarda aí, avista-se lá fora!

 E quando a onda vem, fincando-a com toda a forca,

 Clamam todas à uma: «Agora! agora! agora!»

E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo

 (Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)

 Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!

 Içam a vela, quando já têm mar:

 Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,

 Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,

 Rosário de velas, que o vento desfia,

 A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

(…)

 

António Nobre (poema escrito em Paris 1891/1892)

 

A minha mãe Lucília, nascida e criada no campo, foi sargaceira. O meu pai José, entre o serralheiro e o mar, ajudava na apanha, com a graveta. Há numa praia em Aver-o-Mar o Penedo dos Amores, onde fui feito e amado quando a maré deixou. Gosto de pensar que sou filho desta manta de água, descendente de um antigo arrais que, acorrentado ao mar, cresceu numa escola de escritas à linha, onde todas as palavras na rede tinham nomes de peixe.

O mar é o altar de todos os barcos que deixaram de pesar nos ombros, nas mãos e ajudados pelo vento deslocavam-se bravos pela espessura das ondas. O pescador sabe que há marés que reivindicam barcos pelo secreto desígnio de os embalar. O pescador é a eterna criança do mar. Depois, sonha um inventário de ondas onde os barcos possam reencontrar-se com os seus mestres sem naufragar. Quando evocamos o pescador estamos a falar de sobrevivência.

Não há vivo que recorde. De 27 de Fevereiro de 1892 só há memória. A tragédia devastou as gentes do mar de tal forma que ainda hoje a data causa vénias de oração à saída ou à entrada da barra da Póvoa. Há pescadores que carregam os seus mortos e sempre que o Fevereiro se aproxima olham o mar como sepultura.

Para o pescador, o Fevereiro é o mês do mar e a gritaria das ondas fala disso. Há barcos agarrados ao cais à espera que as gaivotas cantem no mar.

Manuel Lopes (1943 – 2006) no Póvoa de Varzim Boletim Cultural 1, sob o título “Evocação da tragédia marítima de 27 de Fevereiro de 1892” escreveu: «Data imperecível, como que gravada a fogo vivo na memória poveira, só esta: 27 de Fevereiro de 1892. Quase sempre referido sem a mencionação do ano, que bem basta o dia e o mês aziago para reacender a angústia de uma tragédia que vestiu de longo e pesado luto a nossa colmeia piscatória.

Um doloroso acontecimento que foi tecendo, geração em geração, um profundo sentimento trágico e um consciente e respeitoso temor pelo Mar amado, ainda hoje presente na memória e nas vivências quotidianas dos nossos pescadores.

Evocação gerada por múltiplas reminiscências onde o tempo vivido e os testemunhos herdados e transmitidos por tradição assumem um carácter mítico, que a imaginação e a realidade confrontam e transfiguram».

Os dias de faina podem ser todos iguais no mar, mas o mar não se iguala dia nenhum. É certo que o pescador nasce filho da servidão, sem tempo para o medo. É certo que o pescador poveiro evoca todos os santos nas horas de aflição, pela razão de ter à saída da barra, tirado e baixado na mão o boné, o gorro ou a boina em oração, pedindo protecção divina. Tantas vezes surda!...

Hoje não é qualquer mar que agarra um barco ao cais, mas naquele tempo os dias de fome somavam-se nos casebres, enquanto pela areia se espraiavam os barcos que serviam de revessa aos pescadores, dias seguidos, na espera de uma aberta. Foi o que aconteceu naquele dia 26 de Fevereiro de 1892.

A noite foi tranquila, mas o sono nunca abandonou o olhar. Na escuridão trabalhava a cabeça, só o corpo descansava. Ergueu-se o homem e, do postigo da porta, o mar chamava. Vestiu-se e saiu para o fieiro. Encheu a palavra de redes e imaginou os barcos no mar. É possível voar até ao horizonte, o vento beijou-lhe a face do norte.

Outros homens se juntaram e na praia do peixe “gritou-se de nomes”. Uma andança de nuvens trocou a chuva pelo sol e, como cegasse todos, pela desforra da miséria se fizeram ao mar. As Lanchas, os Batéis e as Catraias deslizaram pelos paus de varar até à língua da maré, e o mar encheu-se de barcos e as velas de vento. A vontade, essa, era encher de peixe no mar da Cartola, ao largo de Aveiro.

 Em terra ficaram as mulheres, os rebentos mais pequenos, a pobre casa, os velhos, os medos, a miséria e alguma ternura. Os amigos, esses, estavam todos nos barcos, no mar, acomodados nas panas, a guiar os olhos pelos panos que o vento barrigava, num mar envolto em mistério, às vezes em sonho. A quilha, o mastro, o velame, livres como pássaros marinhos, com o mesmo rumo, a velar, a remar, a rimar até ao mar da Cartola. Barcos, às centenas, a pincelar o azul de cores e baptismos:

 

Senhora Nagonia!

 

Olha acolá!

Que linda vai com seu erro de ortografia...

Quem me dera ir lá!

 

Senhora Daguarda!

 

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)

Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda

O caçador!

 

1 Póvoa de Varzim Boletim Cultural, vol. XXIX, nos1 e 2 (1992), pág. 5.

 

Senhora d'ajuda!

Ora pro nobis!

Caluda!

Semos probes!

 

Senhor dos ramos

Istrela do mar!

Cá bamos!

 

Parecem Nossa Senhora, a andar.

 

Senhora da Luz!

 

Parece o Farol...

Maim de Jesus!

 

É tal e qual ela, se lhe dá o sol!

 

Senhor dos Passos!

Sinhora da Ora!

 

Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços

Parecem ermidas caiadas por fora...

 

Senhor dos Navegantes!

Senhor de Matosinhos!

 

Os mestres ainda são os mesmos dantes:

Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,

A mailos quatro filhinhos,

Vasco da Gama, que andam a ensaiar...

 

Senhora dos Aflitos!

Mártir São Sebastião!

Ouvi os nossos gritos!

Deus nos leve pela mão!

Bamos em paz!

 

O lanchas, Deus vos leve pela mão!

Ide em paz!

 

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,

O Jeques, o Pardal, na Nam te Perdes,

E das vagas, aos ritmos cadenciados,

As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,

«As armas e os varões assinalados...»

 

Lá sai a derradeira!

Ainda agarra as que vão na dianteira,..

Como ela corre! com que força o Vento a impele:

 

Bamos com Deus!

 

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele

Por esse mar de Cristo...

 

                                 Adeus! adeus! Adeus! 2

 

 

Sem nenhum aviso, o dia seguinte trouxe o vento a torcer para sudeste. É sabido que algumas lanchas pernoitam no mar com os seus e Deus, outros regressam à faina para alar as redes, mas o indomável mar a domesticar barcos (presas fáceis para a boca das ondas) ajudado pelo vento, cresceu, primeiro a gesticular, depois violento, a prometer corações aflitos e naufrágios.

O alerta deu-se entre vozes no mar, mas o pescador aprendeu no berço a embalar as fragilidades. Viver como força. Depois, a fé nos seus santos quando o mar veste de tempestade e anuncia a tragédia. Quando a onda vem perturbante grita aos remos a força capaz de os quebrar. Mas nesse dia o mar estava insaciável e aproveitou a faina para pescar homens às mulheres e filhos às mães. Rezaremos ao mar como cemitério.

Há palavras proibidas na tempestade. Hesitar é igual à morte, avançar pode ser encontrá-la. O mar nunca explica as suas intenções e nem sempre tem ouvidos para as orações. Outras vezes guia a embarcação até porto seguro, como aconteceu com algumas lanchas que se deixaram ir com o temporal até à Galiza.

O melhor do PúblA uma tragédia junta-se outra, quando nos assola a frustração de não conseguir salvar o outro, como aconteceu com mestre Praga que assistiu ao naufrágio da Lancha “Senhora da Guia” do mestre Jéque e morreria dias depois em sua casa “afogado no desgosto de não lhes poder valer”, escreveu Vasques Calafate. Porque socorrer é olhar a morte certa do outro sem pensar na sua. António Nobre sabia disso e homenageou-os todos, em poema, na “Ladainha das Lanchas”.

Os números no mar nunca foram exactos, mas apontam-se 40 embarcações poveiras, mais 6 da Afurada. Sete naufragaram, três eram da freguesia ribeirinha de Gaia. Cegas pelo nevoeiro e empurradas pela tormenta do mar e do vento, que quebrou mastros e lemes, as lanchas foram engolidas pelo mar, falhando a entrada na foz do Rio Ave, em Vila do Conde, a estreita enseada das Caxinas ou o porto da Póvoa. Também o número de homens, rodeados de mar naquelas ilhas de baloiço, só os mestres sabiam e os outros fizeram-se ao seu ganha-pão como quem sai sem dizer onde vai. Certo, para os cronistas da época eram mais de mil, morreram 105 no mar, 70 poveiros e 35 da ribeirinha Afurada. Os dias seguintes contaram mais três que faleceram em terra. Com rigor, das quatro lanchas da Póvoa que naufragaram, três despedaçaram-se na penedia das Caxinas e uma perdeu-se no mar alto.

Se olharmos para a contabilidade do antigo escrivão da Capitania, e cronista com obra publicada, José de Azevedo, podemos ler: «Os 70 mortos da Póvoa deixaram 50 viúvas e 121 órfãos, 69 rapazes e 52 raparigas».

Segundo o Jornal O Grilo de Gaia, 3 «da Afurada, engolidas pelo mar foram três Lanchas, a saber: a “S. Pedro” que levava 24 homens e perdeu toda a tripulação, a “Senhora da Hora” que levava 20 homens e perdeu 9 e a “Senhora do Carmo”, que levava 23 homens e perdeu 2. A tragédia deixou ainda 33 viúvas e 97 órfãos».

 

2 António Nobre, , «Lusitânia no Bairro Latino» Publicações Europa-América. Ed. Nº 40 753/2804, pas 36, 37 e 38.

3 O Grilo de Gaia, Ano 5, n.º 10, 6 de Março de 1892.

 

As preces por atender tornaram-se em demoras e as casas no vazio encheram-se de lágrimas. A mulher, que se habituou a ter o coração nas mãos até ao regresso da morte anunciada, espera para sempre os desaparecidos, como quem espera por Deus. Os ausentes nunca deixaram de estar presentes. Se pudesse transfigurava a dor das mulheres com a ressurreição dos homens.

Há uma relação que nos parece de partilha, mas oferece dois sentidos: a diferença entre “o mar da gente” e “a gente do mar”. Penso que o poveiro se agarra ao primeiro sentido, “o mar da gente”. Podemos buscar no passado os “Poveirinhos pela graça de Deus” ou o “Reino da Póvoa”, para confirmar um bairrismo que ultrapassava a barreira do amor à terra. Agarrados a esta razão podemos questionar se a tragédia marítima de 1892 não poderá ter atingido semelhante número de vítimas mortais pelo facto do pescador poveiro ter tentado chegar ao seu mar. Ao mar da Póvoa, da sua identidade, do seu reino e dos seus sonhos.

Recordo que "Poveirinhos pela graça de Deus" terá sido a resposta dada por pescadores de uma Lancha ao Rei D. Luís, quando o monarca navegava nas águas da Póvoa e perguntou se eram espanhóis ou portugueses. Com esta resposta dos pescadores poveiros estava criado o Reino da Póvoa.

Esta longa travessia foi possivelmente uma forte razão que fez crescer a tragédia. São horas a velejar, a remar, a ver o mar entrar na embarcação sem tempo para trasfegar das cavernas a água. O cansaço derrotou a oração e Deus não lhes pôde valer.

É aqui que muito provavelmente, entre os cronistas, ninguém leu o viver, a fé, a vontade do “Poveirinho pela graça de Deus”, as gentes do “Reino da Póvoa”, todos com o coração na colmeia, todos sem pensar sequer em aportar em outro lugar que não se chame Póvoa, o mar dos seus santos.

A imprensa local e nacional deu páginas à maior tragédia marítima da altura na costa portuguesa. Apresentou mil razões, a principal agarrada ao temporal que se fez no mar e apanhou todos desprevenidos. Ler os jornais da época é encontrar relatos emocionados da tragédia, o que foi feito, o que deveria ter sido feito, o que faltava, a miséria que arrastou para a morte os filhos da colmeia piscatória. Creio que mesmo escalpelizando todos os dizeres da escrita dos cronistas da época lhes faltou, talvez, rasgar pelo corpo o sangue da terra e interrogar o sobrevivente que venceu o combate de todas as ondas até entrar na barra da Póvoa. Eu diria que é mais correcto falar em Molhe, porque era o que existia na altura, uma espécie de braço para agarrar o náufrago ou largá-lo à sua sorte.

Maria Gomes Ferreira é natural de Aver-o-Mar, onde viu a luz a 3 de Fevereiro de 1932. Quando foi gerada, o pai, Manuel António Ferreira, tinha mais de 60 anos. Manuel dos Rios, como era conhecido à época da tragédia, tinha um pequeno barco à vela, em sociedade com o amigo ‘Aldeias’ e sempre que o mar escondia o susto iam pescar. “Como tinha comprado uma cortinha (leira de terra), no dia 27 de Fevereiro de 1892, o meu pai deixou o mar na sua sede de homens e foi à Casa Grande (Câmara Municipal) fazer a escritura do terreno, escapou à tragédia. Nesse dia o mar encheu-se de mortos. O meu avô materno, Manuel Gomes Amorim, foi um dos 105 pescadores que sucumbiram à tempestade e deixou a minha avó com 9 filhos. Eu convivi muito com pescadores que diziam que o mar da Póvoa era o seu cemitério. Recordo o meu pai dizer que os pescadores poveiros eram tão enraizados à terra que só ancoravam noutros portos em trabalho, mas quando o tempo vestia de chumbo e o mar abria a boca era sempre com os olhos na Póvoa que navegavam. Contava também que a partir desse ano se deixou de comemorar as festas do S. Pedro, mas algumas mulheres nesse dia, vestidas de preto, faziam uma fogueira na praia e rezavam aos seus mortos”.

“Se tiver que morrer que seja no mar da Póvoa” – tantos outros velhos pescadores, descendentes do mar e de tantos naufrágios, me repetiram a frase.

“Só por medo outras terras serviam e para o poveiro antes a morte que a humilhação” – assim respondeu Nia Preu (Agonia Areias), ao leme da Lancha Poveira do Alto, ‘Fé em Deus’.

Temos ainda uma memória com 100 anos, feitos no primeiro dia de Março de 2018. Fernando Matias Marques, natural das Caxinas e filho de pai poveiro, mais conhecido por “Fernando da Rebina”, homem que durantes três décadas se enrugou em salitre pelos mares da Terra Nova e da Gronelândia a pescar bacalhau, não tem outra resposta: “É o nosso mar que procuramos, quando a tempestade nos ameaça roubar a vida. Se temos que aguardar a morte à entrada da barra, que seja frente aos olhos dos nossos que nos gritam uma última vez o nosso nome”.

São os pescadores vivos que nos respondem do passado, são eles ainda uma réstia do Reino da Póvoa, porque pela graça de Deus somos todos.

O certo é que nenhum cronista da época parece ter lido este sangue poveiro. Mas quero crer que Santos Graça (1882 – 1956), Vasques Calafate (1890 – 1963) ou José de Azevedo (1935 –), todos “poveirinhos pela graça de Deus”, sabiam, conheciam e bebiam deste bairrismo, desta vontade de abraçar na morte a sua colmeia. O homem do mar, o velho lobo, sempre leu o tempo antes de se afoitar ao mar, mas o fieiro era o lugar onde se liam e contavam as desgraças.

As mulheres com o coração em sobressalto andam por aí a apregoar a vida e o peixe, enquanto o pescador olha no mar o seu rosto de náufrago, porque “todos vivem no mar e morrem no mar” – escreveu Raul Brandão no livro Os Pescadores.

Para morrer em infinita memória pela queda nos abismos, os velhos de hoje guardam ainda, no seu estar com a vida, a colmeia que os unia na alegria ou na tristeza, na heroicidade ou na tragédia. Depois, no mar se faziam lobos e nenhuma distância é tão longe que não agarre os filhos, a mulher, a família. É por isso que não há foz de rio ou outro porto de abrigo para aportar que não seja às portas de casa.

“Se tiver que morrer que seja no mar dos meus Santos” – o nosso mar, o mar de todas as marés, do menino ao colo, agarrado à saia, as pocinhas, os barquinhos de lata e cordel, a nadar ou a fazer de conta. O bote, o batel, a catraia, a lancha, os remos, o pano, as redes, o peixe…

“Se tiver que morrer que seja no mar dos meus Santos”.

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