Voz da Póvoa
 
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Uma Veia Solidária a Crescer e a Salvar Vidas

Uma Veia Solidária a Crescer e a Salvar Vidas

Geral | 16 Abril 2021

Dar sem esperar receber é a grande virtude dos dadores de sangue, que o fazem apenas com a intenção de ajudar a salvar vidas. A veia solidária é ininterrupta, única forma de assegurar e manter as reservas necessárias nos hospitais, que a todo e qualquer momento necessitam dele no bloco operatório, onde a vida corre.
 
Somos capazes de responder ao apelo, mas para que o sangue corra pela vida do outro é preciso ajudar na recolha. Foi com esse objectivo que nasceu a Associação Humanitária de Dadores de Sangue da Póvoa de Varzim, oficialmente a 8 de Julho de 2005, recebendo as graças da madrinha Nossa Senhora das Dores.

Para conhecer melhor a associação conversámos com o presidente, Vítor Correia, que nos revelou: “Quando iniciou a pandemia em Março de 2020, parámos a nossa actividade até final de Abril. Depois, tive conhecimento que Associações de outros concelhos, como Guimarães, Braga ou Barcelos, nunca pararam. Na altura tínhamos apenas a unidade móvel (Autocarro) na Praça do Almada, mas devido à pandemia, esses veículos foram impedidos de prestar o serviço solidário. Por isso, tentámos encontrar um local apropriado para efectuar as recolhas de sangue. Temos que agradecer ao amigo José Montenegro, uma pessoa solidária e sensível a estas causas, que disponibilizou este espaço, que é hoje a nossa Sede, na Rua Almirante Reis, Nº 2, 1º Direito, e oferece todas as condições para recolher as dádivas de sangue em segurança”.

Ajudou a formar a Associação e é o seu presidente há 6 anos, tempo suficiente para reconhecer o crescimento e as dificuldades: “Começámos a fazer recolhas na Freguesia da Estela e fomos alargando às freguesias de Navais e Aguçadoura até chegar ao concelho todo. Hoje, graças às condições que oferecemos aos dadores, temos crescido todos os anos em número de recolhas de sangue. Curiosamente, a pandemia trouxe um maior número de dadores, quando esperávamos o receio das pessoas em sair de casa. Mesmo em confinamento, as autoridades permitem as recolhas de sangue, uma necessidade constante, e as pessoas começaram a aparecer, muitas pela primeira vez. Tivemos um ano extraordinário de recolhas. No início deste ano, com o agravar da pandemia, as reservas baixaram muito e foi feito um apelo a nível nacional em toda a imprensa e as pessoas fizeram fila para dar sangue na nossa sede. Tivemos dadores que tinham acabado de fazer 18 anos e vieram dar pela primeira vez”.
Vítor Correia revela como é feita a agenda para a recolha de dádivas de sangue: “Somos uma IPSS sem fins lucrativos e estabelecemos um protocolo com o Instituto Português de Sangue, que nos permite fazer recolhas em todo o concelho. Chegámos a contemplar todas as freguesias. Actualmente, há duas ou três que ficam de fora, mas os seus dadores facilmente se deslocam ao local de recolhas. Nas freguesias que visitamos são efectuadas duas recolhas por ano e na sede quatro por mês. A 1ª segunda-feira do mês, a 2ª quarta-feira, a 3ª quinta-feira e na 4ª semana fazemos a recolha de sangue à terça-feira. O horário normal é das 14h00 às 19h00, mas em Janeiro para responder ao apelo nacional a equipa do IPS fez duas recolhas na Sede, entre as 09h00 e as 19h00. O máximo possível de dádivas de sangue durante um dia é de 120 e, 60 por cada tarde. Temos uma média mensal de 250 recolhas, sendo que na Sede temos uma média de 40 brigadas anuais e mais 20 brigadas nas freguesias”.

E acrescenta: “Sempre que é necessário esclarecer dúvidas ou apresentar propostas, participo em reuniões no Instituto Português do Sangue do Porto, com a directora das brigadas, a Dr.ª Ofélia Alves, que é poveira e tem acarinhado muito a nossa Associação. Temos que ter em conta que ao nível do país somos cerca de 50 Associações a colaborar nas recolhas de sangue. Convém lembrar que as dádivas são uma roda que não pode parar, porque os hospitais precisam dos dadores benévolos”.

A Humanitária Função dos Dadores de Sangue

“Cabe-nos a nós, Associação, organizar as recolhas, sensibilizar, promover e tratar da logística para receber o Instituto Português de Sangue, que normalmente traz uma equipa de quatro enfermeiros, um médico, uma administrativa e dois auxiliares para o Bar do autocarro onde fazem as recolhas. O nosso encargo é preocupar-nos com o local a logística e divulgação”, lembra Vítor Correia.
 
Embora a Sede tenha excelentes condições, a pandemia obrigou a investimentos: “Naturalmente, comprámos máscaras e outros produtos para higienizar as mãos e receber os dadores com segurança e conforto. Mesmo à entrada ou na rua, temos o cuidado de avisar as pessoas para manterem uma distanciada de dois metros. É com a protecção de todos que nos devemos preocupar. Quem nos procura pode estar descansado. A pessoa entra para a sala e o enfermeiro desinfecta-lhe as mãos com álcool gel, tira a febre e faz um questionário. Feita a sua inscrição, o dador é observado pelo médico, que o faz seguir para a sala de colheitas. No geral, são cerca de 30 minutos para a recepção e dádiva de sangue. Todos os dadores têm um seguro que os protege nos dois sentidos da viagem, entre a sua casa e o local da dádiva”.
E acrescenta os números que podem salvar vidas: “Diariamente, são gastas 1200 doses de sangue nos hospitais do país. Os grupos sanguíneos mais necessitados são o (A) positivo e negativo, o (O) negativo e o (B) negativo. O tipo de sangue da maioria dos nossos dadores é o (A) positivo e o (O) positivo, que corresponde ao sangue da maioria dos portugueses. Na Póvoa de Varzim há uma escassez muito grande de (A) e (B) negativo. Na freguesia de Argivai há uma concentração maior de (O) negativo”.

Para Vítor Correia, os dadores são pessoas solidárias e não procuram regalias ou benefícios, mas elas existem: “Agradeço aos dadores a importância do gesto que têm para com o próximo. Primeiro, ajudam os outros e depois andam controlados na sua saúde. O sangue é analisado e a pessoa recebe os resultados, quer esteja tudo bem ou não. Ou seja, é alertada se for detectada alguma anomalia no sangue e, pode tratar-se. Isto já aconteceu com alguns dadores. O terceiro benefício, é estar isenta de taxas moderadoras nos Centros de Saúde ou Hospitais. Basta que no final da segunda dádiva peça uma declaração à administrativa do Instituto, que integra a equipa de recolha, e depois, a faça chegar ao Centro de Saúde para ser registado informaticamente”.

A Póvoa de Varzim tem muitas associações de cariz solidário: “O poveiro responde sempre à chamada. A bolsa de voluntários da Autarquia é prova disso mesmo. Depois, temos algumas Associações que, em colaboração com a Câmara, têm sido muito importantes no combate às desigualdades sociais provocadas pela pandemia. A nossa Associação, que é de todos, foi fundada com o objectivo de ajudar, ser solidário. Tivemos sempre o apoio das rádios e jornais locais, dos padres que no final das missas divulgavam a recolha nas suas freguesias, presidentes de Junta, presidentes dos Agrupamentos de Escolas e a Câmara Municipal. Também colamos muitos cartazes e afixamos nas montras dos estabelecimentos. Agora, temos o Ricardo Teixeira que voluntariamente se ocupa do nosso Site, a Vice-presidente Cristina Flores, ocupa-se do Facebook e Sara Vieira, ocupa-se da plataforma do Município. Estes dirigentes da Associação têm sido fundamentais no trabalho de divulgação da Associação”.

Disponibilidade Para os Ofícios Solidários e Para a Política

O convite para ser companheiro do Rotary Clube da Póvoa foi feito por Alberto Eiras: “A resposta só podia ser sim, porque as instituições que, agora me incluo, têm objectivos solidários e são idênticos na forma como trabalham e pensam. Somos um grupo de pessoas fantásticas. A presidente Teresa Castro Lopes tem feito um excelente trabalho, mesmo com todos os impedimentos que a pandemia trouxe. O Rotary tem uma rotação anual na presidência e a curiosidade de se saber quem vai dirigir nos próximos dois anos. Em julho será feita a transmissão de tarefas e assumirei a presidência durante um ano, mas também já foi eleita uma companheira para me substituir”.
 
E Vítor Correia abre um pouco as portas do Rotary: “É liderado por pessoas de profissões várias e tem mais de 50 anos. Todos colaboramos, naturalmente com ideias diferentes e ainda bem. Vou fazer três anos em Outubro que estou nos Rotary e, cada um tem a sua forma de liderar e o seu grupo de companheiros. Há pessoas que estão desde a fundação. Como presidente tentarei dar o meu melhor com os companheiros que escolhi, pessoas de todas as áreas profissionais. Somos cerca de 30 companheiros e recentemente, entraram três novos elementos. Em cada ano a direcção convida pessoas a entrar, mas também há saídas voluntárias de companheiros que atingiram uma certa idade. A pandemia foi um travão a muitas conferências e palestras que fazíamos, agora só é possível em Online. Os companheiros reuniam-se todas as segundas-feiras no Hotel Axis Vermar e uma vez por mês tínhamos um jantar. Entre outras iniciativas, distinguimos os melhores alunos e escolhemos a personalidade do ano da Póvoa de Varzim. O Rotary fundou também a Universidade Sénior, que é coordenada pelo Miguel Loureiro e que tem feito um excelente trabalho. Antes da pandemia tínhamos mais de duas centenas de pessoas inscritas. Acredito que voltaremos a ver crescer o número de alunos quando tudo isto normalizar”.

Vítor Correia fez o seu percurso ao contrário. Não precisou de presidir a qualquer associação para depois saltar para a política: “Em Outubro faço 20 anos que estou na oposição na Junta de Freguesia da Estela. Entrei como independente numa lista. Não é fácil gostar da política, porque nem sempre o confronto é de ideias contributivas. Fui sendo candidato em cada mandato e sempre em crescendo. Neste momento, a Junta tem cinco elementos e a Lista Estela Independente, tem quatro. Para mim, a política em boa parte é social. Nunca fui um político de lavar roupa suja, questiono e apresento projectos. Tenho tempo disponível e gostava de ajudar a Estela. Felizmente, não preciso da política e as pessoas sabem disso. Penso que uma freguesia como a Estela, precisa de um Presidente disponível e presente. Posso perfeitamente continuar a dar o meu apoio à Associação de Sangue e aos Rotary, desde que as equipas directivas sejam cooperantes e de trabalho. Gostava de poder representar os estelenses e dar o meu melhor pela Freguesia”.

E recorda: “Nasci no bairro da Matriz e o casamento levou-me para a Estela. Fui atleta profissional do Varzim, integrava o Rancho Poveiro, quando foi pela primeira vez ao Brasil, fiz par nas rusgas no S. Pedro e fui bombeiro. Penso que dei um bocadinho à Póvoa. Infelizmente, tive um acidente na coluna que me obrigou à aposentação, mas permite dar o meu tempo à solidariedade”.

Querer mais é para Vítor Correia saber o que nos faz falta: “Gostava que a Associação Humanitária de Dadores de Sangue tivesse uma Sede própria. O presidente da Câmara Aires Pereira, que tem sido incansável, sempre que nos visita, pergunta se precisamos de alguma coisa e responde com prontidão às nossas solicitações. Sabemos que é sua intenção criar o Edifício das Associações. Nós marcamos a diferença, porque somos a única Associação que anda no concelho todo. Para além dos poveiros, temos tido dadores de outros concelhos, como Barcelos, Vila do Conde Famalicão, Esposende. As recolhas têm como único fim serem distribuídas pelo Instituto Português do Sangue e pelos hospitais Nacionais”.

O segredo para o sucesso da Associação, é para Vítor Correia a grande camaradagem que existe na direcção, mas também a forma como foi constituída: “Somos 15 pessoas, maioritariamente mulheres. Quando cheguei a presidente pensei que era justo convidar uma pessoa de cada freguesia para a direcção da Associação Humanitária de Dadores de Sangue da Póvoa de Varzim. Penso que é a única que tem o concelho todo representado. Desta forma, conseguimos chegar onde pretendemos e a colaboração das freguesias tem sido fantástica. Temos sítios programados, com condições de higiene e segurança para receber os dadores e fazer a recolha, nesta caminhada que pretende apenas ajudar quem precisa”.


Por: José Peixoto

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