Voz da Póvoa
 
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Um Coração Invisível

Um Coração Invisível

Geral | 1951 | 28 Abril 2020

E, subitamente, não há ninguém nas ruas da urbe principal de São Miguel. A cidade está agora deserta, desde que há cinco anos, com o aparecimento das companhias aéreas de baixo custo, foi-se renovando de forma intensa e imprevista com tudo aquilo que o turismo podia mudar para melhor: iniciativa individual, criatividade, dinamismo e variedade na oferta de propostas, tanto comerciais como culturais.
Eis-nos em Ponta Delgada, cidade de nascimento do poeta Antero de Quental, sem gente nas ruas, mesmo com os dias maiores e a temperatura primaveril a subir. Os cafés continuam encerrados, não há sinal de vida nas lojas ou comércio local, para lá do quiosque e das farmácias e o Mercado da Graça que, por razões óbvias, continuam abertos. A cidade, no entanto, respira…silenciosamente e vazia!
Ponta Delgada tinha granjeado, assim, uma nova dinâmica e colorido, pautada por um turismo muito eclético, abrangente e diversificado. Desta feita, apareceram hotéis, um grande número de alojamentos locais e restaurantes para diferentes gostos e carteiras, alguns com muito bom gosto, cafés, lojas gourmet, galerias de arte e ainda outros serviços comerciais que se adaptaram e restauraram a sua montra e leque de oferta. À parte as rendas para habitação de longa duração que dispararam em flecha, algumas mesmo para preços estratosféricos, foi muito interessante reparar na renovação de muitos edifícios e casas bem como no florescimento do comércio nas ruas do centro histórico
Por esse motivo era, até há bem pouco tempo, muito entusiasmante constatar os diferentes linguajares à volta dos cafés e das praças, misturados com o sotaque local e ainda o ambiente de festa e de modernidade que por aqui se vivia. Por esta altura do ano, começariam as festas do Espírito Santo, logo após os dias intensos “Tremor”, um festival de música que todos os anos apresenta uma panóplia alargada de artistas oriundos das mais distintas partes do mundo, com um programa muito sui generis e eclético, marcado sobretudo por surpresas e descobertas. O dia principal do Tremor realiza-se a um sábado, sendo este digno de registo já que é muito interessante verificar a dinâmica como a cidade interage com o próprio festival, pois os concertos podem ser realizados, ora num café, igreja, estufa ou mesmo numa loja de roupa. A vibração da cidade com o “Tremor” é enorme e o seu crescimento tem levado a própria organização a repensar o seu conteúdo bem como os espaços onde este se organiza dada a a grande afluência e a dificuldade em conter tantos melómanos e apreciadores do evento.
Há já algum tempo que a cidade acorda vazia e as suas ruas permanecem desertas e sem pessoas. Não está sozinha nesta demanda mundial. Ponta Delgada parece agora uma cidade adormecida, ainda que nestes dias iniciais da Primavera conte com muita luz e a cidade não descanse de tanta beleza e comoção. O seu coração está, por agora, invisível, porventura aguardando com esperança e paciência que as artérias que lhe davam vida possam de novo fazer circular o seu melhor sangue.

Texto Fernando Nunes  

Fotografia Carlos Olyveira

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