Voz da Póvoa
 
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O Drama dos Grandes Incêndios na Austrália

O Drama dos Grandes Incêndios na Austrália

Geral | 1942 | 5 Fevereiro 2020

Relato de Uma Família de Emigrantes Poveiros Residentes em Sydney

Uma cicatriz a céu aberto! É desta forma que é descrita a actual temporada de incêndios na Austrália, a pior já vivida pelo país, que provocou um rasto de destruição sem precedentes. Foram já contabilizados 33 mortos, 5.900 edifícios e casas destruídas e mais de 10.7 milhões de hectares queimados, o equivalente a 107 mil km², uma área ardida superior à de todo o território continental português. As perdas foram ainda mais devastadoras para a fauna e flora. Estimativas iniciais indicam que mais de 1 bilião de animais podem ter morrido nos grandes incêndios que tiveram início em Setembro de 2019 e que continuam a deflagrar, embora atenuados pela chuva e descida da temperatura das últimas semanas.

O fumo provocado pelos incêndios chegou a dar a volta ao planeta Terra, tendo regressado ao local de origem, atingindo 16 quilómetros de altura na estratosfera, o que poderá ter implicações adicionais nas condições climáticas globais. De acordo com a NASA, “o fumo foi rastreado desde a sua origem, tendo retornado à região leste da Austrália depois de ter viajado pelo mundo”. As alterações climáticas não são capazes de, por si só, provocar um fogo, mas contribuem decisivamente para transformar uma época normal de incêndios numa tragédia. A ligação entre os eventos extremos actuais e as alterações climáticas é já uma questão cientificamente indiscutível e que continua na ordem do dia.

Em Sydney, na Austrália, reside há 42 anos uma família de emigrantes poveiros, a família Barros, e a nossa reportagem esteve à conversa com Andrew Barros, de 35 anos, corretor da bolsa e consultor internacional, que nos contou o drama que se vive no país.

A Voz da Póvoa – De que forma vocês e os australianos em geral têm assistido às repercussões desta calamidade ao longo dos últimos meses?
Andrew Barros – Observar a devastadora perda de vidas humanas, casas e vida selvagem é de partir o coração. Estamos a falar de uma escalada de destruição sem precedentes. Há pessoas que viveram experiências extremamente traumáticas, de forma directa e imediata. E há ainda uma comunidade mais ampla, onde me insiro, que também é afectada indirectamente.

AVP – Sendo já habitual a temporada de incêndios no continente australiano nesta altura do ano, a que se deve a enormidade desta catástrofe?
AB – É verdade que os incêndios não são uma novidade na Austrália. Eles geralmente ocorrem de Dezembro a Março, mas este ano começaram mais cedo e têm sido mais devastadores. Os incêndios florestais começaram em Setembro de 2019, que foi o ano mais quente e seco do país (o anterior recorde era de 1902). A razão para esta calamidade tem sido tema de muito debate aqui na Austrália. Na minha opinião pessoal, entendo que vivemos uma época em que todos os eventos climáticos ou climáticos extremos estão associados às alterações climáticas causadas pela acção do homem. Infelizmente, estas questões estão demasiadamente politizadas, o que não nos permite conhecer a verdadeira história. Uma das melhores abordagens a este tema partiu da Academia Australiana de Ciências, que referiu que as causas dos incêndios florestais são extremamente complicadas: “Os incêndios florestais, juntamente com os desafios climáticos e outros factores, representam amplos e complexos problemas. Crescimento populacional, alterações climáticas, temperaturas extremas, secas, tempestades, ventos e inundações cruzam-se de tal forma que é cada vez mais difícil antever e reagir com prontidão”. Para além disso, a Academia Australiana de Ciências sublinha a importância de serem tomadas medidas (governamentais) mais ajustadas e melhoradas em áreas como o planeamento urbano, padrões de construção, restauração de habitats, biodiversidade e preservação das espécies.

AVP – Numa altura em que se apontam as alterações climáticas como estando na origem destes grandes incêndios, na óptica das populações o que o governo australiano pode e deve fazer?
AB – Por forma a mitigar a reincidência da recente escalada de perdas humanas, animais e ambientais, é óbvio que é necessário um investimento maior e contínuo em estratégias de prevenção e combate a incêndios. Seja qual for a razão ‘oficial’ dos incêndios, é indubitável que as alterações climáticas não podem ser ignoradas. A Austrália precisa reduzir a sua dependência de combustíveis fósseis (representou cerca de 30% do total das exportações em 2018/19). À medida que o resto do mundo se afasta de fontes poluentes de energia (particularmente Portugal), a Austrália também deve proceder à transição para indústrias mais sustentáveis. No entanto, existe ainda a questão das cerca de 40.000 pessoas que trabalham em projectos de carvão e que precisarão de encontrar emprego em novas indústrias. Nesse sentido, deveria ser uma prioridade para o governo australiano investir em políticas de emprego ajustadas para esses trabalhadores, neste período de transição, por forma a evitar uma onda de desemprego e crise social.

AVP – Apesar de vocês residirem em Sydney, ainda que distantes das zonas mais afectadas, também têm sofrido com as nuvens de fumo, que poderão causar problemas respiratórios. Isso também é uma preocupação constante?
AB – É mesmo! Acompanhamos a situação e as notícias a uma distância ‘segura’, mas ainda fomos fortemente afectados pela fumaça que percorreu o centro de Sydney. Tivemos dias em que o fumo era tão espesso que eu não conseguia ver do lado de fora da janela do meu local de trabalho, como mostram as fotos em anexo. No período mais crítico, mesmo saindo de casa por apenas cinco minutos, ficávamos com dores nos pulmões. E também fomos obrigados a cancelar as viagens que tínhamos programado realizar nestas férias de Verão devido aos incêndios que assolaram o país.

AVP – O que se pode esperar nos próximos tempos? E quais são as expectativas das pessoas?
AB – Infelizmente, ainda persistem focos de incêndio nalgumas regiões do país. Todos esperamos que a chuva e a descida da temperatura ajudem no combate aos fogos, deixando desde já uma palavra de reconhecimento aos nossos bombeiros, que têm sido inexcedíveis no combate às chamas. Por fim, também esperamos que a ajuda do governo e as doações públicas feitas por muitas pessoas cheguem aos mais necessitados de forma rápida e eficaz (como vimos em Portugal, isso não é necessariamente tão simples quanto parece).


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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