
As doenças do aparelho circulatório (que englobam problemas cardíacos e Acidentes Vasculares Cerebrais – AVC) são a principal causa de morte em Portugal, ultrapassando as neoplasias (cancro). Ou seja, representam cerca de 25% dos óbitos.
Existem várias queixas que podem ter origem cardíaca como dor no peito, desmaios, palpitações, e falta de ar. A hipertensão arterial, tabagismo, colesterol elevado ou diabetes, são factores de risco a ter em atenção, tal como doenças cardiovasculares já conhecidas. O ideal é antecipar-se e fazer uma consulta de cardiologia no Hospital da Luz Póvoa de Varzim para avaliar a sua saúde cardiovascular.
Quisemos saber mais e fomos conversar com o cardiologista, Paulo Gomes Ferreira, coordenador do Serviço de Cardiologia do Hospital da Luz: “Na área da cardiologia, temos uma equipa multidisciplinar e com experiência, bem preparada para responder aos desafios actuais. Eu, que há 30 anos era o mais novo já sou o terceiro mais velho da equipa, mas temos jovens com bastante competência e que estão a dar uma resposta muito boa. Estamos muito satisfeitos com eles”.
Em termos de equipamentos, a administração do Hospital da Luz Póvoa de Varzim, tem respondido de forma adequada: “Neste momento temos equipamentos de ponta, temos o melhor ecógrafo que existe no mercado, temos ressonância magnética e angio-TAC de ponta. Temos o teste de Tilt, que é um exame que poucos hospitais aqui no Norte têm e que é muito útil, sobretudo no estudo da perda de consciência. Portanto, neste momento fazemos o diagnóstico, temos tratamento médico e damos uma resposta que penso ser adequada”.
Para um melhor entendimento da fisiopatologia o especialista fez-se acompanhar de dois casos clínicos na pessoa de Ana Ferreira e Augusto Leite: “São realmente dois casos paradigmáticos de situações muito graves e que nós conseguimos identificar e tratar de forma adequada. A senhora Ana Ferreira, quando foi identificada a doença coronária tinha 45 anos. Ou seja, era um caso paradigmático, porque tratava-se de uma senhora sem factores de risco, não era fumadora, hipertensa, diabética, não tinha história familiar de doença cardíaca e começou com alguns sintomas”.
Ana Ferreira explicou o que sentiu na altura: “numa noitada de São Pedro, em 2016, fui ver a minha rusga e comecei a correr, senti um aperto e tive de parar porque não conseguia respirar. Cinco minutos depois a respiração voltou ao normal e a dor desapareceu. Só que, se eu voltasse a correr ou andar mais acelerada, a dor voltava e eu dei importância à dor. Fui saber o que é que era, eu nunca tinha sentido isso”.
Depois de vários exames inconclusivos e com a dor a persistir recorreu a uma consulta no Hospital da Luz, com o cardiologista Paulo Gomes Ferreira: “Fizemos um angio-TAC (Angiotomografia Computorizada) uma técnica nova que temos por cá e com bons resultados. Fazê-lo aqui é uma garantia de qualidade. E surpresa das surpresas, 95% de uma obstrução na artéria principal do coração. Perante isto, foi fazer um cateterismo, onde colocou um stent, ou seja, uma rede de metal. Dilata-se lentamente a artéria com o balão, coloca-se depois uma estrutura cilíndrica de metal, e o problema ficou resolvido. A partir daí temos feito um follow-up, e felizmente faz uma vida perfeitamente normal, continua com a sua profissão de educadora de infância, sem problemas”.
O caso de Augusto Leite é também paradigmático, “se no caso da senhora Ana era uma só artéria envolvida, neste caso eram várias. Mas este senhor era fumador, hipertenso, tinha colesterol alto, e uma história familiar significativa, no entanto fazia exercício e uma vida perfeitamente normal. Tinha uma ‘arritmiazinha’ mas era esporádica e nunca sentiu dores”.
O paciente revelou que, “de vez em quando havia três ou quatro batidas do coração mais rápidas, mas depois descompensava. Acontecia passar uma semana, dois ou três meses aparecia outra vez. Andei anos assim. Até que o meu genro insistiu para que marcasse uma consulta e decidi fazer aqui um check-up. Perfeitamente assintomático, eu tinha 69 anos”.
Depois de uma prova de esforço, um eletrocardiograma e uma ressonância magnética cardíaca, segundo o cardiologista este último exame revelou, “uma zona bastante extensa que não tinha uma irrigação adequada. Nós, farmacologicamente aceleramos o coração e, a seguir, injeta-se um contraste. Depois do coração estar acelerado, reparámos que havia ali uma zona com uma hipoperfusão marcada. Como era uma área muito significativa teve de fazer cateterismo”. O exame revelou uma lesão grave “com mais de três vasos afectados. Tinha o tronco comum, que é a origem das coronárias, com uma lesão de 85%. Ou seja, quer num doente, quer outro, foi uma sorte não ter havido episódios de morte súbita. É o que acontece, habitualmente, nestas situações. Neste caso, quando são lesões muito extensas e de vários vasos, não dá para dilatar. Portanto, a solução é através de uma cirurgia cardíaca, fazer um bypass”.
O que têm ambos em comum “a situação era extremamente grave, mas como vêem, eles estão bem, podem ter uma vida perfeitamente normal, mas tem de haver sempre acompanhamento. Há fármacos que são para toda a vida”.
Temos presentes dois casos que se anteciparam a um possível enfarte do miocárdio. Isto significa que os rastreios ganham cada vez mais importância na prevenção da doença? “O rastreio tem de ser o mais precoce possível, mesmo na ausência de factores de risco. Nos homens, aos 50 anos, e nas senhoras talvez na pós-menopausa, porque aí acaba-se a protecção dos estrogénios e o risco da doença coronária e cardiovascular aumenta significativamente. O rastreio é fundamental”.
E acrescenta a importância das sessões de informação que “servem para sensibilizar as pessoas para uma alimentação correcta e para o exercício. O controlo de peso, é muitíssimo importante”. E recorda: “Ainda no mês de Maio fizemos a semana do coração. No Hospital da Luz Póvoa de Varzim, fazemos rastreios com muita regularidade, penso que em termos de saúde pública, estamos a ter um papel importante na comunidade. Neste caso mesmo, na ausência de sintomas, os rastreios devem ser feitos pelo menos anualmente”.
Sente que os jovens estão, hoje, mais sensibilizados para a prevenção da doença? “Estamos numa época de muita desinformação pelas redes sociais. Cada vez há mais influencers que aparecem com umas receitas mágicas, que são perfeitamente atentados à saúde pública. Essa desinformação é preocupante para a ciência. De qualquer forma, nas gerações mais novas, nota-se realmente essa preocupação na alimentação e no exercício físico. Agora, também noto que há muitas pessoas que fazem exercício sem vigilância médica, e isso é extremamente arriscado. Se vai começar a fazer exercício de forma mais regular e até mais intensa, deve fazer um rastreio”.
Para o Cardiologista o rastreio é simples e fundamental.
Por: José Peixoto
Fotos: Rui Sousa