
A Gastrenterologia é uma das especialidades mais abrangentes que existe na área médica, uma vez que envolve todo o tubo digestivo. “Entenda-se, doenças ou condições clínicas desde o esófago, o estômago, o intestino delgado, o colón e reto, obviamente, as nossas principais áreas de intervenção, mas também abordamos outras áreas importantes, nomeadamente as doenças do fígado, pâncreas e vias biliares. De facto a gastrenterologia é uma especialidade que ao longo dos últimos anos tem assistido a um crescimento muito grande, quer do ponto de vista clínico, quer tecnológico, principalmente por causa dos desenvolvimentos na área da endoscopia digestiva, algo que as pessoas começam a conhecer cada vez mais, e que nos tem permitido abordar e aperfeiçoar não só no diagnóstico, mas também no tratamento das doenças do tubo digestivo”, revela o gastrenterologista, Rui Jorge Guedes Morais, director técnico do serviço de gastrenterologia do Hospital da Luz da Póvoa de Varzim.
Os rastreios são a melhor aposta na prevenção das doenças do tubo digestivo: “Sabemos que existem dois tumores, particularmente nos quais está indicada uma estratégia de rastreio que permite uma detecção precoce destas lesões num estádio ainda passível de tratamento, que é o cancro do estômago e o cancro do colón e do reto. No que diz respeito ao rastreio do cancro colorretal, as recomendações indicam que o rastreio deste tumor deve começar aos 50 anos. Embora, a evidência científica mais recente indica que devemos começar o rastreio aos 45 anos”.
Mas, alerta para o facto dos estudos mais recentes indicarem que, “o cancro do colorretal é a principal causa de morte nas pessoas jovens entre os 40 e os 50 anos. Ou seja, temos assistido nos últimos anos a um aumento exponencial do número de casos de cancro colorretal em pessoas jovens, mesmo entre os 35 e os 45 anos, e ainda não se percebe muito bem porquê. O aumento desta incidência pode estar relacionado com vários factores – modificações no estilo de vida, alimentos processados”.
Portugal, ao contrário da maior parte dos países da Europa, tem uma incidência intermédia e elevada de cancro do estômago: “Particularmente no Norte temos uma incidência de cancro do estômago que chega a ser comparável àquilo que se observa no Japão e na Coreia, os países com maior incidência deste cancro. Aquilo que está recomendado é que em Portugal deve ser feito um rastreio de cancro do estômago, através de endoscopia, ao mesmo tempo que se faz o exame inicial de rastreio do cancro do intestino. Ou seja, provavelmente a estratégia mais correcta a adoptar, seria fazer aos 45 ou aos 50 anos, uma endoscopia e uma colonoscopia de rastreio, quer para cancro do estômago, quer para cancro do intestino”.
Há alguma razão específica para uma maior incidência de cancro de estômago a Norte do País? “Primeiro, existem factores genéticos que podem explicar. Sabemos que particularmente no Norte de Portugal existe uma elevada prevalência de infecção por uma bactéria que se chama Helicobacter pylori e que é de facto a principal causa de cancro do estômago. Temos também os factores de dieta. No Norte consomem-se determinados alimentos, nomeadamente carnes vermelhas, alimentos salgados, carnes de fumeiro, esse tipo de alimentos estão associados a um risco aumentado de cancro do estômago e isso, em certa parte, também pode justificar o facto de no Norte de Portugal termos muito cancro do estômago”.
Manuel José Gonçalves Ferreira, 73 anos, consultor comercial, explica os motivos que o levaram a procurar os serviços médicos do Hospital da Luz: “Tenho antecedentes na família com problemas no cólon e comecei a fazer a colonoscopia a partir dos 40 anos. A primeira vez tirei uns pólipos, tempos depois repeti a colonoscopia e o número reduziu para dois. Fui sendo acompanhado e fazendo todos os anos exames que são fundamentais para o sucesso das pessoas que querem e gostam de viver. Há 2 anos atrás fiz uma colonoscopia e endoscopia. Os resultados não foram animadores. Foi detectada no Hospital da Luz uma lesão no estômago e convinha tratar”.
E Acrescenta: “Quem fez o trabalho foi o Doutor Rui Morais. Quando vi o relatório, as fotografias, aqueles nove clipes que lá colocou, eu nem queria acreditar que aquilo tivesse sido feito pela boca, sinceramente. Passei a ser acompanhado neste processo. Ao fim de dois anos fizemos o segundo trabalho porque surgiu ao lado mais um problema, e comecei a ter mais cuidado com a boca, porque como português que sou, gosto muito dos enchidos, comer bem, uns picas no chão, às vezes, beber um copito, e isso tudo tem influência na vida. Gostei muito da equipa, aliás, parabéns Doutor, foi um prazer encontrá-lo nesta vida, não pela doença que tinha, mas pela maneira de lidar comigo, e agora é acompanhar este processo todo, e fazer com que, naturalmente, eu ande cá mais uns anos”.
Para Rui Morais a área de endoscopia digestiva tem assistido a uma grande evolução tecnológica: “Nomeadamente uma melhoria exponencial da qualidade de imagem dos aparelhos. E, mais recentemente, temos assistido ao surgimento crescente da inteligência artificial na endoscopia digestiva. Já existem sistemas de inteligência artificial que, por exemplo, durante uma colonoscopia, conseguem detectar os pólipos e chamar-nos a atenção para o facto de estar ali uma lesão que, se calhar, poderia nos escapar se estivermos mais desatentos ou mais cansados. No futuro a inteligência artificial vai assumir um papel crescente, não só para o diagnóstico, mas também para a caracterização da lesão”.
A importância da detecção precoce das lesões do estômago: “Estas lesões, em 99% das vezes, não dão sintomas. Mas, sabemos que se estas lesões forem detectadas num rastreio precoce, na maior parte das vezes, conseguimos tratar por via endoscópica, ou seja, de uma maneira minimamente invasiva que muitas vezes nem implica internamento, ou implica apenas um dia de internamento. Não implica nenhuma incisão, nenhuma cirurgia e, do ponto de vista de qualidade de vida para o doente, acaba por assumir um papel fundamental. Por isso, de facto, a endoscopia digestiva é o futuro para o diagnóstico e tratamento precoce das neoplasias do tubo digestivo”.
Para vigilância de doentes com risco oncológico de lesões do tubo digestivo foram criadas duas consultas: “Passa por avaliar o doente, não só os antecedentes pessoais, avaliar os antecedentes familiares. Sabemos que a parte familiar também influencia a vigilância. O objectivo destas duas consultas novas que criámos é, precisamente, integrar os doentes num programa de vigilância regular de forma a prevenir e acautelar possíveis lesões que possam surgir no futuro. Relativamente à vigilância, nós podemos dividir entre a parte do estômago e a parte do colón do reto”.
E conclui que no Hospital da Luz há um serviço altamente diferenciado, “quer de cirurgia geral, quer de oncologia digestiva que permitem, por exemplo, a um doente que tem uma lesão mais avançada do cólon e do reto – com os acordos que há disponíveis – poder ser acompanhado e fazer os seus tratamentos”.
Por: José Peixoto
Fotos: Rui Maio Sousa