Voz da Póvoa
 
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A Identidade da Arquitectura é a Face da Construção do seu Autor

A Identidade da Arquitectura é a Face da Construção do seu Autor

Geral | 26 Janeiro 2021

Habitada a arquitectura da natureza, o homem cedo percebeu a necessidade do conforto e protecção. A caverna foi a sua primeira casa, com paredes rasgadas pela sabedoria das águas, a formar ocos nas rochas calcárias. Até aos nossos dias, a matemática e outras ciências, ajudaram o homem a datar a arquitectura e a moldar a História da humanidade. E se o homem feito barro é um operário em construção, a arquitectura é o gesto mais capaz de nos demorar o olhar, por nos revelar o seu tempo, a sua harmonia e os seus materiais.

“O meu avô, José Ferreira Thedim foi o escultor da imagem da Nossa Senhora de Fátima que está no Santuário. Por isso, cresci no meio das oficinas, das madeiras, das esculturas, do desenho e das tintas. Hoje, tenho boas recordações desse tempo porque estraguei muitos tubos de tinta ao meu avô e livros de folha de ouro, que eles usavam para as imagens”, foi desta memória que Mário Rui Bianchi Tedim Belchior Gouveia, abriu o baú das recordações.
Nasceu em Vila Real, viveu na Régua, no Porto e, é Poveiro por adopção. É Licenciado em Arquitectura e prepara um doutoramento na mesma área. Leccionou até 2015, na Escola Superior Artística do Porto e, desde 2001 na Universidade Lusíada.

As primeiras obras são sempre de boa memória, talvez por nos darem a raiz para entroncar a vida que escolhemos: “O primeiro projecto de obra, porque com o Pedro Matos, fui fazendo algumas obras de interiores, foi o desenho da casa de um construtor de interiores em Amorim. Foi uma experiência muito interessante. A casa ainda existe, mas sofreu algumas alterações. Também me recordo, entre outras, de ter feito uma intervenção no Guarda-Sol, com o Ribeiro, já lá vão quase duas décadas”, recorda.

Rui Bianchi, desde muito cedo acedeu a convites da autarquia para intervir em espaços, ruas e edifícios do município: “Nós nascemos sem ter grande possibilidade de intervir no espaço público. Qualquer cidadão, o limite que tem, é intervir na sua própria casa. Eu comecei a ter essa possibilidade no tempo do presidente Macedo Vieira, primeiro na remodelação do seu gabinete e depois, fiz o desenho que está na Avenida Vasco da Gama. A primeira obra construída foi o Café da Lota, que não ficou exactamente como estava desenhado no projecto. Com os anos, o meu leque de obras na Póvoa tornou-se muito vasto, com intervenções na Praça do Almada, Mercado Municipal, Rua 31 de Janeiro, Rua Latino Coelho, a Fortaleza, Filantrópica, todo o processo inicial do Garrett, os apoios mínimos para os banheiros, o antigo Matadouro, Centro Social de Amorim, o Centro Social de Terroso, entre outras.

Reabilitar é Dar ao Edifício a Mesma Verdade com Novas Funções

Transformar o antigo matadouro num auditório para a Banda de Música da Póvoa de Varzim foi uma intervenção que não entrou em rotura com o passado do edifício: “O Matadouro, se amanhã, quiserem repor exactamente o que lá estava, é fácil porque ficou lá tudo. O que fizemos foi rebocar as paredes, demos um desenho regular ao portão e transformámos aquilo numa zona envidraçada. O pavimento do matadouro que era um lajedo inclinado com um sulco para as águas e o sangue dos animais correrem, ficou lá, apenas cobrimos aquilo com os soalhos e rebocámos as paredes. Ou seja, fizemos um restauro. A parte nova, eram uns cobertos atrás do velho edifício. Aí tivemos a oportunidade de fazer uma biblioteca, uns gabinetes e umas salas de trabalho, sempre com muito recato para não perturbar o edifício principal”, explica o Arquitecto.

Quem olhar para um edifício desses, dirá sempre que foi bem feito, mas a intervenção na Praça do Almada é transformar uma memória visual: “A obra pública para além de todo o processo administrativo, as relações com as empresas, tem uma componente que faz com que seja diferente de todas as outras obras, que é a sua dimensão política. Ou seja, a representatividade por parte do dono da obra, da população e o julgamento que é feito à posteriori, sobre o ponto de vista que é o processo eleitoral, incute uma perspectiva no arquitecto que não pode ser displicente. A margem de manobra é muito mais curta, muito mais reduzida e o risco deve ser menor, mas também tem que acontecer. Caso contrário, não acontece arquitectura. A questão é, saber até onde posso correr o risco de transformar, introduzir modernidade, criatividade e de poder de alguma maneira acicatar os espíritos, no sentido de as pessoas poderem questionar e terem uma opinião, boa ou má, o importante é que tenham uma reacção. Mas, ao mesmo tempo que se possa colher uma resposta sobre o ponto de vista de quem tem que apresentar contas, que já não é o arquitecto mas a equipa política”.
E Rui Bianchi acrescenta: “Isso passa por duas fases muito importantes, a primeira é de ouvir com atenção, aquilo que é a orientação do dono de obra, neste caso o presidente da Câmara e a sua equipa. Depois passa pela capacidade, que às vezes não é fácil, de poder explicar ao dono da obra qual é a expectativa, antes de realizar efectivamente a obra. Da intervenção no edifício da Filantrópica, a maior parte das pessoas têm reacção favorável porque a obra é feita para ser aceite e não ter polémica, mas há outras que têm que necessariamente marcar um tempo, que é o caso da antiga garagem do Linhares (futuro Centro de Atendimento Municipal). É para as pessoas reagirem agora, mas também, de alguma maneira, para se perceber que num futuro aquela obra marca realmente aquela data, aquela equipa, aquelas pessoas e a sociedade naquele momento. Quando nós conseguimos juntar o conteúdo ao invólucro, de um modo geral as pessoas percebem e aceitam. Quase toda a obra de artes plásticas do século XX, sobretudo nos períodos mais acesos é de difícil aceitação, o cubismo, o surrealismo ou o expressionismo”.

Os arquitectos têm sempre algo de pintor e de escultor: “Se não têm, deveriam ter, sobretudo, que a sua obra tenha uma dimensão poética, a arquitectura do espaço. E pode ser uma dimensão poética mais elementar, de fácil apreensão, que as pessoas com a sua sensibilidade ligada à sua dimensão cultural compreendem facilmente, mas também pode ter uma dimensão poética de mais difícil leitura, porque os códigos são mais interpretativos, como na pintura, na literatura ou na música, mas que depois de um esclarecimento, as pessoas compreendem. A arquitectura em determinados momentos, por dimensão poética e por razões culturais de assimilação dos códigos, das linguagens ou da falta de capacidade de poder atingir essa dimensão comunicativa, torna-se mais difícil compreender. Quando nós explicamos a simbologia, os ângulos, as pessoas percebem e compreendem mesmo que não gostem. Mas o não gostar, faz parte do gosto. Digámos que, há um lado vulgar, de quotidiano, que faz com que as coisas sejam aceites facilmente, mas depois há todo um contexto, um conteúdo que de facto as obras possam ter uma outra dimensão oculta, mas que têm essa capacidade de abarcar que aos poucos se vai desvendando. É o caso da fachada da garagem do Linhares”.

A Marca Identitária da Cidade ou o Futuro a Contar Passados

A fachada do novo Centro de Atendimento Municipal tem uma linguagem e uma expressão poética muito forte. Com a simbologia do mar, podemos escrever toda a nossa identidade: “Estas coisas ficam-nos na cabeça e é permanente. Não nasceu num dia, tem muito estudo, quer do ponto de vista da geometria, quer seja da análise dos alçados e dos ritmos da própria rua, das volumetrias, dos contornos da Praça do Almada. Tem sobretudo uma distorção de ângulos. Quando o presidente Aires Pereira conversou comigo sobre o que gostaria que fosse a garagem do Linhares, sempre me disse que aquilo seria a porta de chegada ou saída da cidade. É por ali que as pessoas vão entrar ou sair, utilizando o metro de superfície ou mesmo transitando para a zona sul da cidade. Pensei na forma dos poveiros receberem as pessoas simbolicamente. Aquilo é uma obra que tem esta carga simbólica forte, mas se for explicada as pessoas percebem. Fiz uma série de fotografias de redes que são colocadas nas varandas das casas, sobretudo no bairro sul, mas também por outros bairros da cidade, que depois são enriquecidas com os aprestos e os símbolos do mar, as lanchas, as bóias, os remos. Juntando isto à tal interpretação da geometria das fachadas distorcidas, numa perspectiva de percurso, com a ideia das redes como um gesto de boas vindas, resultou na fachada que vemos”.

O resultado final da fachada veio depois da construção de um protótipo, recorda Rui Bianchi: “Foi o presidente que mandou fazer para apresentar em público. Depois, Aires Pereira sugeriu que a fachada cor do alumínio era capaz de se perder e ficar um bocadinho pesado. Aí surgiu a discussão e a oportunidade. Uma das redes corresponde a dois módulos, que representa aquilo que a Póvoa ganhou do mar e, há um terceiro módulo, uma rede preta, que representa o luto que o mar trouxe à comunidade. Ficou expresso naquela fachada, não só a forma de receber dos poveiros, mas também aquilo que é esta dimensão da construção da sociedade poveira com a origem no mar. O que vemos, obriga a que as pessoas tenham uma posição, ou gostam ou não gostam. Isso já é um passo em frente. Por outro lado há escola, há arquitectura. As pessoas podem interpretar como entenderem, mas em boa verdade a arquitectura sobre o ponto de vista daquilo que se passa na actualidade em todo o mundo, segue este padrão. Tu tens que intervir deixando uma marca do teu tempo”.

A arquitectura é a intervenção no belo, no que fica ao longo dos séculos. E a primeira visão é da fachada, aquilo que eterniza a obra, podemos fazer muitas intervenções no interior, mas o que fica é a fachada, o rosto da antiguidade, da época. O arquitecto desenha uma parte do mundo do nosso olhar. “Desenham em nome de uma consciência daquilo que é a capacidade da sociedade. Podemos fazer uma viagem, vamos admitir que visitamos um país com uma cultura diametralmente diferente da nossa. Saímos para a rua e não falamos para ninguém, o nosso objectivo é visitar a cidade, podemos entrar num ou outro edifício, podemos assistir a um concerto, ir a um museu, entrar num bar ou num restaurante e não falamos com ninguém. Quando chegamos dizemos que conhecemos aquela cidade. De facto não conhecemos, mas ficamos de alguma maneira a conhecer o povo daquela cidade porque a arquitectura tem a capacidade de reflectir sobre o ponto de vista do testemunho, aquilo que as pessoas foram capazes e quiseram fazer. Isto é a capacidade que a arquitectura tem de absorver, a identidade das pessoas, dentro daquilo que é a sua própria habilitação para poderem construir. A arquitectura é de facto um livro que plasma essa verdade inequívoca. Seria errado pensar fora do conhecimento e dos materiais de determinada época. Aquilo que os edifícios são. A cidade é de facto uma demonstração daquilo que é o conhecimento do seu tempo” enaltece Rui Bianchi.

Quando a Representam a Cidade Revê-se nos seus Símbolos

 O arquitecto está umbilicalmente ligado à arte porque a própria intervenção da arquitectura é pensada para cada espaço: “Sinto-me aí. Agora, a arquitectura é herdeira de três circunstâncias, como dizia o arquitecto Fernando Távora. Por um lado, é apenas o desenho, no sentido das belas artes, mas também é herdeira da construção, no sentido da engenharia, da geometria. Eu acho que também é herdeira da capacidade do ser humano para poder, com a sua sensibilidade, de alguma maneira colocar, se fosse música, o som mais ou menos alto em função das circunstâncias do lugar. Sobretudo, este somatório entre as Belas Artes e a engenharia, entre as Belas Artes e as matemáticas, as ciências exactas e as humanidades, é o que hoje preside. Estou de acordo quando diz que a arquitectura é arte. Na antiguidade, dizia-se que a arquitectura era a mais nobre das três artes e as outras eram a escultura e a pintura”.

A requalificação da Fortaleza, para Rui Bianchi não apagou a sua impressão de três séculos de história: “A arquitectura é um somatório de camadas. Em boa verdade se não estudarmos a história do edifício, achamos que aquilo foi sempre assim. O projecto da Fortaleza foi um processo demorado que permitiu fazer um estudo bastante profundo sobre a sua história, consultando todos os documentos. Esta questão do restauro e da reabilitação é relativamente recente. Aqui em Portugal terá chegado no século XX e mesmo em termos mundiais começa nos finais do século XVIII. A Fortaleza é um somatório de momentos. O que a arquitetura procura ser é verdadeira. Não temos que esconder. Por vezes, temos dificuldade em esclarecer que uma imitação não é a verdade. A Fortaleza é um edifício militar. Podemos reabilitá-lo e adequa-lo a outras funções. Podemos homenagear, evocar o seu passado com outras funções. Aparece aqui também essa dimensão do património, da museologia e da cultura”.
 
A Fortaleza não é um adorno, mas uma evocação da cultura bem diferente da representatividade da Praça de Touros: “É uma comparação muito interessante, porque na Fortaleza estamos a evocar a história da Póvoa, a identidade e a sua transformação. A Fortaleza da Nossa Senhora da Conceição é testemunho desse passado, testemunho da comunidade e não de um pequeno grupo. É evocativa dessa dimensão cultural. Agora, vamos admitir que se pretendia preservar a Praça de Touros. A questão é o que é que se evoca ali na preservação. São os feitos dos poveiros? É a linguagem de uma época? Um estilo? Toda a comunidade se revê no edifício? É apenas uma intervenção de iniciativa individual? Acho que não é nada disto. A única razão de facto é ser um edifício singular, tudo o resto não tem peso, não tem representatividade. É um edifício que tem 70 anos, a Fortaleza tem quase 300 anos e tem a representatividade da cidade que cresceu à sua volta. A Tourada não. Depois há um conjunto de circunstâncias que as pessoas não dominam, que com o tempo vão-se apercebendo. A Câmara tem um plano para aquela zona que é conhecido e está na sua fase final e tem um conjunto de pessoas que estão preparadas para trabalhar nisto e sabem o que estão a fazer. Depois, a Praça de Touros, para além de estar em ruina, não cumpre com as normas legais para espectáculos e não pode funcionar de acordo com as regras que têm a ver com a segurança, as acessibilidades, o conforto e tudo o resto. Teria que ser forçosamente demolida e reconstruida e eu gostava de perguntar se o edifício deveria ser uma nova Praça de Touros, provavelmente iriamos ter algumas pessoas a repensarem a sua posição”.

Por outro lado, também é importante dizer-se que, “quando se pensou este projecto, alguma memória deveria lá ficar. E em boa hora o presidente da Câmara assumiu esta posição – Vamos refazer a Praça de Touros com a mesma forma, no mesmo sítio, com as mesmas dimensões. Nós ainda fomos mais longe, com a indicação que ele deu. A arena tem rigorosamente a mesma área. O círculo exterior é o mesmo e a arena interior (o recinto de espectáculos) é exactamente o mesmo. As bancadas são diferentes por força da lei, a zona de trânsito entre cadeiras tem que permitir a circulação de pessoas por isso, é mais larga e mais baixa por razões que têm a ver com as cadeiras. Mas, ainda fomos mais longe ao garantirmos que o número de entradas que a actual Praça de Touros tem, é o mesmo da Póvoa Arena, as entradas estão no mesmo sítio, garantimos que a altura do tambôr da arena é o mesmo e ainda queremos aproveitar as madeiras das barreiras e dos cubos que são madeiras de pinho com um veio lindíssimo, e utilizar como cofragem do exterior, fica ali a impressão digital”.

E o Arquitecto Rui Bianchi conclui: “Gosto destas obras que são feitas ao sabor da pena, por muito que ela esteja planeada há sempre uma componente que mexe e nos obriga a ver como é que ficou, se está tudo a funcionar bem. Nem sempre corre como a gente quer, mas isso faz parte. A Filantrópica foi uma obra onde tudo funcionou bem e de forma tranquila. As pessoas não imaginam o trabalho prévio que existe para um projecto, todo o estudo que é feito. E esse estudo não começa naquele projecto, começa com o interesse na arquitectura. Desde logo, o interesse permanente em acompanhar o momento, o discutir, o visitar. São as leituras, as viagens, as conferências, os pequenos eventos que andam à volta da arquitectura, tudo isso é um trabalho imenso. O que me paga é a consciência tranquila em tudo aquilo que faço”.

Por: José Peixoto

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