Voz da Póvoa
 
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A Árvore do SNS a Ramificar-se na Defesa dos Utentes

A Árvore do SNS a Ramificar-se na Defesa dos Utentes

Geral | 9 Agosto 2021

A saúde é uma área em constante transformação. A sua gestão obriga a uma permanente actualidade, não só dos meios de diagnóstico, como do pessoal médico. Com o surgimento da Pandemia Covid-19 e a intensidade do ritmo de contaminação no prolongar da doença, foi necessária uma adaptação dos meios de resposta aos novos desafios, planeando e estruturando o Serviço Nacional de Saúde para os diferentes cenários desta nova emergência de saúde pública.
Sabendo que o caminho se faz caminhando, estivemos à conversa com Judite Maria Silva de Morais Neves, directora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde do Grande Porto IV – Póvoa do Varzim / Vila do Conde. A nossa interlocutora nasceu em 1977, no Porto. É licenciada em Administração e Gestão de Empresas pela Universidade Católica Portuguesa. Entre outras formações fez o Curso de Alta Direção em Gestão de Unidades de Saúde para Gestores no Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas da Universidade de Lisboa.

“Na minha família o meu avô, o meu pai e o meu irmão são médicos. O bichinho da saúde, no meu caso está ligado à área da Gestão. Iniciei no Centro de Saúde Aldoar, no Porto, como coordenadora de Gestão Administrativa. Mais tarde, surgiu o convite para Póvoa de Varzim / Vila do Conde e aceitei o desafio”.

Sabemos que o ACES - Agrupamentos de Centros de Saúde - está dividido em Unidades funcionais, Judite Neves revela números e intenções: “Temos inscritos cerca de 155 mil utentes, divididos por 14 Unidades de Saúde Familiares. Temos 7 na Póvoa de Varzim e outras 7 em Vila do Conde. Não temos utentes sem médico de família ou enfermeiro de família. Tendo em conta o panorama nacional, é excelente porque nos permite fazer uma vigilância de proximidade com os nossos utentes. A par disso, temos duas unidades que desenvolvem actividades mais de âmbito comunitário, como a parte da preparação para o parto ou da saúde escolar. Temos também duas equipas de cuidados continuados integrados, que têm 20 camas no domicílio cada. Ou seja, são 20 utentes inscritos nas nossas unidades, que estão no domicílio e aos quais são prestados cuidados diferenciados, no contexto da reabilitação e de acções paliativas. Temos também Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados que tem valências como a psicologia, a nutrição, o serviço social, dois fisioterapeutas e, há cerca de dois anos, temos a medicina dentária”.

E acrescenta: “Temos uma cadeira dentista nas freguesias de São Pedro de Rates e em Malta. Foi uma opção tomada em conjunto com as autarquias, de modo a descentralizar um pouco. Havia uma tendência para colocar tudo nos grandes edifícios sede, e agora está dividido em Unidades de Saúde Familiar, duas em Vila do Conde e três na Póvoa de Varzim. Temos também a Unidade de Saúde Pública que funciona em Vila do Conde, mas que abrange os dois concelhos e, actualmente, é muito solicitada pela situação da Covid-19, porque faz a vigilância comunitária”.

Judite Neves esclarece que, “todas as nossas unidades no ACES contratualizam uma carteira de serviços, são responsáveis por aquela população e por projectos que são avaliados e monitorizados, com um acompanhamento próximo. Eu trabalho conjuntamente com um Conselho Clínico e de Saúde cuja presidente é uma médica de medicina geral de saúde familiar que também está integrada numa unidade, temos uma enfermeira gestora, uma médica de saúde pública e uma nutricionista. É uma equipa multidisciplinar. Temos também a Unidade de Apoio à Gestão, que suporta todas as unidades funcionais. O agrupamento de Centros de Saúde é um serviço desconcentrado da ARS Norte, não somos autónomos, estamos na sua dependência. A par disto, as unidades contratualizam colaboradores e têm uma avaliação global. Nós fazemos a monotorização e o acompanhamento de todas as áreas em mútuo desenvolvimento. Temos USF modelo A e modelo B que é o seguido pelas unidades mais avançadas, que apostam mais na qualidade e já estão num nível de maturidade diferente. Neste momento, temos 10 unidades nessas circunstâncias e aguardamos a transição de mais duas. O nosso agrupamento, no índice de desempenho global nos últimos dois anos, foi aquele que teve o valor mais elevado a nível nacional. É um motivo de orgulho para o empenho de todos os profissionais”.

Quando a Vida Parou na Estação da Pandemia
 
Os primeiros casos do coronavírus (Covid-19) tiveram origem na cidade chinesa de Wuhan, mas as razões do desconhecido foram entrando nas vidas dos países: “Foi uma surpresa para todos, para os profissionais de saúde, para as organizações e para os próprios utentes e famílias, no dia-a-dia quebraram-se todas as rotinas. Tivemos que dar uma resposta imediata, muitas vezes, com base no desconhecido e na sua evolução. Fizemos uma readaptação muito grande dos serviços. Tenho que dar uma palavra de reconhecimento aos profissionais, que tinham já uma dedicação muito grande a todas as actividades, mas com esta causa, este combate e esta luta que tem sido a Covid-19, neste último ano e meio, mereceu uma dedicação exemplar. Tivemos que readaptar e perceber aquilo que era prioritário e, por isso, houve coisas que ficaram por fazer. Assegurámos a consulta aguda, a dos grupos vulneráveis e de risco, o acompanhamento das grávidas, das crianças, os domicílios, tratamentos, nenhum destes serviços foi suspenso. Privilegiámos outro tipo de contacto, por telefone, por email, de forma a que os utentes circulassem o menos possível nas unidades”.

Segundo Judite Neves, as unidades de saúde tiveram também que exercer novas funções: Criámos a área dedicada à Covid com consulta, um novo serviço que ainda funciona. Temos também o acompanhamento dos utentes que estão em vigilância ou com Covid, e quer os médicos, quer os enfermeiros, fazem essa vigilância e contacto diário com eles. Ou seja, algumas funções tiveram que ser priorizadas e com grande esforço de todos os profissionais. Passámos uma fase com muitos positivos e o dobro em vigilância, a nossa actividade principal era realmente a Covid. Houve esta readaptação ao processo, às necessidades da população no sentido de tentar abrandar e menorizar ao máximo o contágio. Apostámos também na educação para a saúde da população, porque sabemos que o contágio é rápido e muitas vezes incontrolável”.
  
Com a descoberta recorde de uma vacina, foi necessário criar centros de vacinação: “Sempre fomos capazes de nos adaptar e de nos reinventar. Neste momento, temos dois centros de vacinação, iniciámos na Póvoa de Varzim, precisamente na Escola do Cruzeiro na freguesia de Aver-o-Mar, quando tínhamos ainda poucas vacinas disponíveis. Quando o volume aumentou, criámos novo centro de vacinação em Vila do Conde e ficamos em permanência com os dois centros, onde a colaboração das autarquias foi fundamental. Os Centros de Vacinação e a sua gestão são do Ministério da Saúde, mas todo o apoio logístico e de instalações foi facultado pelas Câmaras Municipais, que têm sido fundamentais para o sucesso deste processo. Depois, temos muitos profissionais de saúde nos centros de vacinação, médicos em permanência, enfermeiros e administrativos. Para isto funcionar 6 ou 7 dias por semana, tem um impacto muito grande na prestação de cuidados, porque estes profissionais vêm das unidades de saúde para os centros de vacinação. Tivemos um reforço de profissionais, enfermeiros e médico de reforço, mas temos muitos outros serviços e em locais diferentes. O número de profissionais que isso requer, a logística que é complicada, mas continuamos 100% dedicados. Já administramos desde o início do processo mais de 100 mil vacinas, com uma média diária de 800 vacinas em cada centro de vacinação”.

Quanto a falhas dos utentes no processo de vacinação, Judite Neves reconhece que é preciso estar atento: “Numa fase inicial, na vacinação da população adulta acima dos 80, o processo era mais lento, foi na altura de Inverno e as pessoas vinham mais agasalhadas, muitas com mobilidade reduzida, demorava um pouco mais, mas raramente falhava alguém. Agora, na população mais jovem, deparam-nos com muita adesão, mas também muitas faltas. O auto-agendamemto veio facilitar o processo, mas muitas vezes acabam por faltar ou vêm no dia seguinte. Nesta fase, era importante as pessoas consciencializarem-se que se tem a vacina agendada não devem faltar”.

A operacionalização do processo tem decorrido dentro da normalidade: “Não tem havido falhas na vacinação. É um processo que está a ser liderado pela Task Force nacional, nós temos reuniões periódicas com esta entidade e as ARS, temos uma programação semanal daquilo que vamos receber, porque há sempre ajustes a fazer. Depois, fazemos o acompanhamento das entregas. Toda a cadeia logística está muito bem organizada”.

Nesta fase, Judite Neves admite que não há tempo para pensar em novos projectos: “Este último ano é vacinas e Covid o dia todo. No âmbito da qualidade, tínhamos muitos projectos diferentes que nos obrigavam a muitas reuniões e muitas parcerias com instituições e com parceiros locais. Era para onde estávamos mais voltados, para criar sinergias com a comunidade e avançar em projectos mais comunitários, mas de interesse para a população, de âmbito mais global. Neste momento, esses projectos estão suspensos ou num ritmo mais lento. Não deixámos cair nenhum projecto, mas agora, a direcção está toda vocacionada para a parte da vacinação. Este é um tempo vivido com muita adrenalina, muito intenso e tenho saudades do passado recente. Fazíamos muito acompanhamento às unidades, reuníamos e criávamos projectos. Mantemos as reuniões, no mês passado fizemos uma reunião presencial e este mês voltamos novamente às reuniões virtuais. Na área dos recursos humanos, da proximidade do gestor a todos os profissionais, mesmo dos utentes, acho que é decisivo para o sucesso de qualquer organização”.

A Vacinação vai Continuar até ser Atingida a Imunidade de Grupo

O plano de vacinação contra a COVID-19 foi elaborado pela Task Force: “Temos avançado bem com os grupos etários conforme a Task Force nos indicou e acho que o processo tem corrido bem. Está tudo a avançar ao mesmo ritmo no país e sem grandes diferenças entre regiões. O que fazemos é adaptar as decisões da Task Force à comunidade local. Temos muitos pescadores e se por vezes fazem pedidos ao Centro de Vacinação e são elegíveis, nós agendamos, facilitamos. Por vezes, são embarcações que vão para o mar e só regressam daqui a dois ou três meses. Outro exemplo são os camionistas que fazem viagens de longo curso e se estão nos elegíveis, vamos vaciná-los. Não são parcerias, é uma adaptação à comunidade local e à necessidade dos nossos utentes, dentro daquilo que é definido e está programado, se estão dentro da faixa etária vamos agilizar a sua vacinação. Neste momento, cerca de 56% da população dos concelhos da Póvoa de Varzim e Vila do Conde já está vacinada”.

Já é possível vacinar pessoas de outros municípios, explica Judite Neves: “A população quando faz o auto-agendamento escolhe o local onde quer ser vacinada. Posso estar inscrita na Maia, mas como trabalho na Estela posso agendar para o centro de vacinação da Póvoa. Sou recebida porque apareço no sistema. Na região Norte todos os concelhos têm um Centro de Vacinação, pelo que não há necessidade de terminar aqui e ir dar ajuda a outro local, penso que isso não se vai colocar. Como esta é uma zona onde muita gente passa férias, pode haver um acréscimo de agendamento. Quando faz o agendamento, faz o pedido para o local onde quer ser vacinado. Devemos é levar as duas doses no mesmo Centro de Vacinação”.

Para a directora executiva do ACES impera uma maior consciência sobre a necessidade de ser vacinado: “Há imensos benefícios. Sabemos que há uma franja da população que é contra a vacinação, mas nós temos que pesar os benefícios e considerar o real estado em que poderíamos estar se não fossemos vacinados. É uma grande aposta que tem sido feita e todos os especialistas reconhecem a prioridade da vacinação. Estamos neste ritmo alucinante de querer a imunidade de grupo em Agosto, com os 70% de vacinados como tem vindo a ser vinculado. Todas as pessoas, para sua protecção individual e protecção dos outros, devem vacinar-se”.

Ainda não há nada em concreto, mas a vacinação poderá ter uma continuidade nos próximos anos: “Tem sido muito discutido, incluindo a possibilidade de uma terceira dose. Neste momento, não temos qualquer informação concreta sobre isso. Tudo é ainda muito recente e continuamos a evoluir. Pode vir a ser possível, mas não temos essa informação. A acontecer será integrado junto das próprias unidades de saúde e fará parte de um plano de vacinação conforme acontece com outras vacinas”.

Este ano, não tivemos muita gripe sazonal, mas também é verdade que toda a gente usou máscara e dificultou o contágio: “Se calhar a máscara está para ficar, mesmo nos meses de verão. Penso que cumprimos mais a etiqueta respiratória e todas as medidas aí associadas, daí que houvesse menos gripe. Vem dar razão aos especialistas quando dizem que devemos cumprir estas medidas, tossir com o braço na frente e usar máscara acabou por ajudar bastante. Com a Covid ainda temos um lado desconhecido, mas acho que estamos no bom caminho. Há uma exigência aos profissionais de saúde muito grande, estar nos centros de vacinação a vacinar, vacinar, vacinar! Acho que vai dar os seus frutos. Esperamos no final do ano estar mais dedicados a outras actividades, áquilo que os cuidados primários sabem fazer, na esfera da vigilância e da prevenção dos seus utentes”.

A concluir, Judite Neves acrescenta que, “estes últimos tempos têm sido uma prova de fogo para os profissionais e estruturas do Serviço Nacional de Saúde, que têm dado uma resposta cabal. Às vezes, queríamos mais, queríamos estar noutro patamar, mas a vacinação segue a bom ritmo. Só com profissionais tão dedicados e empenhados, conseguimos manter elevados níveis de qualidade e de vigilância dos utentes e ao mesmo tempo, damos resposta a estas novas actividades que agora são prioritárias”.

Por: José Peixoto

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