Voz da Póvoa
 
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O Pescador que foi Criança num Dia de Maresia

O Pescador que foi Criança num Dia de Maresia

Freguesias | 11 Junho 2026

 

Foram três dias, 29 e 30 de Maio e 1 de Junho, dedicados ao pescador sem esquecer as suas origens, marcas e histórias em livro e poesia. Porque antes de nascer uma profissão, uma actividade, somos crianças, que também não foram esquecidas pela Junta de Freguesia ao celebrar e antecipar o Dia Mundial da Criança com jogos tradicionais na Rua da Junqueira.

O primeiro dia foi um convite à comunidade para encontrar as ‘Siglas Poveiras no espaço público’ que teve início junto à estátua de Santos Graça, na Praça 5 de Outubro, logo pela manhã: “As siglas caíram em desuso, ou seja, deixaram de ser a actualização primária que era marcar os apetrechos dos pescadores, eram as marcas que eles faziam naquilo que era a sua propriedade, para distinguir da propriedade dos outros. No entanto, com a evolução do país e até da alfabetização obrigatória, as pessoas deixaram de usar as marcas. O seu uso, normalmente, era porque não sabiam escrever o nome, marcavam inclusivamente os contratos, as dívidas, tudo o que era feito era com aquelas marcas”, esclareceu Ricardo Silva.

Para o Presidente da Junta de Freguesia da Póvoa de Varzim, ultrapassada essa fase, “as siglas persistiram, mas persistiram enquanto elementos arquitectónicos, aqui na Póvoa de Varzim, e que as pessoas colocam nos espaços, tanto o poder público como os privados, muitas vezes para dar conhecimento da sua filiação e do seu brasão de família, mas também como uma forma estética de afirmar a sua identidade de poveiro. Há muitos desses exemplos aqui na Póvoa e achei que era interessante redescobrir as siglas no espaço público. Por isso fizemos esse roteiro”. Todos os roteiros estão disponíveis no site da Junta de Freguesia e são possíveis de fazer através de telemóvel.

No Mercado Municipal foi inaugurada na manhã do dia 30 de Maio, a exposição ‘Dizeres do Pescador Poveiro’. “Nós decidimos criar uma exposição com o vocabulário que foi recolhido junto da colmeia piscatória pelo Santos Graça. Há muitas expressões que são comuns aos dias de hoje, outras que desapareceram. Esta exposição está patente no Mercado, junto ao peixe, e é dedicada aos poveiros. Os poveiros eram os pescadores, as pessoas que viviam na Póvoa eram povoenses, daí Clube Naval Povoense”.

Com esta exposição, Ricardo Silva pretende chegar ao maior número possível de pessoas, “este património imaterial que é a linguagem, que é um vocabulário que pertence a uma determinada classe, a um determinado tempo da nossa história poveira, nós espalhamos isto por todo o lado. Tem, portanto, a palavra ou a expressão e depois tem também a explicação da expressão, aquilo que ela quer dizer. Está aqui no Mercado Municipal, está no Centro de Atendimento Municipal, no Turismo, no Centro de Empresas, na Central de Camionagem, na Junta de Freguesia, na Biblioteca Municipal, no Diana Bar, está espalhada nos espaços públicos aqui na Póvoa”. 

A aposta na republicação mantém-se como forma de recuperar leituras e autores: “no início do século XX a Póvoa foi muito estudada e muito admirada pela dinâmica que tinha em termos culturais, em termos patrimoniais e etnográficos. É aí que se dá o surgimento da camisola poveira, o Rancho Poveiro que começa a percorrer o país, a comunidade piscatória fornecia o norte todo do país, era das maiores comunidades piscatórias de Portugal. E portanto, a nossa etnografia, os nossos costumes também eram muito procurados e muito estudados. Há uma série de livros com essa contemporaneidade, como o ‘Maresia’ de Raul Faria. Um Romance sobre a vida na comunidade piscatória, no início do séc. XX, que contribuirá para um melhor conhecimento dos aspectos socioculturais ancestrais formadores da nossa comunidade”.

E justifica a aposta cultural: “A ideia da Junta de Freguesia com a republicação é colocar outra vez disponível os livros para quem os quiser ler, ou seja, para os poveiros que se interessam sobre a história da sua terra, mas também disponibilizar estes livros para quem faz investigação sobre a Póvoa de Varzim, para que se criem novos trabalhos sobre esta comunidade, especialmente estudos antropológicos, etnográficos, sociológicos, deixando o livro disponível, que suscita sempre o interesse de alguém e portanto é esse o objectivo da Junta”.
 
Nos dias 30 e 31 de Maio, “fizemos um apelo a todos os 25 restaurantes aderentes a apresentarem o menu do pescador. Fiquei muito contente com a adesão, penso que para o ano vai ser muito maior. O objectivo é que na restauração se comemore aqui na Póvoa o Dia do Pescador, porque o pescado de facto é uma parte importantíssima, se não a mais importante da nossa gastronomia. Diz-se muitas vezes que não há restaurantes de peixe na Póvoa de Varzim, mas há muitos restaurantes interessados em confeccionar peixe e a fazer novas receitas de peixe, novos pratos de peixe e acho que isso é o mais importante”.

Por: José Peixoto

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