Voz da Póvoa
 
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O Folclore na Raiz das Tradições de Beiriz

O Folclore na Raiz das Tradições de Beiriz

Freguesias | 1920 | 7 Agosto 2019

No caminho da longevidade todos os povos construíram as suas tradições, que por sua vez se traduzem em costumes, contos, lendas e provérbios transformados em canções. Os nossos dias gozam hoje do privilégio de uma oralidade que passou de geração em geração e sobrevive à passagem do tempo no folclore, sem dúvida o género de cultura mais popular e ao mesmo tempo um verdadeiro transmissor de alegria e de memória.
Como a história também reza, conta-se que na freguesia de Beiriz se organizou, em 1978, um cortejo com trajes tradicionais para angariar fundos para a igreja. A beleza do trajar antigo fascinou Mário da Silva Ferreira, que convenceu um grupo de pessoas a formar um rancho folclórico. Pelo meio conversou com o amigo e historiador local, padre Manuel Amorim, que o esclareceu das tradições da terra, onde os tapetes de Beiriz assumiam primordial importância, mas também os pedreiros, os madeireiros, os negociantes de gado, as lavadeiras e os agricultores. Da tradição da terra se vestiu o Grupo Folclórico de St.ª Eulália de Beiriz, que foi fundado em 18 de Outubro de 1979, de onde nasceu o rancho com o mesmo nome. Entre as danças e cantares que interpretam, encontra-se o Vira e o Malhão Minhotos. Algumas composições são recolhas originais, sendo outras de raiz popular.
A caminho dos 40 anos, o rancho mantém a vitalidade dos primeiros tempos, graças à entrega das consecutivas direcções que foram assumindo as rédeas à tradição, como se confirma nas palavras do actual presidente, Mário Jorge: “O primeiro presidente era um tio meu, irmão da minha mãe. Praticamente houve sempre alguém da família a integrar a direcção. O presidente da Assembleia Geral, Alcino Ferreira, meu primo, é um dos fundadores. Entrei com cinco anos e algum tempo depois já dançava. Por razões profissionais dos meus pais, estive afastado dos 13 aos 22 anos. Também aprendi acordeão na antiga escola do rancho e integro actualmente a tocata. Para o rancho foi sempre uma mais-valia pertencer à terra dos famosos tapetes. Algumas canções eram cantadas pelas mulheres que trabalhavam na Fábrica de Tapetes de Beiriz. Com a ajuda do padre Manuel Amorim foi feita uma pesquisa que permitiu recuperar o traje tradicional, entre outros, da Tecedeira, Noivos, Camponesa e Domingueiro”.
Mário Jorge Ferreira nasceu em 1974, em Beiriz, e soma já 14 anos à frente da direcção. O presidente reconhece que os tempos são outros, mas não afastaram a renovação do grupo: “Somos cerca de 40 elementos. Temos fases em que contamos com mais pares e outras com menos. Isso tem a ver com as épocas do ano e os estudos de alguns jovens elementos. Antigamente era mais fácil porque os jovens viam no rancho uma possibilidade de conviver um pouco e conhecer outras terras. Agora a juventude tem mais liberdade. Mas temos conseguido cativar novos elementos e as idades vão dos 5 aos 93 anos. As pessoas de mais idade estão na representação, no coro e na tocata, e os mais jovens na roda”.
O Rancho de St.ª Eulália organiza um Festival de Folclore que soma os mesmos anos do grupo. “Temos optado por convidar quatro grupos folclóricos, não só por causa da logística, mas também para que o espectáculo não seja muito prolongado. Queremos que não ultrapasse as 200 pessoas para facilitar no servir as refeições. Desta vez foram servidas no Centro Social da Paróquia de Beiriz. É preferível pontuar na qualidade que na quantidade e convidamos sempre ranchos de regiões diferentes. Temos o apoio da Câmara Municipal, da Junta da Freguesia, associações, algumas empresas e de muitos populares. Os componentes do rancho trabalham bastante na organização e logística. O festival é no Largo da Margarida. Tentamos sempre proporcionar o melhor convívio possível aos convidados”, clarifica o presidente.
Segundo refere Mário Jorge, nem sempre é fácil responder aos convites porque implica disponibilidade e deslocações por vezes dispendiosas: “Os apoios nunca são suficientes, mas temos algumas actuações pagas e organizamos convívios, como noites de fado, tardes dançantes e outras actividades. Todos os anos andamos pelas portas a cantar as janeiras para reforçar o pé-de-meia para as deslocações. Já estivemos na Córsega, em França e algumas vezes em Espanha. Vamos agora aos Açores, com 36 elementos. Partimos esta quarta-feira e regressamos a 15 de Agosto. Seremos acolhidos na Madalena e depois vamos representar em vários pontos da ilha do Pico”.
Ter um espaço mais digno para as suas actividades continua a ser um sonho: “Chegamos a ter um projecto para construir um salão, mas foi abandonado porque o dinheiro nunca foi farto. Ensaiámos no salão da junta que irá ser demolida para dar lugar a novas instalações e a um pavilhão multiusos para a freguesia. A obra poderá começar no final do ano. Se o projecto se concretizar, o rancho poderá servir-se do pavilhão, assim como outras associações. Podemos fazer regressar o teatro, que já tivemos, e dessa forma captar mais jovens para a representação e também para o rancho”.
Os grupos de folclore vivem pela carolice das pessoas, mas deviam ser mais valorizados, reitera o presidente do Rancho Folclórico de St.ª Eulália: “Temos que reconhecer que há uma identidade que o traje de folclore mantém e enaltece. Depois, podemos sempre colaborar com as instituições, que são muitas vezes a alma da freguesia. O cortejo etnográfico organizado pela autarquia, em cada quatro anos, é uma altura em que todos se unem para representar a freguesia. Temos que nos sentir úteis. No fundo, não é só recriar uma cultura, mas também chamar jovens e receber pessoas. Chegamos a ter nove viúvas no rancho, uma forma de recuperar a alegria e esquecer as amarguras”.
Mário Jorge não tem dúvidas que o trabalho feito vai assegurar o futuro: “Tenho jovens que não imaginavam um dia dançar no rancho. O estigma da cultura parola começa a perder-se. Hoje, são eles que chamam outros para o grupo. O ensaiador tem 20 anos. Os jovens são os mais entusiastas da roda e vivem com muita alegria a tradição do folclore. Também fomentamos o espírito de grupo com gente de todas as idades. Isso tem ajudado a corresponder a todas as solicitações. Temos gente muito empenhada em dar continuidade ao rancho. Há ideias novas que cativam e vejo com bons olhos o futuro”.

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