Voz da Póvoa
 
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As Bodas de Ouro do Rancho de São Pedro de Rates

As Bodas de Ouro do Rancho de São Pedro de Rates

Freguesias | 1957 | 15 Julho 2020

Era muito habitual pelos campos, pelas casas, pelas eiras das malhadas, ouvir cantar uma espécie de cura alegre “Quem canta seus males espanta”. Para felicidade dos vindouros, há sempre alguém que antecipa o futuro, com o sentido de a viagem natural da modernidade não deixar para trás a memória e tradição de um povo.

Ouvimos dizer que “quem conta um conto acrescenta um ponto”, mas a verdade continua lá. “Contam os mais antigos que o grupo existe desde 1968. Alguém se lembrou de fazer um concurso ‘O Avental de Chita’ que tinha o objectivo de juntar os jovens ao domingo à tarde na serração Cabreira e Machado, que ainda existe, para dançar. Nesse tempo a senhora Maria Moreia, mais conhecida por ‘Maria da Rua’ juntava os jovens na sua casa a ensaiar numa eira aos sábados à noite. Como morava ao lado da casa, assisti muitas vezes àquela maravilha. A eira era para quem dançava, mas chegava a ter quase duas centenas de pessoas à volta. No final dos ensaios a senhora, que tinha algumas posses, dava sempre de beber às pessoas. Depois começaram a organizar uns cortejos de angariação de fundos para a construção do Salão Paroquial. O lado Norte e o lado Sul da freguesia, trazia cada um o seu grupo de jovens para dançarem. A vontade da Maria Moreira levou à fusão dos grupos e à fundação, a 18 de Julho de 1970, do Rancho Folclórico de S. Pedro de Rates, que foi apadrinhado pelo Rancho Folclórico Poveiro. Há um filme que documenta o facto. Foi junto ao Salão Paroquial ainda em obras”, recorda José Matias, actual presidente da colectividade, que no sábado completa 50 anos de história.

Em 1976 integrou pela primeira vez, como dançador, o Rancho Folclórico de S. Pedro de Rates. Alguns anos depois casou e só voltaria a dançar em 1991. Pelo meio foi Vice-presidente da Associação de Amizade de São Pedro de Rates, esteve ligado, ao futebol Inter-freguesias e à arbitragem. Em 1994, foi Vice-presidente e um ano depois rendeu na Presidência do Rancho, José Lopes Macedo. É também o ensaiador e quem apresenta em palco a tradição do traje e das danças de S. Pedro de Rates.

José Ferreira Matias da Silva nasceu em 1960, no Lugar da Praça, em Rates. A sua ligação ao associativismo vem da adolescência, o que lhe valeu vários cargos directivos. Os 25 anos à frente do Rancho Folclórico mereceram por parte do Presidente da Junta de Freguesia (Paulo João) rasgados elogios e a revelação de uma condecoração pessoal e ao Rancho que lidera: “Nunca será minha intenção fazer seja o que for com a ideia de ser homenageado. Desconhecia a intenção, mas fico feliz pelo reconhecimento. Quanto ao Rancho, era uma homenagem esperada, porque não é todos os dias que uma instituição completa 50 anos no concelho e até no país. Lamento que devido à pandemia tivéssemos que suspender toda a actividade. Para além do nosso 29º Festival, que estava programado para o dia de aniversário do Rancho e integrado nas festas da Vila de S. Pedro de Rates, tínhamos imensas saídas agendadas desde o Minho ao Algarve, assim como as Malhadas na casa do lavrador e Museu do Linho. É uma tradição, como a desfolhada, onde toda a comunidade participa. Tínhamos pensado editar um livro com a recolha do nosso cancioneiro popular, do traje tradicional e da história e etnografia de Rates, que o Rancho representa. Esta edição serviria também para reforçar a nossa promoção a sócio Efectivo, na Federação do Folclore Português, onde estamos inscritos desde 2016, como sócios Aderente. Foi pensado um excelente programa para as comemorações do cinquentenário, mas infelizmente ficou anulado. Vamos promover um vídeo nas redes sociais com actividades do Rancho que fomos recolhendo”.

Em meio século de história foram muitas as actuações e deslocações de norte a sul do país mas também a França, Luxemburgo, Bélgica, Suíça, Alemanha, às ilhas da Córsega, Madeira e São Miguel, Terceira, Pico e Faial, nos Açores. Participamos em festivais internacionais. “Temos um Rancho com algum dinamismo. Participamos em vários festivais internacionais. Muitas vezes só dá para respeitar o compromisso e não há tempo para passear. Depois, os apoios não são os mesmos. Há alguns anos atrás a Câmara cedia o transporte mas agora não, mesmo o apoio é menor. Antigamente saíamos de manhã, levávamos o almoço e dava sempre para dar um passeio. O festival era ao fim da tarde, jantávamos e regressávamos”.

E acrescenta: “Aqui ninguém ganha nada, a não ser amizade e bons princípios. O mais velho componente é o cantador Armando Baptista, com 78 anos, e a mais nova, a Matilde Ferreira, que veio para o Rancho ao colo da mãe e do pai, que se conheceram no Rancho, namoraram e casaram. Tem um filho mais velho, com 9 anos, que também dança. São laços que ficam e se criam no Rancho, que além de representar a etnografia da nossa terra é uma escola para a vida”.

Como há sempre sonhos que alimentam a existência de uma instituição, José Matias revela que: “Gostava de ver uma rua com o nome do Rancho de São Pedro de Rates. Outro desejo era que tivéssemos um espaço próprio para fazer uns convívios e realizar receitas para podermos sobreviver doutra forma e fazer face às despesas, que são muito grandes. Os trajes e os instrumentos são bastante caros. Por último gostava que o cinquentenário do Rancho fosse lembrado pela população de S. Pedro de Rates como um ano marcante, mesmo em tempo de pandemia”.

Para José Matias nunca é de mais agradecer às pessoas que ajudaram a fazer o percurso do Rancho Folclórico: “Quero dar uma palavra de agradecimento a todos os elementos que passaram pelo rancho e pela direcção, em especial à memória de Maria Moreira, fundadora e primeira presidente. Quero também agradecer a quem me acompanha na direcção, porque não conseguiria fazer nada sem a sua ajuda e lealdade. Não sei quanto tempo mais vou estar, mas gostava que aparecesse alguém para o meu lugar. Como não foi possível abraçar as comemorações com um pé de dança, porque isso envolveria o ajuntamento de pessoas e não é aconselhável neste momento, a Junta de Freguesia, com quem temos um excelente relacionamento, e Rancho Folclórico, vão realizar uma exposição, que será inaugurada a 18 de Julho, no dia de aniversário, sobre a história e actividade do Rancho. A exposição pode ser visitada até final de Setembro”.


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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