Voz da Póvoa
 
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A Voz de Navais

A Voz de Navais

Freguesias | 1956 | 8 Julho 2020

A modernidade trouxe aos lugares de Agra de Bouças, Burgada, Cabreira, Crasto, Espadelos, Espinhal, Outeiro, Prelades, Navais e Sonhim, nomes de rua. De um tempo imemorial ficaram os vestígios do Outeiro do Castro, residência dos primeiros falantes. No século IX, o lugar já tinha nome: De Nabales e aparece em documento no Censual bracarense do século XI. As Inquirições de 1220 e 1258 mencionam como " Sancti Salvatoris de Nabaes". Passaram cinco séculos até que o Navais de hoje convivesse ainda, na grafia, com Nabais de ontem. Até 1836 integrou o concelho de Barcelos e a partir dessa data passou para o da Póvoa de Varzim.

A actual Vila de Aguçadoura, até 1933, era território de Navais. Em 2013 a Troika trocou as voltas e, no âmbito de uma reforma administrativa nacional, perde a sua autonomia e é agregada à freguesia de Aguçadoura, com a designação de União das Freguesias de Aguçadoura e Navais.

A Voz do ‘Presidente’ em Navais

Fernando Eusébio Ferreira Rosa nasceu em Aguçadoura há 58 anos e é o actual presidente da União de Freguesias de Aguçadoura e Navais. “Quando há compromissos temos que ser leais. O acordo que fizemos desde o início, na União de Freguesias, que embora tenha uma administração única, foi para que o representante de Navais, o amigo José Alberto e Vice-presidente, assumisse os assuntos da sua freguesia e eu trataria de Aguçadoura. Alias, na altura da formação de listas os membros da União eram praticamente metade de cada freguesia. Temos conseguido levar esta sã convivência a bom termo, embora muita gente tenha vaticinado conflitos”.

Com esta salutar convivência foi dizendo que foram pensados uma série de projectos para Navais. “Gostaríamos de vê-los avançar com mais celeridade e tem falhado. Percebo que este ano é atípico, devido a esta pandemia que veio mexer com as vidas de toda a gente e travar de certa forma algumas obras. Ainda posso candidatar-me a um terceiro mandato, mas não estou muito motivado. Por isso, gostava de deixar uma obra mais visível”, concluiu Fernando Rosa.

Os verdadeiros homens são feitos da cepa da terra e a sua política é o respeito pelo lugar do outro. Estava dado o mote para que José Alberto Salgado da Silva, nascido em 1978 e criado em Navais, formado em Contabilidade e Administração, nos contasse um pouco desta partilha governativa: “Houve a União das Freguesias e a necessidade de preparar uma lista para concorrer e juntaram-se pessoas das duas freguesias, Aguçadoura e Navais. Apesar de estar já no segundo mandato ainda continua grosso modo o mesmo grupo que iniciou há sete anos atrás. Quando falamos de Aguçadoura e Navais acabamos por facilmente perceber que estão interligadas por casamentos e trabalho agrícola. Essa situação beneficiou a União de Freguesias, porque já havia muitos laços familiares. De qualquer forma há pessoas que gostariam que as freguesias assumissem novamente a sua administração. Até porque em termos de orçamento acaba por ser uma soma aritmética do valor que recebia Aguçadoura e Navais. Por isso, não há uma vantagem que justifique esta União”.

A Viagem Pelos Investimentos na Freguesia

Num olhar atento pelos anos de mantado o Vice-presidente assume que um conjunto de obras foram concretizadas: “No primeiro mandato, praticamente concretizamos as obras a que nos propusemos. Recuperamos o campo de futebol de Navais, um arruamento que beneficia tanto Aguçadora como Navais e criamos um conjunto de outras infraestruturas que acabaram por ajudar as duas comunidades. Para este segundo mandato temos projectos em carteira mas a questão é leva-los a cabo e concretizá-los. Naturalmente, a pandemia que vivemos coloca um travão em muito daquilo que estava em mente. Temos o projecto do alargamento do cemitério, que deverá acontecer ocupando o terreno onde está o posto médico que no caso terá que ser deslocado para outro terreno. Temos o Campo De Futebol, onde devemos iniciar a construção de um muro num terreno que adquirimos, um espaço verde que servirá de complemento ao campo de futebol. É um conjunto de obras que tem algum peso e o assumido apoio do município, mas que não conseguimos realizar até agora”.

E José Alberto acrescenta um numero de obras menores mas de extrema importância: “Temos vindo a fazer alargamento de ruas e um conjunto de pequenas intervenções com a mudança da tradicional calçada portuguesa para paralelo. São obras de pequena monta, feitas pelos nossos funcionários, mas importantes para a circulação de pessoas e viaturas. A União de Freguesias no seu conjunto tem mais de sete mil pessoas. Entre a área administrativa, limpeza e manutenção, temos sete funcionários, um número muito pequeno para as nossas necessidades”.

Não se pode acudir a tudo, mas o Vice-presidente da União de Freguesias não esquece a obra de cobertura do recreio da escola do Outeiro, agora sede do Rancho e do Centro Desportivo: “São obras que vamos tentar cumprir dentro deste mandato. A primeira questão é que as duas associações estavam no antigo salão paroquial onde os telhados já deixavam a água passar e havia infiltrações. A escola estava desactivada e fruto de uma conversa com a Câmara Municipal achou-se por bem servir aquelas duas associações. Agora falta fazer o complemento, que é criar um espaço coberto para que possa ser utilizado pela comunidade e de certa forma gerido pelo Rancho dos Camponeses de Navais. Existe o compromisso do município e vamos continuar a acreditar que a obra vai ser feita”.

José Alberto reconhece o dinamismo das associações de Navais: “Quer o Rancho Folclórico, quer o Centro Desportivo e Cultural, são muito dinâmicos. Apoiamos e reconhecemos que são muito importantes porque mantém a nossa comunidade activa e com visibilidade no exterior. O Folclore numa vertente mais cultural e etnográfica e o Centro Desportivo que para além do futebol contempla outras modalidades e ainda mantém uma secção cultural, uma biblioteca na Junta de freguesia. Acrescento com orgulho que somos a freguesia mais pequena do município da Póvoa de Varzim e o Rancho dos Camponeses de Navais, não teve medo de se meter ao caminho e organizar um trabalho no sentido de federar uma tradição. Hoje é uma referência a nível nacional. É uma mostra do que são os cantares e as danças da nossa comunidade”.

Fixar Pessoas em Navais Passou a Ser uma Necessidade

Nas últimas três décadas a freguesia de Navais tem vido a perder residentes e José Alberto explica razões e aponta algumas soluções para inverter a tendência: “É uma realidade muito evidente. É importante inverter a tendência e fixar pessoas. Ao nível do ensino temos o pré-primário e o primário, o mesmo acontece em Aguçadoura. No segundo e terceiro ciclo as crianças têm aulas em Aver-o-Mar e o secundário na Póvoa de Varzim. Depois, quer o Centro Social e Paroquial de Navais quer o de Aguçadora têm também a valência de Creche e Jardim de Infância. Estas instituições são muito importantes porque desempenham um papel social nas comunidades. O Centro Social de Navais pretende erguer a valência de lar, uma infraestrutura importante para servir a população de uma freguesia envelhecida. São importantes porque têm a proximidade a seu favor e sabemos que as pessoas têm relutância em sair das suas terras, da sua freguesia. Depois, é importante ter um lar residencial para as pessoas que não têm essa retaguarda, mas o Cento de Dia ou o Apoio Domiciliário também é uma necessidade para servir alguns idosos que tendo condições, permite-lhes manterem-se nas suas casas, com o devido acompanhamento. Sabemos que o Centro Social tem um projecto ambicioso que pretende levá-lo avante. Depois, estas instituições são sempre bem-vindas porque garantem emprego e fixação de pessoas”.

E acrescenta outras necessidades: “Em termos de área construtiva, metade dela não é utilizada e isso cria-nos enormes dificuldades. São áreas de terreno extremamente extensas que estão na posse de quem não tem necessidade de construir e não pretendem colocar os terrenos à venda. Há muitas pessoas em Navais que querem construir casas, tem terreno para o fazer, mas tem que ir para fora da freguesia porque o PDM não o permite. Esta questão do PDM é de extrema importância. Temos no nosso PDM uma área de interesse económico, que acho que tem que expandir. Estamos na área agrícola e temos que ter espaços disponíveis para armazéns. É importante permitir o aumento desta área de actividade económica para servir um número superior de pessoas. Como é óbvio, há um conjunto de actividades que acabam por estar relacionadas. Quando falo da área agrícola, há uma área de serviços que são necessários para a agricultura e é necessário haver espaço e armazéns disponíveis para as pessoas se poderem localizar”.

Para José Alberto é preciso facilitar a fixação de pessoas: “Temos a necessidade de suprir esta lacuna e é algo que precisamos resolver. Precisávamos alargar o espaço disponível para a construção de habitação para os nossos conterrâneos construirem e poderem permanecer na sua terra. É claro que isto não passa só pela vontade da Junta e das nossas pessoas, tem que haver um envolvimento do Município e se calhar até em termos nacionais, das próprias instituições, para perceberem que esta nossa realidade precisa da ajuda de todos. Penso também que criar uma zona industrial trazia mais emprego e fixava pessoas. São pequenas grandes coisas”.

A História e o Dinamismo São uma Marca da Freguesia

Com a mudança de cadeiras na política nacional ao nível da governação voltou a equacionar-se o regresso das freguesias a um passado recente administrativo: “Em relação à ‘desunião’, todas as freguesias do município acabam por ter identidades próprias. A alteração foi imposta pela lei e pela Troika e pela imagem irreal do que eram as comunidades. Em termos de economia de escala, não se gerou um efeito imediato, nem trouxe benefícios para as freguesias, nem para o orçamento de Estado. Daí que a possibilidade de regressar cada freguesia à sua própria administração não se pode colocar de parte. Acho que é um caminho que pode voltar a ser trilhado. Isto pressupõe sempre alterações legislativas sobre o assunto. Neste momento quem está no poder foi contra a agregação de freguesias, se bem que foram eles que assinaram o acordo com a Troika, mas depois mostraram-se contra, mesmo os partidos que sustentam este governo. Penso que é uma realidade que pode ser retomada. Somos uma realidade com mais de mil pessoas e se por ventura for possível levar a cabo e se concretizar o regresso, assumiremos”.

E José Alberto aponta outras razões e erros cometidos: “A União de Freguesias foi feita a régua e a esquadro, não foi uma coisa pensada. A realidade das freguesias da Póvoa não é a mesma realidade das freguesias de Barcelos. Estamos a falar de municípios muito próximos e o princípio adotado foi o mesmo. Daí que eu ache que não foi o princípio correcto. A problemática gerada na altura em que esta medida foi para o terreno ainda não esmoreceu em muitas freguesias que protestaram a unificação por serem realidades completamente diferentes. Houve muitos erros e mal formações. Por isso, penso que se cada uma delas pudesse voltar a ter a sua identidade e independência, seria positivo. Sempre trabalhamos a pensar numa Junta que tinha duas freguesias à sua responsabilidade e demo-nos bem. Fomos pessoas, que no nosso dia-a-dia, procurávamos sempre o bom relacionamento e sempre fizemos as coisas funcionarem. Não é por essa razão que devemos mudar, mas, porque estamos a falar de realidades e culturas muito próprias, apesar de estar unidas, cada uma delas tem uma identidade e uma cultura marcadamente definida. Isso vê-se nas nossas associações locais. Não vejo qualquer problema e acho que deveria ser aberta a possibilidade de a freguesia de Navais voltar a ser autónoma”.

E para concluir, José Alberto reforça: “Apesar de Navais ser, no Município, a freguesia mais pequena, sempre teve, muito dinamismo em todas as áreas, seja na vertente económica, com uma agricultura muito vincada e produtiva. As pessoas desta faixa de Navais, Aguçadoura e Estela, no nosso principal sector de actividade trabalham de sol a sol e merecem tudo. Mesmo na dinâmica cultural, onde o Rancho Folclórico é uma referência nacional, mas também o Centro Desportivo, que tem as modalidades de ciclismo, atletismo e ténis de mesa federado, movimentam e dinamizam centenas de pessoas. Penso que a maioria dos jovens da freguesia passam ou passaram por estas associações, mesmo na questão religiosa envolve pessoas muito activas e dinâmicas. São motivos suficientes para nos orgulharmos da nossa terra”.


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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