Voz da Póvoa
 
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Os Ventos da Mudança Prometem Novas Conquistas

Os Ventos da Mudança Prometem Novas Conquistas

Desporto | 1961 | 9 Setembro 2020

Uma terra de mar e de pescadores, onde a poveira Lancha flutuou pelos séculos e foi o sustento da colmeia piscatória, viu nascer em 1904 o Clube Naval Povoense (CNP), a mais antiga agremiação desportiva, cultural e bairrista. A primeira intenção era promover regatas, natação e o remo, sem descorar, entre os associados, o seu desenvolvimento físico e intelectual. Daí a criação de uma biblioteca que, presentemente se encontra à guarda da Biblioteca Municipal. Actualmente, pratica as modalidades de Vela, Natação, Bodyboard, Polo Aquático, Pesca Desportiva do Alto Mar e actividades Subaquáticas. Entre outros galardões e títulos, o Clube Naval Povoense, fundado por António Santos Graça, foi agraciado com a Medalha de Ouro de Reconhecimento Poveiro e reconhecido como Instituição de Utilidade Pública e Desportiva.

“Como qualquer clube centenário passou por momentos conturbados. A meio do século passado esteve próximo de encerrar, porque não tinha qualquer actividade desportiva, apenas cultural e recreativa. Consta também que, em nome do desporto, serviu para que as pessoas pudessem reunir, numa sede própria e, de alguma forma organizarem-se no combate ao regime salazarista. Para evitar o fim do clube, foi constituída uma equipa de Ping-Pong para participar num campeonato. A modalidade não era ligada à náutica, mas o clube foi salvo. Outra vertente no clube foi ter vivido uma época de muitos naufrágios, tendo-se destacado a sua componente social, ou seja, fazia quermesses para ajudar as viúvas e órfãos dos náufragos. Por força da instituição credível que era, o CNP serviu muitas vezes de canal e repositório dos fundos de colecta para a estátua ao Cego do Maio ou Elísio da Nova, assim como à compra das medalhas do Cego do Maio para o Museu. A partir dos anos 60 e 70, passou a dedicar-se quase exclusivamente ao desporto”, relembra Paulo Manuel Braga Vieira Neves.

Nasceu no Porto, em 1961, como os pais eram professores e foram colocados na Póvoa de Varzim, tornou-se poveiro com apenas um ano de vida. Concluído o Propedêutico, ainda tentou a Faculdade de Economia e a Escola Naval, mas a disciplina de Trigonometria ditou a desistência e acabaria por entrar na Reserva Territorial. Como velejador no Clube Naval, foi atleta federado de Windsurf e chegou a ocupar o 7º lugar no Ranking Nacional. Tornou-se no mais jovem presidente do Clube Naval Povoense, cargo que ocupa nos últimos 20 anos. “É fácil gerir porque é uma matéria que domino e gosto de fazer, por isso, tenho esta dedicação ao Clube. Depois, tenho uma sorte enorme com as pessoas que me acompanharam e acompanham ao longo destes anos. Falo da direcção, dos atletas, toda a gente. Não basta o presidente querer se depois não houver uma grande equipa que colabore. Tenho essa sorte e o mérito de os conseguir motivar a fazer o caminho do clube. É um segredo que não tem segredos”, conclui.

O posto náutico é para Paulo Neves o maior e mais moderno do país: “Muito poucos clubes se podem gabar disso. Foi uma batalha difícil, que durou 13 anos. Estávamos num barraco, ao lado do Instituto de Socorros a Náufragos. Nas novas instalações, com condições e entusiasmo, conseguimos duplicar a força do clube. A Marina também foi um desafio enorme. Onde não existia nada, havia espaço para 240 embarcações. Foi um trabalho enorme de divulgação e captação de utentes. Seguiu-se o Polo Aquático, o Bodyboard, a Natação e as coisas foram acontecendo. Ainda recentemente fomos campeões Nacionais de Pesca Desportiva do Alto Mar. Vamos arrancar este mês de Setembro com formação e temos um Seccionista novo, de renome internacional que vem viver para a Póvoa e vai colaborar connosco nas actividades subaquáticas. Temos também o Desporto Escolar integrado na secção de vela. Somos no país o clube com maior actividade no Desporto Escolar e, temos também o projecto da Escola do Mar ligado ao Ministério da Educação. É também uma forma de cativar os miúdos para o ambiente náutico, a história náutica e tudo o que diz respeito ao mar”.

A evolução da aprendizagem no desporto náutico: “No meu tempo começava-se aos 7, 8 anos e obrigatoriamente, tínhamos que saber nadar, mas havia poucos praticantes porque havia o medo do mar. Hoje os pais deixam vir os seus filhos com 5 e 6 anos, porque sabem que temos equipamentos e meios de segurança que não existiam. Hoje, é impensável uma embarcação sair para um treino que não leve um barco de apoio. Os monitores têm que ser credenciados pelas respectivas federações. Temos cerca de 400 atletas federados e são todos amadores. As embarcações são pertença do clube e são competitivas. Temos também barcos de apoio. O que se danifica mais são as velas. Actualmente temos uma frota de embarcações suficiente, tanto para a iniciação como para a competição”.

A pandemia obrigou a uma paragem forçada de todas as actividades desportivas do clube, um tempo difícil para todos, assumiu Paulo Neves: “Foi muito complicado, mas conseguimos sobreviver. Economicamente, foi um susto, porque somos uma ‘empresa’ grande, com muitos funcionários, treinadores semiprofissionais que é preciso pagar, despesas como a água, seguros, segurança social. Felizmente, não foram muitos meses. Toda a gente entendeu o anormal da situação. Os treinos, coisa impensável, foram feitos via internet, cada um no seu espaço. O importante foi não perder o contacto entre os atletas e treinadores, por isso, fomos inventando. Na vela, fizemos regatas virtuais, treinos de manutenção em casa. A retoma deu-se primeiro na praia e, hoje já retomamos a natação e o Polo Aquático na piscina exterior da Varzim Lazer. Na pesca e na vela regressamos com regras. Só a Pesca Desportiva de Alto Mar voltou à competição onde acabamos por ser campeões Nacionais. Há uma certa ansiedade até que todas as modalidades voltem a competir”.

A Marina gerida pelo Clube Naval é uma porta aberta para o Mundo: “Ao longo destes 20 anos já tivemos milhares de pessoas do mundo náutico, da vela, os velejadores, aqui na Povoa vindos todo o Mundo. Temos barcos que vieram directos de Nova Iorque, de vários portos do Brasil, da Africa do Sul, do Japão com destino à Póvoa. Isto, para não falar dos nórdicos europeus, que na passagem para o mediterrâneo, normalmente o circuito é de Norte para o Sul, entram na nossa Marina. Arrisco-me a dizer que serão muito poucas as nacionalidades que através da estadia na Marina não conhecem a Póvoa. Agora até velejadores dos países de Leste nos visitam. Penso que podemos explorar mais ainda a sua estadia e creio que a nova Marina vai permitir essa possibilidade. Os velejadores vêm à Póvoa para descansar no Porto de Abrigo, tomar um banho, abastecer de água, víveres e combustível”.

E conclui: “Nós reclamamos sempre uma ligação mais forte ao turismo. A estadia era por um, dois dias, por isso, estamos a promover atractivos na cidade e zona envolvente, que os faça permanecer por mais dias. Promovemos as cidades vizinhas como o Porto, Guimarães ou Braga, para que os velejadores conheçam um pouco do Norte de Portugal e ao mesmo tempo, aumentamos a sua permanência na Marina. A Náutica de Recreio abastece-se nas mercearias e mercados, alugam carros, vão aos nossos restaurantes, usam o metro e utilizam o aeroporto. Por vezes, vêm familiares visitá-los ou acompanham-nos e depois ficam nos hotéis. Penso que a nova Marina vai ligar mais o velejador à cidade e, a Póvoa é já uma referência no Mundo Náutico”.

Por: José Peixoto

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