Voz da Póvoa
 
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Uma Clareira no Absoluto Vazio

Uma Clareira no Absoluto Vazio

Cultura | 1924 | 18 Setembro 2019

Há na obra de Gonçalo M. Tavares um imaginário sobrevivente do real, capaz da precisão ou da exactidão, palavras que partem do vazio. O poeta e romancista nasceu em 1970, na cidade de Luanda, em Angola. Tem a terra como lugar no mundo, mas vive muito mais entre os livros e a literatura. Os muitos prémios que recebeu confirmam a marcante viagem pelo universo das letras e do pensamento, sempre em interrogação. Os livros que escreveu, que foram traduzidos para 45 países, ganharam vidas no teatro, na ópera, em vídeos de arte ou transformaram-se em objectos artísticos.

Gonçalo M. Tavares não conhece o tempo perdido. Por isso, sempre que a disponibilidade permite, transforma em palavras o quotidiano. Foi o que fez nas Correntes d’Escritas, no passado mês de Fevereiro. E em resposta ao verso de Sophia de Mello Breyner Andresen, “tão nítido e preciso era o vazio”, vagueou entre o vazio e a precisão ou exactidão, palavras feitas de abertura.

“Em Itália há um santo, o único que não fez milagres, que era porteiro de uma escola. Foi feito santo porque diziam que ele abria as portas com alegria. Gosto da ideia e vou tentar abrir algumas portas com a alegria possível. Para mim o vazio é aquilo que permite nós vermos as coisas. Se todas as coisas estiverem umas por cima das outras nós não as conseguimos ver. É o vazio que dá visibilidade às coisas”.

Quanto à questão da precisão e da exactidão no verso de Sophia, acrescenta: “De alguma maneira, o que eu acho interessante na literatura é que nós podemos ser precisos e exactos através da metáfora. Isto é talvez das coisas mais extraordinárias. Como é que a literatura pode acertar no alvo andando por dois caminhos totalmente opostos. Se quisermos pensar em Camões, nos versos, o amor é fogo que arde sem se ver, é um contentamento descontente, que todos conhecemos, nós sentimos aqui também a exactidão e a precisão. O extraordinário é que ele está a dar uma definição de amor. De repente, falando do fogo e quando estamos a ler sentimos, é isto mesmo: o amor é um fogo que arde sem se ver, é um contentamento descontente. E a expressão do leitor quando diz, o amor é isto mesmo, é a expressão que reflete que o autor acertou no alvo. O autor foi exacto e preciso. Portanto, de alguma maneira, podemos ser precisos pelo rigor analítico ou pela metáfora”.

De volta ao vazio, Gonçalo M. Tavares explica que “o vazio é aquilo que habitamos. O vazio é aquilo que nos deixa viver e por isso ninguém poderá viver numa casa onde o vazio está preenchido. Eu diria, dando um pequeno passo, uma possível definição da amizade e do amor. A amizade é aquilo que nos deixa viver, aquilo que nos dá espaço vazio, que abre o espaço à nossa volta. A palavra clareira, que tem a mesma origem de clareza, mostra bem o que é clarificar e o quê que é clareza. Clareza é abrir uma clareira no meio da confusão, é abrir um espaço vazio. De alguma maneira quando falamos em abrir espaço para o outro é isto. É um trabalho de fazer uma clareira à volta do outro, para o outro poder existir”.

O vazio e a arte continuam a suscitar interrogações ou respostas: “Há inúmeros exemplos. O músico John Cage mostrou que o importante é o intervalo entre as notas, dó, ré, mi. Ou seja, o que é importante é o espaço vazio. Nas artes plásticas a questão da tela em branco também está muito clara. Para os surrealistas claramente a cegueira, o vazio, o branco, é aquilo que permite a imaginação. O Salvador Dali defendia a ideia de que devíamos ser todos cegos, devíamos vendar para poder imaginar, criar outras imagens. Portanto, é preciso cegar. A tela branca que todos nós conhecemos partiu daí”.

E acrescenta: “Diante do branco, dianto do vazio, eu posso criar as minhas imagens individuais e criativas. A ideia que muitas vezes passa da angústia diante da folha em branco, quer do escritor, quer do pintor, é uma ideia que eu gosto de contrapor com outra. A primeira grande tarefa de um criador não é preencher o vazio, pelo contrário, é esvaziar o cheio. Esvaziar, limpar, pôr de novo a tela em branco e aí, sim, começar a pintar, ou aí, sim, começar a escrever”.

Gonçalo M. Tavares conclui com o eterno retorno ou a recriação: “O vazio oco está lá dentro, o vazio oco do búnquer é o que salva, mas nós não conseguimos chegar a esse vazio que salva. Falo por mim e não sei se por alguém mais. Eu diria que muitas vezes a sensação que eu tenho enquanto estou vivo é que tenho qualquer coisa que me pode salvar, um búnquer que tem um vazio, um oco, que tem a minha dimensão e que me permite resistir a tudo. Mas, infelizmente, eu não sei onde é que está a porta”.

 

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