Voz da Póvoa
 
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Um Plano Para Descomplicar

Um Plano Para Descomplicar

Cultura | 1950 | 15 Abril 2020

Raquel Patriarca nasceu e isso a gente sabe. Vive no Porto entre brinquedos e muitos livros, mas viu a primeira luz em Benguela (Angola), em 1974, no ano em que o povo saía à rua de cravo na mão. É bibliotecária e coleccionadora de marcadores de livros. Como sonhava um dia ser poeta, sempre gostou de perceber a história das coisas. Por isso, perguntou e algumas respostas que não ouviu contar, escreveu em livro. Pelo meio doutorou-se com uma tese sobre ‘A história do livro infanto-juvenil em Portugal entre 1870 e 1940’. Apresentou o conto “A História de Uma História” no Correntes d’Escritas.
 
A Voz da Póvoa – Escreve para crianças para eternizar a menina dentro da escritora?

Raquel Patriarca – Não. Eu tenho a minha infância completamente resolvida. Sujei os ossinhos todos da minha infância. Fiz tudo o que tinha para fazer na altura certa. Depois dediquei-me com igual maluqueira à juventude. Agora estou, enfim, menos entusiasmada na idade adulta, porque não tem tanta graça. Aliás, estou desejosa de chegar a velhinha, porque penso que vai ter muito mais graça do que agora. Na realidade, todos temos um pouco de criança, mas não estou a chamar a criança que há em mim para escrever para crianças. Não é esse o meu móbil do crime. A verdade é que quando eu me distraio, as estórias que tenho para contar pedem esse registo.

AVP – As outras estórias que conta encontram-se na diferença dos caminhos?

RP – É um caminho determinado pelo conteúdo da estória e pela natureza das personagens. Um dia comecei a escrever uma estória e pensava que era um conto, mas afinal era um romance. Ao fim de seis meses, descobri que aquilo nunca mais acabava e não podia ser um conto. Os livros infantis nascem um bocadinho de uma comunicação com um mundo muito descomplicado que as crianças têm naturalmente e é esse o registo em que me sinto bem a escrever. Escrevo muito só para mim. Acho que todos nós escrevemos muito mais do que aquilo que publicamos. De vez em quando há coisas que saem em forma de poesia, porque elas próprias são tão interiores que se tornam naturalmente poéticas. Mas as crianças têm uma maneira muito límpida de ver o mundo, muito simples, muito descomplicada, muito intuitiva, menos racional. Talvez eu seja uma pessoa menos racional do que devia ser. Não sei…

AVP – Escrever para a pequenada não é sempre uma forma de chegar aos adultos?

RP – A questão é que os livros de adultos são para adultos e os livros para crianças são para toda a gente. Tem essa universalidade. É o objecto mais transgeracional que existe. A partir do momento que o adulto lê uma estória a uma criança a mensagem chega a todos e mais interessante ainda, chegam mensagens diferentes nas diferentes idades. As leituras são diferentes, os entendimentos são diferentes. Depois tem uma coisa maravilhosa que é a imagem, o desenvolvimento do sentido estético dos espaços, das cores. Um livro infantil é um universo maravilhoso por si só. Gosto de escrever para crianças, gosto da reacção delas quando estamos a contar uma estória, quando percebem que a estória vai num sentido e depois guina para outro qualquer. É um momento feliz.

AVP – A história de um livro acaba por ganhar nos leitores imensas estórias?

RP – É verdade que quanto mais narrativas o livro encerrar, mais rica é a obra. Por isso a ilustração é tão interessante, porque muitas vezes cria uma narrativa nova. Isso enriquece a perspectiva, dá múltiplos significados a todo o conceito e à estória. Mas esse papel é sobretudo do leitor. O escritor quando escreve está embrulhado na estória. Estou encerrada no sentido que vai ser interpretado pelos leitores. Isso é um trabalho do leitor, uma maravilha. Quando estamos em contacto directo com os leitores percebemos isso e trazemos depois essa riqueza para casa, para usar noutros dias e noutros livros.  

AVP – A meninada nas escolas continua a surpreender a escritora?

RP – Farto-me de aprender com a meninada. Tenho muito orgulho em traumatizar crianças desde muito pequeninas. O meu plano de domínio do mundo é viciá-las em livros antes delas saberem o que se passa, antes até de aprenderem inglês. E quando um dia acordarem e perceberem que não podem viver sem poesia, sem livros, já será tarde. É isso que pretendo. Dizer-lhes que, de facto, a literatura é magnífica, faz-nos sorrir mais e é impossível que não passem a gostar de uma dosezinha. É importante proporcionar-lhes esses momentos de prazer porque depois vão querer replicar mais vezes.

AVP – Também se pode ter um olhar infantil pelo Correntes d’Escritas?

RP – Isto é uma coisa muito estranha. Só consigo comparar ao ‘País das Maravilhas’, de Lewis Carroll, porque a gente mete-se numa toca e, depois, do outro lado as regras já não são bem as mesmas. Todo o mundo em emotividade, a aceleração de partículas mentais que se passa no Correntes, de encontrarmos amigos ou fazermos amigos novos, lermo-nos uns aos outros, o contacto com os leitores, vir uma pessoa que não conhecemos de lado nenhum e dizer que nos leu num texto que lhe tocou tanto. Isto só pode ser maravilhoso.

 


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