
É como no cinema, se esquecemos as imagens é a música que nos invade, mas acabamos a realizar mentalmente o nosso próprio filme. A narrativa é o espelho das sonoras mãos que o pianista fez voar pelo imaginário dos compositores:
José Viana da Mota: Cenas Portuguesas Op. 9 (Cantigas d’Amor; Chula, Valsa Caprichosa).
Ligeti: Música Ricercata.
Brad Mehldau: Three Pieces After Bach – Rondo.
Fernando Lopes Graça: Variações sobre um tema popular português.
O pianista Raúl da Costa chegou no dia da poesia como os pássaros, a inventar voos para quem lhes preenche o olhar. O jovem poveiro é Universal, devemos dizer depois de ouvir, de ver. Ensina-me a dançar esta valsa caprichosa, não sei se amante tem estes picos, estas falésias ou quedas de água em cascata. A preto e branco as teclas, os dedos a cores.
Como sobreviver ao transe, são muitas as imagens que correm numa tela imaginária em dez fragmentos, chamei-lhe a auto-estrada da hesitação premeditada.
Atravessou os campos e chegou com as botas enlameadas, as calças salpicadas, o rosto fechado e os olhos de Sol. Desceu as escadas a correr mas subiu na sua cabeça uma cidade “onde as pessoas se atropelam e o sorriso não existe, só os blocos de betão erguidos nas margens das ruas nos arrepiam os cabelos, mais a poluição sonora fustigando os ouvidos abafando a respiração”.
Descanso agora a cabeça na almofada invisível do coração, não sei se amor, se amor distante o comove, se a música volta em cada palavra sufocada, frase ou lembrança. O homem criou um instrumento para as suas extravagâncias emocionais ou para explicar melhor a sua mudez, nudez.
Precisa das mãos, da cabeça e dispensa os olhos ou o que vê imagina. O banco é sempre preto, quero-me de azul ao piano. É preciso sovar o músico, o piano sorri do castigo. Horas, tantas a moldar os sons, a fazê-los ouvir-se quando os dedos não estão lá, si, dó, ré, mi.
É pecado, blasfémia sentir-se compenetrado naquela visão de corpo nu. Não somos capazes de nascer de novo, só morrer, matar.
Chegarás lá se entenderes a pauta, mesmo sem saber ler. Às vezes, precisamos sair da sala, deixar lá o corpo. A música nasceu sem caligrafia, sem professor. É extraordinário ver crescer uma certeza, um merecido e emocionante aplauso.
Por: José Peixoto