Voz da Póvoa
 
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Todo o Homem é um Pai

Todo o Homem é um Pai

Cultura | 1948 | 18 Março 2020

Pai, esse nome que agarramos pela mão, que nos ergue no colo e trepamos até ao pescoço, depois às cavalitas. Pai não é feito para um dia só e conhece todas as palavras colhidas no tempo, para que possamos também nós, filhos, plantar. Depois ser como ele, semear, oferecer um ombro amigo, ter uma força especial, os seus vícios, sim, os vícios de amar tanto que o beicinho ou a lágrima pela queda seca em compreensão. Tenho um dedo dorido pelo martelo que não conseguiu acertar no prego. Amanhã vou conseguir e ser elogiado por isso.

Pai, essa coisa feita de ternura e frieza pela nossa fraqueza. Só para que possamos entender o saudável que seremos num futuro pensar. Na praia nenhuma almofada melhor que o peito ou tua barriga. Eleva-me nos pés e atira-me pelo ar. Quero voar, Pai. Lembras-te? Aos dez anos enlacei uma gravata e meti-me dentro de um fato para a fotografia do BI. Entrei no Liceu, conheci outros mestres ensinadores e num repente cresci para o tamanho dos homens.

Pai, agora és avô e bisavô. Tantas coisas que foste capaz de construir com carinho, com amor. Se soubesse nunca te magoaria com a minha inquietude, de querer experimentar a loucura que conhecias bem. Tantas coisas que eu quis ser. Músico, poeta, escritor, pintor, actor e tu sempre a somar tolerância.
 
Pai, essa coisa capaz de afastar pesadelos, contar o menino que foste na minha idade, para me ensinar a ver melhor, sentir melhor, conhecer melhor, saber melhor. Era um tempo a preto e branco, mas apropriado para colorir um mundo menino.

Pai, esse nome capaz de nos morrer às vezes, na distância, com um propósito e nós ansiosos pelo regresso. Um dia não voltas e eu serei capaz de te procurar até à eternidade, porque em cada instante, em cada urgência, o teu amparo, o teu conselho foi sempre um coração aberto, sem fronteiras para o afecto.

Pai, os tempos estão a mudar. Na era da inteligência artificial dizem que ninguém sabia, que o silêncio é mais devastador que a palavra. Era suposto acreditar na voz da informação, sem o frágil peso da pergunta. Acreditar que nos preveniam em comportamentos cívicos, sábios e sem alarmismos. A ignorância não ofende, ofende quem a manipula com um propósito. Agora querem-nos vivos dentro de casa. O medo anda à solta. O Alexandre O’Neill diz que o medo vai ter tudo, fantasmas na ópera, sessões contínuas de espiritismo, milagres, cortejos, frases corajosas…

Mas sabes Pai, “Os Corvos têm frio. Imóveis, ensinam-me a conter as asas até que o céu se abra azul sobre todas as fronteiras”, li em ‘Fevereiros Doutrinários’. O tempo dos poetas nunca foi datado. Deve ser por isso que são pais tão eternos.

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