Voz da Póvoa
 
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São Pedro Transformou a Noite no Bairro da Póvoa

São Pedro Transformou a Noite no Bairro da Póvoa

Cultura | 1915 | 3 Julho 2019

Há noites assim, capazes de nunca acabar. O mar era de gente e as ruas rios de cor e muita animação. Ninguém tem um festival com uma arena do tamanho de uma cidade. Depois o fogo-de-artifício iluminou os barcos, que em tempos antigos se embandeiravam de cores e luz. Não há tarde na hora, o que pode haver é um dia a nascer com gente a horas tardias. Nem sempre com o melhor equilíbrio. A praia também serve de cama, não fosse o poveiro filho do mar. E se durante tantos anos nos aconchegamos aos habituais palcos da Matriz, Sul, Norte, Belém, Regufe e Mariadeira, onde ainda mora a tradição, hoje pela cidade, com uma concentração cada vez mais exagerada a norte, não faltam palcos de DJ’s e outras andanças. Dança Pedro dança que a tradição já não é o que era. Os aventais das tricanas ganham pedras ao ritmo das colunas de som e das torneiras de cerveja. A sardinha cada vez mais cheira a bifana e o assado a frito. Também ouvimos dizer que a ideia da segunda noite parece boa, mas soa a tradição fora da data e até da festa. Diria que vale sempre a pena porque a alma poveira nunca foi pequena. Para que a rusga não fique condenada ao bairro onde nasceu é preciso saber as origens populares da festa do pescador. Há uma entrega enorme das pessoas que fazem parte das associações de bairro. Esmeram-se para que a sua marcha seja a melhor. O povo sai à rua para as ouvir e ver passar, mas são muito poucos aqueles que baixam o som das colunas ou desligam em respeito pela tradição. Pelo meio barraram-se os bairros Norte e Sul, com a mesma atitude ninguém ficou a ganhar, nem importa quem barrou primeiro. Sabemos que a maioria do povo dos bairros e os presidentes têm opinião diferente das claques, mas é preciso assegurar as visitas e exibições dos outros bairros nos seus palcos, para que não sejam cúmplices da morte de uma tradição. Os bairros empenharam-se na decoração das suas principais ruas, que se encheram de luz, para as gentes de fora, um espanto nunca visto. Mas para o poveiro, aquele que conhece a raiz da árvore, elogie-se a iluminação da autarquia, que afina pelo diapasão da tradição de um povo, dando destaque aos símbolos dos bairros e aos apetrechos do mar. A festa valeu pela multidão que arrasta, pelo negócio que faz, pela sardinha que ainda assa, pelas famílias que reúne, pelo convívio que mantém, mas começa a ser preciso uns retoques aqui e ali, para que as rusgas continuem a ser a alma da festa. É que, entre o silêncio, há muita gente com vontade de falar.

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