
Foi assim em Cascia, a pequena cidade montanhosa, na Úmbria - Itália, onde viveu e repousa Santa Rita, a santa das causas impossíveis, das dores profundas e das esperanças teimosas.
Num mundo que corre depressa demais, ali o tempo abranda.
A basílica ergue-se em travertino claro, luminosa mesmo nos dias nublados. Mas é no interior que a atmosfera muda. O silêncio não é ausência de som: é presença. Uma presença densa, suave, quase táctil. Para quem entra, há um convite imediato à introspecção.
No coração do santuário, o corpo de Santa Rita repousa numa urna de vidro. Não há dramatismo, nem teatralidade. Muitos visitantes chegam com pedidos, outros com agradecimentos, outros ainda com feridas mais ou menos profundas …
A experiência é sensível, íntima, inesperadamente bonita. Não se trata apenas de religião, mas de humanidade. De reconhecer que cada pessoa carrega a sua própria luta – e que, por um instante, naquele lugar, ninguém está sozinho.
Durante a visita, um padre franciscano apresentou a biografia de Rita, sublinhando o casamento conturbado, a reconciliação familiar, a dificuldade em ter filhos e a maternidade tardia que moldou o seu percurso espiritual.
Ao lado da basílica, o Mosteiro de Santa Rita mantém-se como núcleo histórico e espiritual. Além das intervenções francesas, o local guarda um testemunho singular da devoção portuguesa: o brasão de Portugal esculpido sobre a porta do mosteiro, lembrando o apoio de D. João V, rei de Portugal, que contribuiu para obras no século XVIII. Segundo a tradição local, o monarca teria atribuído a Santa Rita a cura de um tumor no olho, gesto que motivou o seu apoio ao convento, após ter sabido que este tinha sido afectado (e não tinha meios de reconstrução) por um tremor de terra.
No claustro, destaca-se ainda a célebre videira plantada pela própria Santa Rita, que continua a florescer há séculos, mesmo em condições adversas, e é hoje um dos símbolos mais fortes de perseverança associados à santa.
O itinerário incluiu também as duas casas associadas à vida da santa: a residência conjugal, que testemunha anos de tensão e perdão, e a casa onde viveu sozinha após enviuvar, símbolo da sua passagem para uma vida de oração e serviço. Preservadas com sobriedade, ambas permitem compreender a dimensão humana e extremamente simples da santa antes da canonização.
Cascia é conhecida pela santa, ela mantém o charme discreto das aldeias da Úmbria: ruas estreitas, pedra antiga, montanhas que abraçam o horizonte. Mas é o santuário que marca. Quem sai leva algo consigo – um silêncio novo, uma leveza, ou talvez apenas a sensação de que há forças que não se explicam, mas se sentem… E talvez seja essa a beleza maior da visita: perceber que, mesmo nas histórias mais duras, existe sempre um fio de luz.
A visita, breve mas sensível, ganhou também um significado pessoal: uma homenagem à minha tia-avó, que me chamava carinhosamente “Ritinha”. Entre o mosteiro, as casas antigas e o silêncio da basílica, a memória dela encontrou ali um espaço de ternura e continuidade.
Por: Mónica Fins