Não pertence à geração que tinha um emprego para a vida. Odeia viagens no tempo e o humor físico. Inês Bernardo nasceu em Ílhavo, em 1983. O seu primeiro romance “Agarrar a Faca pelo Gume” foi lançado na 27ª edição do Correntes d’Escritas. Sobre o tema da mesa “Saber onde estamos e para onde vamos continua a ser essencial” retirado de um livro “A Vida na Selva” de Laborinho lúcio, fez a seguinte dissertação:
“Este é um momento muito, muito especial para mim, porque há mais de 15 anos que eu venho às Correntes d’Escritas. Umas vezes a desempenhar funções profissionais e outras como espectadora. E quando eu me sentava aí desse lado, havia dentro de mim a secreta esperança de um dia estar deste lado, no palco. E não posso deixar de sentir o peso da responsabilidade e da confiança que a Manuela e a equipa das Correntes tiveram em mim para me pôr numa mesa e logo nesta.
Quando me lançaram o mote, e toda a gente sabe que os temas das mesas, das Correntes, são sempre motivo de perplexidade com os escritores e o público, muitas vezes a coçar a cabeça para tentar deslindar que significado tem. Mas, quando me lançaram o mote, senti que tinha nas mãos a taluda vencedora. Afinal de contas, saber onde estamos e para onde vamos é algo que norteia a minha vida profissional e agora de escrita. Mas, comecemos um pouco atrás.
Porque para sabermos onde estamos, é fundamental sabermos de onde vimos. Eu sou filha dos anos 80 e de uma forte consciência da importância de Abril nas nossas vidas. A culpa é dos meus pais, que vivendo num subúrbio sem apoio familiar, me arrastaram para manifestações, reuniões sindicais e segundos empregos.
Os verões de três meses foram passados na terra. Eu sou daquelas pessoas que têm a sorte de ter uma terra e que regressa a ela. Faço parte de uma geração que está ainda entre a ruralidade e a urbanidade. Entre memórias dos pés que acabam o dia a encardir os alguidares de água na aldeia e as carreiras de autocarro que abriam caminho para a grande cidade onde as oportunidades aconteciam.
Sou também filha de um país que deu saltos formidáveis ao sair de uma ditadura e que correu sempre na cauda de um continente. Aquela a quem ensinaram que a educação seria uma enxada e que era importante tirar um curso que tivesse um emprego no seu final, quando muitas vezes não houve depois essa terra para lavrar. Mas, acima de tudo sou uma mulher, filha de gerações e gerações de mulheres duras, porque a vida as fazia assim, porque tinham de ser assim, para sobreviver, porque elas não viviam, elas sobreviviam grande parte das vezes. Mulheres que viviam com as ausências dos homens, que estavam longe a pescar, a fazer pontes, a fazer a guerra, ou fugidos ao regime. Mulheres que tinham de assumir vários papéis, os de mãe, de pai, de provedor, disciplinador, de contabilista e gestor, sem possibilidade de se exprimirem e de terem agência. Falo agora no singular, mas poderia falar no plural, tenho a certeza. Poderia ainda dizer que somos as filhas das mães que só receberam nomes ao terceiro ano, e não conforme as escrituras, apesar dos nomes bíblicos, porque as crianças não medravam. Que nasceram porque eram precisos mais braços para ajudar, feitas quando os homens estavam em casa e nascidas na ausência deles.
Criadas com a sombra do pai à cabeceira da mesa, comendo as badanas do bacalhau, porque o lombo só existia quando ele estava, e era para ele. Assombradas com o sermão do padre em latim, as palavras sem sentido, trovejando a partir do púlpito. Somos as filhas que comeram da mesma malga, posta no centro da mesa, uma colher em cada mão. Filhas deste país, cheio de mulheres vestidas de negro, onde nem os botões podiam ter cor, se o luto fosse algo sério. Comendo o santo de casca de laranja e assaltando os quintais vizinhos para matar a fome. Somos filhas de quem costurou bolsos falsos para o tráfico na fronteira e de quem atravessou rios sem saber nadar, com os filhos erguidos acima da cabeça.
E agora onde estamos? Somos as mulheres que tiveram permissão para explorar quem somos e do que gostamos. Que levantam a cabeça e olham à volta, percebendo como estas são histórias comuns. Histórias com um h minúsculo, que não se inscrevem nos livros da outra história, aquela com maiúscula, nem se ensinam nas escolas, mas que constroem o nosso discípulo social do dia-a-dia.
É preciso saber onde estamos e para onde vamos. O Álvaro Laborinho Lúcio sabia a importância de sentir esse chão debaixo dos pés e a importância de as mulheres, de uma, de todas, erguerem as suas vozes para reclamar o seu lugar. Mas não é só importante falarmos sobre nós.
É essencial resgatar estas memórias que servem como cartografia do passado para o futuro. Um fio de Ariadne para nos guiar no meio do labirinto do quotidiano torrencial que insiste em nos apagar. Entre as contas que chegam e a necessidade de estabelecermos uma vida minimamente segura, e a casa e as crianças que exigem atenção e, vá, a alguma educação para que também elas se possam atirar à vida.
Esta intervenção acabou por não se aproximar de nenhuma resposta. Tenho antes para oferecer estes pensamentos que reunia em filas para o supermercado durante os dias que se cortam às fatias – 500 gramas de atenção para o trabalho, 300 gramas para a casa, 150 para a criança. E no final, freguesa, ainda sobra um pouco para falarmos do que nos apoquenta”.