
A poesia não afronta, confronta. A poesia não responde a provocações, provoca. Haveria muitas razões para que um poema sobrevivesse ao tempo e a todas as ilusões. A Natália dizia que a poesia é para comer. Já para Manuel António Pina “os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis", como “observadores de pássaros” isto “enquanto os pássaros não acabarem”. Mas, eles, os poetas continuam a existir nos poemas, mesmo quando se vão embora sem avisar. Pelo menos sabemos que enquanto por cá andam estão sempre inquietos, a tentar dar outro significado à vida das palavras.
Francisco José Azevedo Gonçalves é o seu nome de baptismo, mas o poeta que já viveu outros nomes foi à mãe buscar o Nóbrega e assina Francisco Nóbrega Gonçalves no seu novo livro ‘Voo Submerso’ que se divide em três capítulos: “O primeiro é ‘Antes do Tempo’, fala da formação do mundo, do Big Bang. O segundo é ‘Ainda há Tempo’, e o terceiro é ‘Antes e Depois’. Quando se desce à Terra, fala-se imediatamente do mar, da formação do mar. Também faço uma alusão ao Charles Darwin. Soava-lhe no peito a origem das espécies. Prossegue depois com outras considerações. Nomeadamente, já estando no planeta, fala-se do Salvamento Intemporal, que é um texto muito didático, dedicado não só aos professores e alunos, mas a quem tem necessidade de aprender, que somos todos nós”.
E acrescenta: “Dentro dessa perspectiva, fala-se de uma menina, as voltas que dá a sua infância e uma avó, os brincos da cereja, aquela fantasia, as lembranças, as memórias. Cada um dos capítulos termina com um soneto. Há também uma alusão aos descobrimentos, ao mar, à vivência, à Noite Inquieta, que é um texto poético. Apesar de ser um livro pequeno, creio que tem alguma densidade poética”.
Antes de se libertar do trabalho profissional adivinha-se perto um caderno de apontamentos onde nascia, pelo menos, um projecto de poema? “Pelo menos fragmentos do poema. Neste livro não, mas no livro anterior ‘Geografia das Sensações’ ou na ‘Viagem em Quarto Duplo’, sim. No intervalo de um café, numa conversa ou a ouvir a rua, as pessoas, a paisagem. Recordo uma passagem em Vila Verde, onde o sinuoso da estrada obriga a conduzir mais devagar. Essa imagem que eu deixei ficar no ‘Geografia de Sensações’ é sobre pessoas que estão a trabalhar no campo, a sachar o milho, e como vamos devagar, elas olham e parece que no olhar transportam um querer vir connosco, sem saber o compromisso que nos une a nível da vivência”.
Num certo distanciamento editorial, publicou seis livros. Nunca houve pressa ou os poemas precisam de maturação? “Também. Mas, tenho escrito outras coisas que continuam na gaveta a aguardar o seu tempo. Há um livro de contos Infanto-juvenil ‘O Balde Perdido’, um outro que se chama ‘Frente e Verso’ onde se revelam pensamentos, quadras e sonetos, falta apenas organizar o livro. Há também um livro de contos adultos, uma coisa mais madura com cerca de 120 páginas. Naturalmente, a prioridade é dar viagem e leitura ao ‘Voo Submerso’. Foi apresentado no Pinguim, mas haverá outros lugares e datas”.
Se o ‘Balde Perdido’ continua à espera, podemos encontrar um quadro com o mesmo título. Como é que o poeta abriu uma janela para a pintura? “Eu fazia uns quadrinhos pequeninos, umas coisas que eram mais para gáudio pessoal. E num aniversário, a minha filha e o meu filho souberam que na Filantrópica havia uma escola de formação em pintura e ofereceram-me como prenda de anos uma inscrição. Eu achei interessante e aprendi muito em dois anos com o mestre Abreu Pessegueiro. Hoje, passo horas absorvido pelo tempo e pelas ideias e isento das outras coisas, enquanto pinto”.
Tal como na poesia, onde buscaste o teu próprio caminho, a pintura também encontrou a sua corrente? “Embora, faça alguns trabalhos figurativos, é na área do abstracionismo onde me sinto, onde procuro inquietar o observador. Reconheço que sou mais poeta do que pintor que reaparece numa fase madura, o que não quer dizer que não haja encanto poético enquanto se pinta. Quando se dá conta de que passaram duas horas e estás à volta dos pincéis e da tela, ou seja, enquanto estiveres em debate não o terminas. E quando percebes que ali já não há mais nada a acrescentar ou vai perturbar o que já foi inserido, então é tempo de terminar. Eu sempre tive ascendência na palavra. Não quer dizer que as outras artes me passassem ao lado. Mas, a poesia é mais imanente, mais autêntica, brota com mais facilidade, e chega a ser espontânea. Na pintura há inspiração, mas tenho muito mais trabalhinho”.
Se bem que, “à medida que vou avançando nos livros, a minha literatura vai-se simplificando cada vez mais. Nessa perspectiva acaba por se ter uma outra dimensão em relação ao que se quer incluir. Essas opções que a gente às vezes toma têm muito a ver com o que nos vai por dentro, com o que se pensa, com o que se sente e com a análise do nosso próprio crescimento”.
É capaz de pensar o livro e escrever ou são poemas que nasceram livres e escolhidos depois para um determinado título? “No meu caso pode ter as duas vertentes. Num caso concreto pensei o livro e fui construindo-o. No livro que acabo de lançar ‘Voo Submerso’, os poemas ofereceram-se à escrita com inquietação revelada pelas ideias. Nesse acto de criar surge uma manta gigante de poemas que dão origem ao livro. Foi a partir daí que construí mais alguns poemas e recolhi outros guardados e amadurecidos na gaveta”.
Falámos da escrita e da pintura, mas há também o lado do actor, do dizedor de palavras: “Agora tenho tempo para mim. Ao libertar-me do trabalho profissional, faço o que me dá na real gana. Já não tenho pejo absolutamente nenhum em dizer não. Não quero isso, não me interessa. Há convites que tenho e que acedo, e há outros convites que não acedo. Na verdade, em função do nosso crescimento começamos a ser mais selectivos, ou seja, não há tempo a perder, seja a ver, a ler, a escutar. É de qualidade que se trata, de um certo alimento existencial”.
Por: José Peixoto