Voz da Póvoa
 
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Quando o Cinema Amarou nas Ilhas

Quando o Cinema Amarou nas Ilhas

Cultura | 1959 | 12 Agosto 2020

Na Ilha de São Miguel o aparecimento das salas de cinema é contemporâneo do advento do fenómeno da sétima arte em França e no resto do mundo. Logo depois da consolidação das primeiras máquinas de projecção ou o visionamento conjunto em sala junto da tela grande, este difundiu-se pelos continentes e ilhas, aflorando assim a paixão pelas imagens em movimento. Ainda hoje, o Coliseu Micaelense é um representante centenário da monumentalidade da época em que foi erigido, contendo também um pólo museológico, permitindo o acesso ao seu acervo histórico que data de 1912, data da sua edificação. Ainda que seja rara a projecção de filmes nos tempos modernos, mantém-se enquanto a maior sala de espetáculos do arquipélago açoriano. Outro espaço singular é o Teatro Micaelense, originário de um antigo cineteatro, reemergiu para apresentações públicas de cinema em 1951. Nesta sala foram vistos centenas de filmes americanos, italianos, franceses, portugueses, com direito a apresentações simultâneas à do território continental, tendo recebido a ilustre visita do personagem célebre de filmes de western, John Wayne, em Junho de 1963. Outra sala de real importância é a sala do Cine Teatro Lagoense, actual propriedade da autarquia, que se revelou na concretização do desiderato dum homem culto, Francisco D´Amaral Almeida, logo na abertura do século XX, republicano e verdadeiro apaixonado pelas artes, e que desde sempre partilhou com os seus conterrâneos a experiência das artes cénicas e visuais. Foi, assim, que durante muitos anos o cinema ocupou uma boa parte do lazer dos lagoenses, inclusive de experiências colectivas de cinema ao ar livre, essencialmente, durante o período estival.

Entretanto, o contacto com a produção de cinema em solo ilhéu, deu-se inicialmente em 1953, com o filme “Quando o Mar Galgou a Terra”, realizado por Henrique Campos, com argumento do poeta Armando Cortes Rodrigues. Era a tentativa de aproximação do cinema às classes populares, sobretudo com uma narrativa que punha em evidência as contradições dos senhores da terra com as gentes do mar, enaltecendo ainda a epopeia da caça à baleia. Durante alguns meses uma trupe de actores (Alves da Costa, Carlos Walenstein, Constantino de Carvalho, Fernando Curado Ribeiro, entre muitos outros) ocuparam a ilha com uma equipe de técnicos e material de cinema. Há tempos mais recentes, ainda no século passado, relembre-se o documentário “Lúcia e Conceição”, filmado em 1974 pela Cinequipa, um conjunto de realizadores (com Fernando Matos Silva à cabeça) saídos da revolução que procuravam evidenciar as condições de vida e de trabalho de crianças e adolescentes que se dedicavam à apanha do chá na freguesia da Maia. Este documentário atesta o apego primordial à terra, confirmando a distância e afastamento que, à altura, era mais do que evidente entre o continente e as ilhas no que toca à informação, conhecimento e aspirações comuns. Já no final dos idos anos 90, a dupla Joaquim Pinto e Nuno Leonel filmou o quotidiano e aventuras dos pescadores de “Rabo de Peixe”. A cópia deste filme foi recentemente restaurada para ser exibida novamente festival de Berlim, onde fez parte da selecção oficial. Outros objetos cinematográficos foram rodados em São Miguel e, demais ilhas, tal como a ficção de “Adeus Pai”, de Luís Filipe Rocha. Esta longa-metragem carrega o cenário das ilhas para uma história duma paternidade ausente, misturada pelo ensejo de reconciliação e aproximação feita a meio do atlântico. Este realizador retomaria o panorama das ilhas para a rodagem e narrativa de “Cinzento e Negro”, tendo sobretudo filmado nas Ilhas do triângulo: Pico e Faial.

 Assim, em São Miguel e, nas demais ilhas, os filmes entraram também em quarentena, tal como nos perguntamos – até quando? Não há filmes por estrear ou a ser vistos, tampouco ninguém consegue prever até quando irá durar esta pausa forçada. O Teatro Micaelense não tem cinema na sua programação prevista para os próximos meses, nem as salas do Parque Atlântico ensaiam a retoma. Por esse motivo, concentremo-nos nestas memórias do aparecimento da sétima arte nas ilhas, a exibição que já teve dias dourados no que toca ao cinema ao ar livre (as cidades da Lagoa e da Horta que o digam!) à semelhança das suas gentes e paisagens que já serviram de cenário para algumas obras relevantes do cinema português.

Texto Fernando Nunes, Fotografia: Carlos Olyveira


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