
No primeiro dia de Agosto, a Fundação Gramaxo de Oliveira, na sua sede em Matosinhos, promoveu mais uma iniciativa cultural, evocando os 110 anos da entrada de Portugal na Grande Guerra, após a declaração de guerra por parte da Alemanha. A história revela-nos que Portugal já estava em guerra desde 1914, com aquele país, no Sul de Angola e no Norte de Moçambique, num conflito não declarado, mas mortífero.
O tema da conferência, proferida pelo Professor Doutor António Ventura, catedrático emérito da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Académico de Número da Academia Portuguesa da História “Combater com Postais Ilustrados” elevou a curiosidade. De facto, postais ilustrados foram o mote da conferência, com a ajuda de um PowerPoint, onde se puderam ver exemplares alusivos ao conflito.
O postal ilustrado surge nos finais do século XIX, como resultado do desenvolvimento dos correios, enquanto estrutura de recepção e distribuição de correspondência, do progresso nos meios de transporte, que facilitavam a circulação postal, mas também em virtude de profundas transformações operadas nas sociedades europeia e norte-americana. Devido à maior alfabetização e à generalização da escrita e da leitura, os hábitos epistolares começaram a generalizar-se. Entre 1900 e 1914, o bilhete-postal ilustrado tornou-se um fenómeno de popularidade junto das camadas urbanas de alguns países europeus, em especial os mais desenvolvidos, mas também nos Estados Unidos e no Japão, convertendo-se no meio preferido de transmissão de mensagens de aristocratas e burgueses, alargando-se às classes médias e mesmo a alguns sectores das classes trabalhadoras.
O postal era barato, simples de utilizar, atraente, com as suas imagens coloridas. Os temas eram muito variados: românticos, topográficos, etnográficos, de felicitações, exibindo flores, frutos, pássaros, reproduções de obras de arte monumentos, barcos, animais, e ainda retratando personalidades históricas e figuras célebres. Havia postais ilustrados para todos os gostos, cuja época áurea se situa entre 1900 e 1920. A Grande Guerra aparece, assim, numa fase ainda florescente, mas já de declínio da idade de ouro do bilhete-postal ilustrado. Durante o conflito, todos os países beligerantes produziram em abundância bilhetes-postais ilustrados, utilizados como forma de comunicação, nomeadamente entre os militares e as suas famílias, mas também como um poderoso veículo de propaganda. Para além de inúmeros postais editados particularmente, outros havia de edição oficial, com porte gratuito, para uso exclusivo dos militares.
Os postais ilustrados foram uma realidade e um hábito cultivado pelos militares de todos aos países e de todos os lados do conflito. Também em Portugal, esses cartões coloridos enviados de França, de Angola e de Moçambique são, ainda hoje, uma memória viva da participação dos militares portugueses no conflito que, dada a magnitude até então desconhecida, foi classificado como Grande Guerra. Os postais de 1914 a 1918 constituem um universo extraordinário na quantidade, na qualidade e na diversidade de temas apresentados, apelando ao patriotismo, exibindo símbolos nacionais, evocando heróis e episódios históricos, motivando a população, num contexto de guerra total em que a mobilização pelo alistamento, pelo trabalho voluntário, pela compra de títulos de empréstimos de guerra era fundamental. Em todos os países, independentemente do seu alinhamento, as temáticas e as motivações eram as mesmas. Todos os beligerantes procuravam, paralelamente, expor o carácter desumano do adversário, a morte deliberada de civis, as manifestações de desumanidade.
O Presidente da Fundação Gramaxo de Oliveira, Dr. Afonso de Barros Queiroz, agradeceu ao conferencista o contributo e a sua grandeza de conhecimento exposto a todos os presentes que lotaram a sala. Refira-se, ainda, que o conferencista foi o comissário da exposição inaugurada a 23 de Março no Museu Militar de Lisboa, intitulada “Combater com cartolina, tinta e fios de seda. Postais Ilustrados da Grande Guerra” que estará patente até ao dia 26 de Agosto.
Como habitualmente, foi oferecido um Momento Musical e um Porto de Honra.
Fotos:André Gomes