Voz da Póvoa
 
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Os Últimos Copos São de Barro

Os Últimos Copos São de Barro

Cultura | 23 Outubro 2020

António Pedro de Bastos Vasconcelos Ribeiro da Silva nasceu em Maio de 1968, com apenas três quilos de poemas e alguns gramas de Pessoa. Mesmo que, desconfiado do mundo, foi bem recebido. Da escola, somou conhecimento e foi sociólogo, professor e jornalista, mas muito antes de ter uma profissão já era poeta. Depois de 15 livros a interrogar as distrações do mundo e o amor, escreveu “Os Últimos Copos”, apenas para que ficássemos na dúvida. A mulher é a musa do poeta e a banda chama-se “Sereias”. Faz sentido.

A Voz da Póvoa – Os últimos copos são afinal para saudar a Liberdade Cor de Homem?

António Pedro Ribeiro – Houve uma altura em que pensei mesmo que seriam os últimos copos, porque estive doente. O médico e o corpo diziam-me para parar de beber e fiz-lhes a vontade. Por isso, é que no livro tem poemas como, Bebida, Borracheira, Liberdade Cor de Homem e outros, precisamente para homenagear o néctar. “Pouco importa que me esqueçam, que não me voltem a publicar, que enlouqueça como Nietzsche. Eu estou a atingir a síntese. O pensamento eleva-se, alcança lugares inauditos.”

A.V.P. – Quando é que descobriu que afinal não eram os últimos copos?

A.P.R. – Quando recomecei a beber.

A.V.P. – Começam a aparecer poemas a questionar o divino. Porquê Jesus?

A.P.R. – São os tais poemas místicos que surgem. Ainda há dias uma amiga dizia que eu escrevia, ora influenciado por Deus, ora influenciado pelo Demónio, uma espécie de cântico que afina pelos dois. O meu jesus não é de religião, mas do caminho, da liberdade, da denúncia, do amor. É um jesus que liberta, mesmo que eu esteja em fogo. Não é aquele que nos querem vender. Este livro ainda tem a ver com o homem que está no café a escrever à mesa.

A.V.P. – Como sobreviveu o poeta ao isolamento que a pandemia obrigou?

A.P.R. – Essencialmente lendo e escrevendo. Mantive contacto com os amigos pelo telefone e um pouco por Facebook. Realmente, foram os livros e a caneta que me ajudaram muito, neste período de isolamento a que nos obrigaram. Agora, voltei a sair à rua, lentamente, como quem quer que a vida assim seja.

A.V.P. – Houve algum momento em que sentiu o poder, dito livre, a radicalizar?

A.P.R. – É uma doença terrível de facto, mas há uma tentativa de controlo, de manipulação. É próprio dos poderes, alarmar as pessoas, meter-lhes medo. Há muita mentira usada para nos manipular. E até deu para perceber que os mais poderosos, como os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Espanha, Itália demonstraram toda a sua fragilidade e nudez. Esventraram-se.

A.V.P. – Vejo nos poemas um alerta para não nos distrairmos da vida…

A.P.R. – Porque não vai ficar tudo bem e a gente sabe disso. Há sempre essa tentativa de controlo e manipulação constante por parte do sistema, mas as pessoas também se deixam levar, também têm culpa. De facto, tento sempre exaltar a liberdade e a revolta nos meus poemas. Penso que é fundamental que essas lutas antirracistas e antifascistas continuem a alertar para essa espécie de veneno contagiante.

A.V.P. – Não aprendemos nada com as revoluções nem com a democracia da velha Grécia?

A.P.R. – As revoluções de hoje são tecnológicas. A intenção é sermos dominados pelos computadores, pela tecnologia. Dominados pelos Smartphones, pela internet. Vivemos em função disso. Acho que o tempo nos condiciona, as horas, o tédio, o puro estar. Regredimos em muitas conquistas. Em muitos aspectos se calhar, estávamos melhor em Atenas do que estamos agora. 

A.V.P. – Os modernos telemóveis são hoje um meio de condicionar a liberdade?

A.P.R. – De facto, as redes sociais são manipuladores de fragilidades. A internet determina as pessoas, aprisiona-as, condiciona, droga as pessoas. Isso não quer dizer que não haja alguma liberdade lá dentro, mas aprisiona. Na verdade, penso que a liberdade está mais condicionada que nunca. Cada vez, há mais formas de condicionar a liberdade das pessoas, com e sem telemóvel. Cada vez somos mais um número.

A.V.P. – Mas afinal o propósito de todo este controlo é apenas poder?

A.P.R. – O poder e o dinheiro são formas autónomas de controlo. Às vezes de pura maldade. São sentimentos absolutos de dominação e de exploração pura das pessoas, de tomar conta de tudo, ser dono de tudo. O dinheiro quer ser Deus de tudo.

A.V.P. – Mas nesse caso não deixa de ser um Deus medricas…

A.P.R. – Tem medo do vírus, das alterações climáticas, dessas coisas. A natureza está a vingar-se. Está a responder às agressões de que é vitima e todos sofrem com isso. O vírus, as alterações climáticas são reacções da natureza à forma como esta tem sido violentada, por nós, mas sobretudo pelos poderes. Juntamente com esta grande crise económica, isto pode gerar um grande caos, uma espécie de apocalipse que pode levar ao tal reino ou à revolução. Acho que estamos num estado de coisas em que isto ou vai ou racha, ou revolução ou morte. Isto pode mesmo desaparecer.

A.V.P. – Com todos a levar por tabela como é que os poderes pensam em escapar?

A.P.R. – Só se emigrarem para Marte, mas ainda está um bocado complicado lá chegar.

A.V.P. – A poesia quando salta para o palco passa da inspiração à respiração?

A.P.R. – Os ensaios da banda Sereias, vivem sempre do improviso porque é a minha maneira de despertar as palavras dos poemas ou das letras e depois os músicos acabam por ser levados ao improviso, à criação de momentos únicos. Às vezes, fico surpreendido com o que me vejo capaz de fazer em palco.

A.V.P. – Há uma certa metamorfose a acontecer?

A.P.R. – Léo Ferré dizia que no palco já não era o mesmo. Penso que esse sentimento é válido, mas para quem nos vê e conhece. Na realidade, somos a mesma pessoa. Ou melhor, somos as pessoas do Pessoa. A prová-lo está o primeiro disco e um segundo que estamos a preparar com uma nova vocalista e um novo trompetista. A ideia é ter uma voz cantante, enquanto recito os meus poemas.

A.V.P. – O poeta está sempre à mesa do homem só?

A.P.R. – Tenho estado. Quando escrevo, estou sempre só. A escrita, raramente é um acto partilhado. Há os cadáveres esquisitos do Cesariny.

A.V.P. – Temos no poder cada vez mais cadáveres esquisitos?

A.P.R. – A política dá muita vontade de rir. Às vezes, apetece-me gozar, como fiz com a declaração de amor ao primeiro-ministro. Faço críticas sérias, mas apetece-me gozar com eles. São tão imbecis, tão paus de obra nenhuma.

A.V.P. – Com este passado há no presente algum futuro?

A.P.R. – Tudo está à venda. Tudo é compra e venda. Se pensarmos bem, está mesmo tudo à venda. O lado bom é que o futuro não existe.

 

Por: José Peixoto

 

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