Voz da Póvoa
 
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Os Dias Intimistas do Museu Municipal

Os Dias Intimistas do Museu Municipal

Cultura | 1951 | 28 Abril 2020

A casa onde se guardam as raízes da História e Etnografia local e que num tempo passado ficou conhecida como o Solar dos Carneiros, veste, desde 1937, a pele de Museu Municipal da Póvoa de Varzim, fundado por António dos Santos Graça. De guardador de exposições permanentes como a “Sala de Arqueologia”, que reúne o principal espólio concelhio, ou a “Sala do Mar”, que mostra os usos e tradições da colmeia piscatória poveira, hoje desenvolve um largo leque de temáticas que o tornam num espaço de surpresa e mutação. Desde 2004, o Museu estendeu os braços a dois importantes recursos patrimoniais do concelho, o Núcleo Interpretativo da Cividade de Terroso e o Núcleo Museológico da Igreja Românica de S. Pedro de Rates.

Sem aviso prévio um vírus trouxe uma pandemia e um Estado de Emergência que obrigou ao confinamento. Cumprindo normas e recomendações da Direcção-Geral da Saúde (DGS), grande parte dos edifícios públicos foram encerrados ao público, mas continuaram com vida dentro a fazer pelas nossas vidas.

Na distância de uma chamada telefónica conversamos com Deolinda Carneiro, directora do Museu Municipal, que nos traduziu os dias interiores mais algemados da sua memória: “O museu foi dos primeiros serviços a encerrar, por ordem de Luís Diamantino, vereador da Cultura. Estávamos com muita actividade. Tínhamos visitas guiadas e conferências programadas no Museu e na Lapa. Tivemos que parar também com a divulgação de algumas actividades, como um curso de joelharia, com o professor Gonçalo Vasconcelos, da Universidade Católica. Avisamos as pessoas convidadas e encerramos as visitas. Avisamos os polos para fecharem, quer o polo Interpretativo de Rates, quer na Cividade de Terroso, onde tivemos que ter particular cuidado, porque as pessoas começaram a parar mais na cividade por ser ao ar livre. Tivemos que nos adaptar às novas realidades. A autarquia foi também muito cuidadosa e fez chegar o gel de limpeza e desinfectante e as máscaras. Alguns equipamentos, como luvas, já tínhamos pelo uso e manejo habitual das peças em museu”.

Não houve a necessidade de fazer uma desinfestação dos espaços: “Nós no Museu temos uma vantagem. Muitas peças estão protegidas em vitrinas. Depois, sim, temos embarcações e outros objectos em espaço livre. Todos os anos temos que verificar as peças duas vezes, sobretudo no início da Primavera e no fim do Verão. Por isso, em Fevereiro e Março temos que verificar se há sinais de bicho da madeira ou infestações de traça, uma coisa normal que fazíamos às segundas-feiras, porque estávamos encerrados ao público e, agora ficou facilitada por não haver visitantes. Entretanto tivemos um funcionário importante nesses trabalhos, o Roberto, que foi destacado para a Protecção Civil e tivemos outros colegas que trabalham em restauro que ficaram em casa para acompanhamento de filhos menores. Os estágios foram anulados e tínhamos um colaborador do MAPADI que também ficou em casa, mas mantemos contacto com toda a gente”.

Para o funcionamento do Museu Municipal, Deolinda Carneiro explica a solução encontrada: “Temos aqui espaço que nos permite manter um certo distanciamento. Ou seja os funcionários foram divididos por equipas de maneira que um ficasse no museu e o outro em teletrabalho. Os únicos que estão mais próximos, porque estamos sempre próximos, sou eu e arqueólogo José Flores, que temos o gabinete frente a frente. De resto toda a gente ficou em alternância. O nosso cuidado foi também que os polos ficassem com a consciência das limitações e cuidados a ter. Na Cividade estão duas pessoas a trabalhar em alternância”.

E acrescenta: “O teletrabalho também foi fácil gerir porque temos muitos documentos e fotografias digitalizadas, o que nos permite continuar a dar colaboração a investigadores, que continuam a contactar-nos e a pedir informação. Adaptamo-nos bem a esta nova realidade, creio. Além disso, estamos a aproveitar para fazer aquelas coisas que exigem mais concentração, mais empenho, limpar as peças com mais cuidado, um trabalho que pode ser feito por uma pessoa. Restaurar uma peça danificada que esperava pelo tempo, estamos a rever todas as nossas colecções. Vamos avançando com o trabalho possível e que do ponto de vista museológico é muito útil. Tentamos aproveitar os aspectos positivos da situação que vivemos. Ou seja, há trabalhos que estão a decorrer porque as pessoas têm mais tempo”.

Se por um lado anteciparam-se trabalhos outros ficaram para mais tarde: “O estudo da Igreja da Lapa que caminha para os 250 anos, a igreja de Beiriz também vai fazer 150 anos, o turismo religioso, o estudo da Camisola Poveira, a Póvoa Balnear, o traje popular do concelho, em particular porque o Rancho de S. Pedro de Rates também comemora 50 anos. Estamos a aproveitar para rever o material que temos e o que nos falta. Mas há coisas que vão ter que esperar melhores dias. Estamos numa época de confinamento. Adiantamos aquilo que podemos”.

Para Deolinda Carneiro, retomar o agendamento das exposições e conferências vai obedecer a muitas questões: “Quando houver uma abertura, com a orientação de Luís Diamantino, vamos ter que ver aquilo que é possível fazer. Está tudo sem data e sabemos que agora vai depender da agenda das pessoas convidadas. Todos estamos conscientes que vamos ter que retomar os projectos, mas obedecendo às circunstâncias. O dia Mundial dos Museus, a 18 de Maio, foi reagendado pelas entidades para Novembro. As pessoas já perceberam que mais vale adiar do que estar a tentar fazer uma coisa efémera. Quando as restrições começarem a ser libertadas vamos ter que analisar muito bem as actividades que se vão fazer e, quando se vão fazer e sempre em conjugação com outros serviços. Penso que a limitação de entradas vai ser uma das preocupações. No Museu e no pátio coberto temos um espaço bastante alargado”.

Na morada da embarcação Cego do Maio a vida não pára, aguarda apenas repetir os dias já vividos para lhes dar novo futuro. “Todos estamos conscientes da incerteza dos tempos que vivemos. Quando tudo começou as pessoas ainda pensavam que iria ser uma coisa passageira, mas recordo que nas primeiras reuniões, onde houve o cuidado de um certo distanciamento, o Luís Diamantino, talvez em sequência do alerta vivido no Correntes d’Escritas, disse logo que isto ia ser muito complicado. Estamos aqui a fazer um trabalho produtivo. Cabe-nos avançar com o estudo, com a pesquisa, o tratamento, a organização e arrumação da documentação. Temos consciência que o retomar vai ser lento e ser refeito com muito cuidado”, conclui Deolinda Carneiro.


 

 


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