Voz da Póvoa
 
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Os Dias Intimistas da Biblioteca Municipal

Os Dias Intimistas da Biblioteca Municipal

Cultura | 1950 | 15 Abril 2020

Passar e olhar as árvores no espelho da biblioteca, é também perceber a viagem do papel antes da escrita. Depois, com uma certa nostalgia, percebemos que ali se guardam todas as memórias em livro, alguns folheados por mil mãos desconhecidas, outros que ocuparam as paredes das casas de gente ilustre e se abrem à curiosidade ou ao estudo. As portas da casa da cultura, que recebeu o nome de Rocha Peixoto, estão fechadas, mas os livros, os documentos do Fundo Local, abrem-se em plataformas digitais, por solicitação dos estudiosos interessados.

Em tempos de confinamento, alguns edifícios públicos, cumprindo normas e recomendações da Direcção-Geral da Saúde (DGS), foram encerrados ao público, mas continuam com vida dentro, para nos servir em nossas casas.

Quisemos saber como bate o coração da Biblioteca Municipal e por quem bate. Por isso conversamos com Lurdes Adriano, uma das responsáveis: “Neste momento estamos a trabalhar em duas áreas distintas, realizando um trabalho interno e outro para o exterior. Internamente, temos avançado com o tratamento técnico da documentação, fundos que estavam para tratar e acondicionar. Estamos também a actualizar o inventário de toda a documentação que estava em livre acesso, de forma a sabermos exactamente o que é que a biblioteca tinha em função do catálogo. É importante perceber o que sai e o que não sai, para que quando alguém consulte o catálogo nós possamos saber com rigor aquilo que realmente existe. Estamos também a aproveitar este período para fazer a higienização das colecções que estavam em livre acesso. Portanto, neste momento e desde que a biblioteca está encerrada, todos os livros que estão nas salas de leitura estão a ser limpos, um a um. Para além deste trabalho, estamos a fazer a planificação das próximas actividades, para quando a normalidade voltar”.

E acrescenta: “No plano externo, suspendemos os empréstimos e devoluções para as pessoas não se preocuparem com a entrega dos documentos e os prazos que tinham que respeitar. Tudo ficou suspenso até que a biblioteca volte a reabrir as portas. Apesar de estamos encerrados ao público, a biblioteca tem mantido contacto com os seus utilizadores, através do e-mail, das redes sociais, disponibilizando recursos digitais que de alguma forma possam contribuir para manter esta comunidade atenta, informada e ligada à biblioteca”.

As principais solicitações estão relacionadas com pessoas que se encontram a fazer teses de mestrado ou doutoramento: “Temos vindo a responder a utilizadores que precisam de informação para teses de mestrado e doutoramento, porque o trabalho continua e há prazos a cumprir. Disponibilizamos conteúdos digitais sobre o livro, sobre a leitura, facultamos bases de dados existentes nas plataformas digitais, livros, revistas e outras ferramentas, museus online. Damos informação para que a pessoa, mesmo estando em casa, possa ter acesso também ao que existe nos outros suportes. Também disponibilizamos recursos sobre a história local, como as tradições da Páscoa na Póvoa de Varzim. É importante manter este contacto com a comunidade. Há pessoas que continuam a ter que trabalhar em casa, tal como nós”.

Lurdes Adriano revela ainda que quando regressar a normalidade terão que ser reagendadas exposições que tinham uma programação para dois anos: “Uma vez que todas as actividades foram suspensas, vamos ter que proceder a uma redefinição do agendamento, não só de exposições como de lançamentos de livros, actividades para crianças, uma série de programas e actividades que estavam definidas para o dia internacional do livro infantil ou para o dia mundial do livro, todas as efemérides que normalmente a biblioteca costuma assinalar. Tudo terá que ser redefinido de acordo com o planeamento anual e dentro daquilo que já estava agendado. Na galeria da biblioteca temos que conciliar aquilo que estava definido no momento e aquilo que já estava planeado para os próximos dois anos. Vai ser um trabalho de gestão dos espaços e de actividades que a biblioteca vai ter que desenvolver nos próximos tempos”.

Terminado este tempo que nos meteu dentro de casa, a utilização das ferramentas digitais podem também mudar comportamentos, passando a biblioteca a ter mais pedidos por via electrónica. “Já tínhamos muitos pedidos pela internet, de pessoas que não conseguem aceder fisicamente ao espaço da biblioteca. Não vamos abdicar de ter os nossos utilizadores a entrar na biblioteca, a solicitar empréstimos e a fazer a consulta presencial. É evidente que para quem não o pode fazer, porque no fundo acaba por ser uma transformação da vida, não só da biblioteca, mas dos pequenos detalhes da vida de cada um, é importante que a biblioteca se possa transformar e readaptar para ir ao encontro destes utilizadores. Cada vez mais o digital é uma ferramenta muito utilizada e requisitada por toda a gente, não só por investigadores. No fundo, acaba por sustentar aquilo que é uma das missões da biblioteca, o serviço de informação à comunidade, seja ela qual for e onde esteja, e ter a capacidade de corresponder”, explica Lurdes Adriano.
Para manter a biblioteca a funcionar de portas fechadas foi necessário cumprir as normas de distanciamento social: “Estamos divididos em duas equipas com poucos elementos, distribuídos pelos trabalhos, fisicamente afastados, de forma a podermos respeitar as recomendações e orientações da DGS. Temos todos os cuidados, quer mantendo a distância, quer mantendo a higienização das mãos por causa do contacto com os livros. A actualização dos fundos obriga ao manuseamento dos livros que estavam em sala. Já que não é possível disponibilizarmos, pelo menos para já, o livro fisicamente, temos que preparar, em termos de condições de segurança, para voltar a fazer esse empréstimo. É preciso não esquecer que, apesar de a biblioteca estar fechada, temos que respeitar as orientações gerais que toda a população deve cumprir”.

Lurdes Adriano revela também que a página da biblioteca na Internet está a disponibilizar informação onde existem livros digitais para crianças e adultos: “Há muitas plataformas que disponibilizam ou começaram a disponibilizar esses livros e muita ferramenta digital. Com esta informação ajudamos também as pessoas a ultrapassar este momento de solidão, de estarem ‘presas’ em casa. Há muitos museus que disponibilizaram visitas virtuais das suas colecções. Hoje em dia conseguimos viajar dentro de casa e a biblioteca pode também ajudar a ultrapassar estes momentos de confinamento social”.


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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