Voz da Póvoa
 
...

O Trabalho indignifica

O Trabalho indignifica

Cultura | 23 Julho 2026

 

Quando, na semana ainda por vir, esperava o autocarro das 8 para o emprego das 9 aproximou-se de mim, saracoteando-se, um burro.
Já não era novo.
Faltava-lhe pêlo, dentes.
Reverentemente curvou-se, tirou o cigarro, apagado, da boca e o chapéu, coçado, da cabeça.
Propôs, com voz baixa e zurrante, substituir-me no emprego em troca de feno fino e duas albardas; uma para os dias baços da semana e outra, esmerada, para a missa de Domingo.
Aceitei, agora, todos os dias acordo com o chiar dos travões do autocarro das 8, que passa sob a janela do meu quarto, alheio-me, viro-me para o outro lado e continuo a dormir.
Aos domingos a minha cabeça e coração tementes ainda tremem com o sino da igreja, mas viro-me para o outro lado e continuo a dormir.

O Mundo roda à volta do Sol e do seu eixo, eu vivo na minha cama, tranquilo, indiferente aos dias e estações que passam.

Côta Seixas

partilhar Facebook
Banner Publicitário