Voz da Póvoa
 
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O Poema Pouco Original do Medo

O Poema Pouco Original do Medo

Cultura | 1949-A | 1 Abril 2020

O medo vai ter tudo
 pernas
 ambulâncias
 e o luxo blindado
 de alguns automóveis

 Vai ter olhos onde ninguém os veja
 mãozinhas cautelosas
 enredos quase inocentes
 ouvidos não só nas paredes
 mas também no chão
 no tecto
 no murmúrio dos esgotos
 e talvez até (cautela!)
 ouvidos nos teus ouvidos

 O medo vai ter tudo
 fantasmas na ópera
 sessões contínuas de espiritismo
 milagres
 cortejos
 frases corajosas
 meninas exemplares
 seguras casas de penhor
 maliciosas casas de passe
 conferências várias
 congressos muitos
 óptimos empregos
 poemas originais
 e poemas como este
 projectos altamente porcos
 heróis
 (o medo vai ter heróis!)
 costureiras reais e irreais
 operários
        (assim assim)
 escriturários
        (muitos)
 intelectuais
        (o que se sabe)
 a tua voz talvez
 talvez a minha
 com certeza a deles

 Vai ter capitais
 países
 suspeitas como toda a gente
 muitíssimos amigos
 beijos
 namorados esverdeados
 amantes silenciosos
 ardentes
 e angustiados

 Ah o medo vai ter tudo
 tudo

 (Penso no que o medo vai ter
 e tenho medo
 que é justamente
 o que o medo quer)

 *

 O medo vai ter tudo
 quase tudo
 e cada um por seu caminho
 havemos todos de chegar
 quase todos
 a ratos

 Sim
 a ratos

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'

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