Voz da Póvoa
 
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O Escritor é um Bebedor de Estórias

O Escritor é um Bebedor de Estórias

Cultura | 19 Janeiro 2021

Miguel Rojo Fernández nasceu em 1957, Tineo, Astúrias. É doutorado em Biologia e professor. Para lá do ensino, publica do seu imaginário, em asturiano e castelhano, semeando a sua criatividade por vários géneros literários. O seu romance, “Historias de un Seductor” ou o livro de poesia “El Paséu” são dois exemplos de uma obra plena de iluminação criativa. Entre outros, venceu em 1988 o Premio Xosefa Xovellanos, com o romance “Asina somos nós”; em 2005 e 2008 obteve o Prémio da Crítica de Astúrias em Poesia e Literatura Infantil respectivamente, pelos livros “LLaberintos e El viaje de Tin y Ton”. Na 21ª edição do Correntes d’Escritas apresentou o livro “Resulta facil hablar del dia que vas a morir”.

A Voz da Póvoa – Em literatura resulta fácil falar do dia que vais morrer? 

Miguel Rojo – Nem sempre consigo arranjar uma resposta para aquilo que escrevo. Este último livro tem uma história de amor entre um professor universitário e uma aluna, mas também um jovem marroquino que vira radical. Por vezes, nem em literatura é fácil falar da proximidade da morte. Como não vivo da literatura, posso engenhar à vontade. Depois, acabo por levar para a minha escrita algo da profissão. A biologia está sempre presente. Os animais e as plantas entram pela estória com a experiência, mas a literatura, em si, está cheia de biologia.

A.V.P. – O pai foi uma metáfora para o seu mundo literário?

M.R. – Estou fazendo literatura quando conto do que recebi da oralidade. Há sempre quem se encante com o que escrevemos, mas todos os pais sabem que a arte não dá para comer. Todos querem que possamos crescer, viver e depois, encontrar um caminho. Isso acabou por entrar na minha literatura. O meu pai e as minhas metáforas.

A.V.P. – Às vezes uma frase agarra-nos aos livros bebedores de histórias…

M.R. – Creio que a literatura que vamos lendo é como um poço, onde todos os livros vão caindo ali e vão formando um pouco do nosso subconsciente. Quando escrevemos, não tentamos imitar os grandes génios da literatura, isso seria um erro. Agora, tudo o que baixaste no poço, está presente e de uma maneira inconsciente vai saindo nos livros. Por isso, o escritor, antes de o ser, é um grande leitor. Depois, a escrita é um exercício, quanto mais escrevemos, melhor pensamos. Por isso, há que ler muito para que se possa escrever algo medianamente decente.

A.V.P. – Cada leitor lê um livro diferente… 

M.R. – Naturalmente, cada escritor saberá do seu mundo. Eu escrevo uma estória para mim e tem que funcionar medianamente. O curioso é que em cada romance que escrevo, eu descubro vários, nos leitores, porque cada um o reinterpreta à sua maneira. Quando conversamos com os leitores, eles falam da visão que tem do que escrevi e, percebo que me revelam um romance diferente. Isso é maravilhoso. Cada um o reinterpreta consoante a sua própria experiência.

A.V.P. – Na escrita o personagem também vive sem saber nada do futuro?

M.R. – No Romance enquanto os personagens estiverem vivos, vão mudando, transformando-se. Em princípio é na tua cabeça que vivem e, como tem um papel fundamental na obra, vão avançando. Depois, uns personagens desaparecem porque não têm força suficiente e, outros que pensavas serem personagens secundários, ganham uma força terrível. O seu criador é um ser vivo, é como uma planta que cresce, nunca sabes quando vai acabar. É essa a importância do livro, oferece-se à estória.

A.V.P. – A escrita é solitária, mas o escritor tem muitos fantasmas para conversar…

M.R. – O trabalho da escrita é muito solitário e muito duro, porque nunca sabes qual vai ser a resposta. A resposta vem depois com os leitores. Vais pela rua, alguém te pára e diz que gostou muito de determinado personagem com quem se identificou. Aí percebes que cumpriste o livro.

A.V.P. – Todos os escritores têm uma biblioteca, a sua…

M.R. – A biblioteca do escritor, em boa parte fala dele, é o seu género. Cada um busca aqueles autores que por uma razão misteriosa estão na sua biblioteca. Da mesma maneira que, quando escreves, estás também de uma maneira misteriosa com um caminho traçado. Cada escritor tem os seus pais literários. Por isso, é que a literatura está em todo o lado, é tão variada, tão diversa e tão maravilhosa.

A.V.P. – Podemos estar em todo lado mas o melhor era quando tínhamos que ir lá?

M.R. – Sou dos que pensa que a internet foi o maior dos avanços, desde que apareceu a imprensa. É uma revolução absoluta do ser humano, que está ocorrendo. Muitos leitores acedem a obras que de outra maneira não seria possível. Gente que vive afastada, em lugares onde não há livrarias, onde não chegam as novidade e podem consegui-lo pela internet. Eu prefiro ler em papel, mas temos que reconhecer que o livro electrónico pode chegar a muitos mais leitores. O que é preciso é que haja literatura, que haja estórias e que alguém as conte. Os contadores de estórias vêm da oralidade, a origem da literatura. Quando éramos meninos a nossa avó contava estórias sobre a infância, estórias dos povos, aí habitava a literatura oral. Depois, os escritores têm o dom de dar vida a essas estórias, mas somos todos precisos para construir a humanidade.

Por: José Peixoto

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